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O 25 de Abril foi ontem, celebrou-se em casa. Vários portugueses cantaram o Grândola Vila Morena a partir da janela, mas a Avenida da Liberdade, onde se costumam fazer os desfiles e onde se reúnem milhares de pessoas, ficou vazia. Apenas um homem desfilou na avenida da capital, uma das principais avenidas. Carlos Ferreira desfilou sozinho com a bandeira de Portugal ao ombro e vários cravos vermelhos. Reformado do setor da hotelaria, Carlos trabalhou mais de 30 anos num hotel naquela mesma avenida e já correu vários anos em provas de atletismo, vestido de empregado de mesa, como foi, de resto, vestido ontem. É uma foto icônica deste 25 de Abril e temos agora conosco, em direto, este senhor, Carlos Ferreira. Muito bom dia, muito obrigada por poder juntar-se a este jornal. O 25 de Abril de ontem foi celebrado de uma forma diferente, como dizia, com as pessoas em casa. Como é que se sentiu ao ser o único na Avenida da Liberdade com a bandeira de Portugal?

Bom dia. Bom dia a quem nos esteja a ouvir e a acompanhar. O meu nome é Carlos Ferreira, ou seja, melhor dizendo, Carlos Alberto Ferreira. Nasci no Hospital da Mealhada, que hoje deram o nome Bairrada, Mealhada Bairrada. Conforme eu nasci no hospital, a minha mãe foi para São João, em Coimbra, que é logo 14 quilómetros acima, que eu já fiz tudo isso a pé, nas corridas. E depois eu fiquei internado. Na altura, já em 48, foi quando eu nasci, 12 de 1948, havia uma enfermeira, por acaso, naquele tempo, eu recordo os dias todos de trás, o que era os médicos, o que era os medicamentos, o que era o bem e o mal da saúde. Recordo o simples cheiro de qualquer farmácia, a gente parece que estava lá, tipo miúdos, tipo jovens. Hoje é mais tipo gandaia, não importa. Só o cheirinho parece que fazia bem, a gente dava lá uma volta, limparam, parece que fez bem. Os hospitais cheiravam a tratamentos, medicamentos. Agora nada cheira a nada, pelo amor de Deus. Vamos começar por aí o fim concreto da humanidade e da vida e das coisas que estão a começar a surgir. Isso era bom de ver, era bom de prever. Os senhores governantes, qualquer país, não é só o nosso, que quanto eu à janela, nós somos aqui para a Seixal Nova, olho para tudo preto, tudo quanto é fora. E portanto é assim, a gente sentia-se bem, hoje é tudo diferente e a senhora, se for uma pessoa qualquer, se tiver um ser humano, se for entrar nos sítios que eu digo, uma vez vinha na imprensa, vocês na imprensa publicaram uma vez as fortunas que as farmácias fazem, não é por acaso que você entra dentro de uma farmácia e vê montes de pessoas ainda, dentro lá deve um é positivo, empregado a balcão ali a servir, a pastelaria é duas, três pessoas, a farmácia é duas, três pessoas, uma se possível, etc, não importa. E então é assim, eu ontem, como hábito, estive na tropa em Setúbal, estive na tropa em Leões, estou a avançar já que é para não ocupar muito tempo. E então tive o prazer, eu e a minha companheira que está doente, que tem Alzheimer, estamos aqui em Ourém, às portas de Fátima. Olha, foi mesmo na vez, a minha mulher ficou lá internada aqui em Ourém e passado uma semana ou nem isso, uma vez veio o vírus e ainda continuei lá a ir duas, três vezes, que nós reformados, ida e volta não chegava a 20 €. Era bom, é positivo, uma hora e pico estava lá. Só que depois os taxistas à saída da rodoviária no centro de Fátima, o cruzamento, para vir a Ourém, é que é um pouco mais caro. Portanto, tenho isso em atenção às pessoas.

Sim, mas então a sua mulher ficou internada. Neste momento, imagino que não consiga ir vê-la. Ontem estava mesmo sozinho.

O prazer ontem foi esse, era isso que ia começar a contar a história do princípio. E então o prazer ontem, quando cheguei à avenida, como acostumo todos os anos, aí o Zé vinha, aquele Zé vinha que este ano não apareceu. Andei lá sozinho. E depois estava lá sentado a montar a bandeira, como costumo todos os anos. As pessoas já me conhecem, pessoas que me veem, até vi alguns que vieram-me conhecer, pediram-me até emprestado o monte de cravos, que se vê nas imagens, que eu sei que houve muita gente, pessoas já me ligaram para aqui, que continuam a ligar, que acharam bem, por bem, eu fazer o que fiz e continuar a continuar é eu estou e contente estou.

E todos os anos costuma participar nas manifestações?

É verdade. Foi isso que eu estava aqui, por isso espalhei-me às tantas coisas a fazer, começar e acabar, a gente costuma dizer isso assim na energia. E então eu estive lá no Salgueiro Maia, no carro, no 74. O fim do 74 foi assim, foi em Santarém. O Salgueiro Maia, nós estávamos deitados, sabe, havia de vez em quando, uma instrução noturna. E como estávamos deitados, aqui a petrografia era graduada e tudo era graduado. E então estávamos deitados e era 22h e tal da noite, o Salgueiro Maia já tinha a coisa toda combinada, tipo em segredo, é óbvio que são coisas de responsabilidade e muita moral, não se pode espalhar nem dizer. Depois chegou lá o fuzileiro, o estudante: "Meninos, tudo para a parada." Ai, meu Deus! "Tudo para a parada, que vai ser noturna." Levantamo-nos através da caverna, lá fomos para a parada e lá estava o capitão Salgueiro Maia, em Santarém ainda. Aí é que começou o verdadeiro, que eu costumo dizer, o 25 de Abril, e depois foi para a glória, para a vitória, para a união do povo, ABC, é povo. Mas começou em Santarém, mas Santarém é bem contar é giro. Então lá saímos, fomos para a parada e aquilo que eu costumo falar, que eu estive quase quatro anos na tropa. Meninos, é assim Eu quero saber que vai haver esta noite uma acção noturna. "Sabe o que é a acção noturna?" Sei, sabemos sim. "Tudo bem. Eu quero saber quem é que está comigo, quem é que vai comigo, que isto é acção nocturna. Agora, vou-vos falar ao contrário. Quer dizer, quem está comigo, quem não estiver comigo, paciência. Quem estiver, é um golpe de Estado." E é um golpe de Estado. De vez em quando, até na giria, na brincadeira, falávamos nisso, golpe de Estado. Quando ele falou mesmo a sério, que a malta não é parvo nenhum, puxamos cá para fora o cérebro. Foi uma guerra que todos queríamos ir, eu pensava que muitos iam se alindar, naquela altura da ditadura, da PIDE, do fascismo. Na altura não se falava em fascismo, falava-se em repressão, ditadura, não sei o quê. O Estado era o Marcelo Caetano.

Não hesitou em tentar derrubar o regime e conseguiram. Ontem, como é que se sentiu ali na Avenida da Liberdade, sozinho?

Ontem foi assim: quando entrei, vim cá por baixo, desci a Calçada do Carmo já sem ninguém, como costumo. Já está tudo habituado, já ninguém quer ninguém. Começo a descer a Calçada do Carmo, dei os meus carinhos, vou logo em direção ao Rossio, ao centro do Rossio, devagarinho, com calma. Ainda era 10 e tal da manhã, que é o costume. As pessoas, quando me veem cá por baixo, a vender as cocas, pensam que o homem chegou agora. Não, eu já estou desde 9h30, 10h00 no Carmo. Estava lá e vi só mais duas, três pessoas. A cena é que o ano passado havia corridas. Este ano, nem corrida, nem as corridas.

E foi a primeira vez em 46 anos que não houve desfiles.

É verdade. Bem verdade. Quem fala bem, fala bem. Quem fala bonito, é bonito e está a iludir, enganar, a trafiar. É o mal dos políticos, dos partidos e quem serve a política.

Mas foi um momento de tristeza e de solidão ou de homenagem? Como é que se sentiu?

As duas coisas ao mesmo tempo. A homenagem, que eu não me canso de fazer homenagem, uma obra que foi bastante bem feita e humana. Foi uma coisa bastante amorosa, alguém dizia amorosa, humana. Como não fui à TAR quando o senhor Estívolo morava cá em cima do Campo de Santana, quando foi no Carmo. E agora que vamos entregar, o golpe deu sorte, deu resultado e estava tudo espassarado. Os próprios comandantes da tropa, o Salgueiro Maia estava em cima do blindado, o pai do jornalista, que é comentarista, estava também em cima do blindado junto ao edifício do Carmo. Vi-se mesmo que a ideia já estava a começar a ganhar raiz. E a gente estava a ficar cá atrás, eu estava mesmo junto ao Salgueiro Maia, aos blindados, estavam uns soldados lá e depois o Salgueiro Maia disse: "Deixem-me só recordar este bocadinho". E ele disse assim: "Não tenho horas para esperar mais tempo. Vou contar até três. Quando eu começo, não temos de esperar mais tempo". O Estívolo já estava a demorar. "Vou contar até três e pronto, vocês fazem a coisa". Começou: "Um..." E a gente com as G3 na mão, lá todos fardados, todos arranjados em cima. E contou três: até que já estava a começar a encher-se de povo, o povo unido. Começou tudo a fugir para lá abaixo, em direção à estação do comboio, outros baixo dos bancos. Alguns apitávamos os tiros, fugiram em frente a um prédio lá para cima, lá para o alto, outros lá para trás da Maria Cardoso, que era o sítio deles, naquelas igrejas. E depois no fim do outro dia, no mesmo dia, fomos à procura deles, nas igrejas, ali ao pé de onde vamos chegar ao Camões, lá ao Chiado. O que é que acontece? Ontem, pronto, vamos ser mesmo sérios. A história é tão importante, é tão grande, que meu Deus, não aguento.

É difícil contar em pouco tempo.

É verdade. Um dia mais tarde, às vezes, quando vocês fizerem o resumo concreto, é digno de contar.

Mas são memórias e um testemunho na primeira pessoa e as imagens que circularam do senhor Carlos Ferreira, de facto, vão marcar este 2020. Já agora, o controle da polícia foi apertado na Avenida da Liberdade e tem sido neste estado de emergência. Não foi abordado por nenhum agente?

Fui. Foi uma questão, foi já ao chegar ali ao Hotel Vitória, que é o PC, estavam lá também fechados. São revolucionários, não sei o quê, são lutadores. No final de contas, estava tudo fechado, aquilo lá ouvia-se a grãola lá dentro, a nível de paredagens a controlar. E eu cá fora, lá vai sair tantos. Um gajo, um ser humano como eu, não é por estar eu ali na Avenida. Estava cheio de pessoas, parece que havia lá uma conferência de imprensa em frente onde era o Teatro Tivoli. Do lado é o Hotel Tivoli, eu trabalhei com o Sousa Silva. O Sousa Silva foi meu colega lá, era groom, eu era empregado de mesa, com muita honra. Conheci muita gente, o Sá Carneiro era nosso cliente lá no Tivoli, todos os dias de manhã, com a malinha na mão, todo aprumado, como é o costume dele para ir e for. Essa pessoa lá vai. E depois o Cinta cá em baixo, dois amigos leais, concretos, empresários da Alemanha. Essa história é incrível.

Era impossível não reparar ontem no senhor Carlos Ferreira com a bandeira, uma bandeira muito grande. Mas foi abordado de forma cordial por toda a gente?

Foi. Além de ser poucos juntos, poucos e bons, foi assim: começo a subir devagar, sentemo-nos nos restauradores. A polícia já estava, assim que me viram, eles queriam ser eu, cá está o homem da bandeira, de fardado, de empregado de mesa, tal qual, como deve ser. Empregado de mesa, lacinho, camisa branca, casaco branco, aqui tenho o cartão da sessão 25 de Abril, que é cá em cima ao pé do Camões, lar da Misericórdia. Lá da Misericórdia, fomos lá e há missa cá em baixo. Lá em cima, o lar da Misericórdia. Sessão de 25 de Abril. E ia para cima, lá subia a avenida, a polícia começou logo todos a mobilizar. Já começaram a trafegar isto tudo Eu lá pus uns banquetos em baixo, aqueles encarnados quando é para os carros não passarem. Foi uma susto. E então para fora, houve dois que se sentaram, que eu estava acabado de ajeitar a bandeira cá em baixo, no Largo dos Restauradores, junto à estátua, mas a estátua é mais acima. E lá apareceram dois tipo monges, tipo indianos. Não eram brasileiros, nem nada. Começaram para ali a falar e eu disse: "Meu Deus", e eu a apertar a bandeira, a ajeitar o resto, que eu já senti que aquilo acabara tudo devagar. Lá ajeitei, depois fui cá para cima, pus a coisa às costas, um saquinho pequenino branco, como a ferramenta que eu costume. Lá fui para fora, fui andando, fui andando e começar a ver, que eu não sou nenhum cego, diz o outro, graças a Deus. E comecei a ver a Polícia à mobilidade, porque há o Largo da Anchieta, cá em baixo, no primeiro cruzamento, que é a saída dos Restauradores, entra na Avenida da Liberdade. E entro para cima, comecei a ver a Polícia e eu a tentar seguir em frente, só que, como eu digo, fui da tropa, eu passo fantasma, cada passo fantasma era quase meia hora. E então, com todo o cuidado, bom, agora a salutar estes senhores, não sei como é que eles estão, os antigos, a gente sabia quem era. Antigamente era possível tornar a Polícia como deve ser, com o partido. E então vou por aí acima, chego ao cruzamento, muito devagar, pensei lá no Vitória, que é quando eu lembro daquele hotel, era um hotel Vitória, foi deixado e eu pensei: "Porventura". E então, começo a ouvir "Grândola Vila Morena", aquilo começou dentro de mim a chamar, a ressuscitar o ser humano. E depois, ao mesmo tempo, quando eu chego lá, vejo tudo encurralado. Começo a olhar para o quartel, muito que eu fui olhar disfarçado, olhar à modesta. E vejo as pessoas ali, depois começo, os fotógrafos estão mesmo interessados no trabalho, começam a tirar fotografias. Eu andei, força, aquele dia estava, eu aproveito um dia, já cheira aqui muito a fascismo. O fascismo era fascismo, não era como está aqui hoje. Tudo, não se vê ninguém. Mais acima, uns metros, vejo um corrimento de pessoas, seres humanos, à civil, interessados. Pensei que era a Polícia ali, pôs-se ali no meio para ninguém passar. Eu vejo, de qualquer das maneiras, eu vou, venha quem vier, seja quem estiver. Mas depois, afinal, quando estavam lá a fazer uma conferência de imprensa qualquer, e conforme eu vou passando, a imprensa, os fotógrafos todos a aproveitarem, toca a tirar fotografias, muitos já sabiam quem eu era, qual era o meu propósito, o meu costume. Há muita imprensa, alguns de vocês já sabem quem eu sou. Muitos de vocês têm colegas, vocês não sei se sabem, a mim não se sabe, mas continuo a falar sobre quem sou. Sou das corridas, candi datei nas presidenciais três vezes, sem medos, como diz o outro. Aqui a autarquia, terceira barcarena, fui colega do José Altino. Estive uma vez com o José Altino e disse: "Olhe, você, doutor, cá de selesai, para evitar o descamardo das pessoas. Há uma pessoa que, desculpe o Deus do falar, é de esquerda, é revolucionário, ele gosta muito de si. Você é da política como a pova coze a ponta dele, ele gosta muito de si." "Mas quem é que é essa pessoa?" Eu peço aí suspense, como a imprensa faz, vocês da imprensa. "Mas quem é que é?" "Olhe, vou dizer quem é. Ele viveu é o Hotel Serra do Carvalho, Hotel nomeou-se Serra do Carvalho." "Esse, eu sei. Olhe, Oeiras tem aqui uma rua com o nome", eu já estive em casa dele, mais a minha mulherzinha que está doentinha.

Senhor Carlos Ferreira, tem de fato um percurso, estou a perceber, social e político, e esse caminho solitário que teve ontem na Avenida da Liberdade vai ficar certamente na história desde 25 de abril de 2020. Sei que desde o início, desde a revolução, que marca sempre presença, foi um caminho solitário. Agradeço-lhe imenso, senhor Carlos Ferreira, o homem desta fotografia, que partilhou aqui o testemunho conosco neste jornal, Carlos Ferreira, que caminhou sozinho pela Avenida da Liberdade, mas a representar essa mesma liberdade que Portugal conquistou em 1974.