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A Carmem Louro era uma atriz única. Uma grande senhora, uma grande mulher, uma mulher de uma particularidade. A voz linda da Carmem. E é um exemplo para todos nós. Realmente, eu tenho uma amizade enorme por ela. Nós trabalhamos juntos mais do que uma vez, mas continuamos a ter uma relação muito forte, falávamos muitas vezes ao telefone. Ainda há dias eu falei com ela. E portanto, apanhei-me de surpresa, fiquei um bocado sem perceber bem o que está a acontecer e estou muito impressionado, porque eu adorava a Carmem Louro.

Tem alguma recordação particular? Disse que falavam com regularidade. Tem alguma história que se lembre particular, que lhe fique na memória?

Falamos muito da Virgínia Wolf, que ela fez comigo. Eu brincava um bocado com ela sobre isso. Aconselhava, dizia sempre: "Tenha cuidado, faça isto, faça assim, preocupe-se consigo". E era uma amiga enorme. Falávamos coisas do dia a dia. Mas com a Carmem as coisas eram diferentes, porque a Carmem era a Carmem. A Carmem fica sempre como a Carmem Louro.

E em 60 anos de carreira, algum papel, algum trabalho específico que leve na memória?

Que trabalhou comigo? Ela trabalhou no Estúdio Nacional também, quando era ator ainda. Aqui comigo fez os "Espectros" e fez a Virgínia Wolf. E eu estava sempre a convidá-la para voltar. Mas ela: "Não, não saio, não quero sair de casa". E ia um carro todos os dias buscá-la a Lisboa para vir representar aqui a Cascais. E era de uma franqueza, uma sensibilidade única. Uma grande senhora. E uma mulher de força. Era a Carmem Louro, estou perfeitamente em estado de choque. Faz-me muita impressão, tenho muitas saudades já. E a Carmem, para mim, era a Carmem Louro.