Trago novidades fresquinhas (claro) do mundo dos ultra-congelados. Houve um ataque informático a vários supermercados europeus, que inutilizou arcas frigoríficas e estragou toneladas de alimentos. Por cá, as únicas lojas afectadas foram alguns supermercados Intermarché, propriedade do Grupo Mosqueteiros. O que pode explicar a vulnerabilidade ao ataque. Como qualquer estudioso que tenha analisado todos os episódios do Dartacão sabe, o amor da Julieta é o elemento extra decisivo na capacidade dos Três Mosqueteiros se defenderem de ataques. E eu parece-me que o Grupo Mosqueteiros não recorre aos préstimos do adorável cachorrinho.

Mas fica a dúvida: então agora admite-se que uma pessoa traga do supermercado uma embalagem de cogumelos, quando na verdade foi comprar uma embalagem de rissóis e os cogumelos são oferta da casa sob a forma de dano colateral de horas e horas de frituras a apodrecer ao calor? Claro que não se admite. Portanto, chegou a hora de inscrever na Constituição da República Portuguesa o direito à refrigeração. Quem se junta a mim numa acampada no Rossio até vermos o direito à refrigeração inscrito na Lei Fundamental da Nação?

À Renata Cambra acho que não vou pedir. Porque depois daquela juíza ter decidido — mais rápido do que José Sócrates arranja um advogado novo — que a líder do Trabalhadores Unidos era a única campista do mundo autorizada a montar a tenda no Rossio, logo na primeira noite a Renata não pernoitou na praça D. Pedro IV. O que parece confirmar que a sequência lógica “D. Pedro IV, D. João I…” é mesmo o “Dom para armar confusão inconsequente, sem qualquer vislumbre de sugestões alternativas viáveis”. Tudo se resume pois a “Luzes, Cambra, Revolução!”

A propósito de revolução, a verdade é que faz realmente sentido trazer a questão da Palestina para as acampadas “contra os problemas da habitação”. É que este tema partilha algo de fundamental com a questão do Médio Oriente. Tal como se, em Gaza, o Hamas depusesse as armas amanhã haveria paz, também em Lisboa e no Porto, se amanhã os meios de comunicação social depusessem as câmaras de filmar, teríamos paz com o fim das acampadas.

É, os incentivos são uma coisa tramada. Quando confluem então, ui, aí é tipo alinhamento planetário, daqueles que os Maias aproveitavam para monumentais sessões de sacrifício humano (fascinantemente evoluídas, estas civilizações centro-americanas que o selvagem do Cortés encontrou). No caso em apreço, o problema é simples: tanto para os activistas como para a generalidade dos meios de comunicação social, quanto pior as coisas correrem nas acampadas, melhor. Quanto mais violentas forem as reacções que conseguirem provocar à Polícia, melhor para os agitadores. E quanto mais violência a Polícia exercer sobre os agitadores e vice-versa, melhor para a generalidade dos meios de comunicação social. Surpreende que nenhuma das partes tenha especial incentivo em contribuir para apaziguar os ânimos?

Pelo meio, cá estamos nós, com a expectativa idiota de ir passear tranquilamente ao Mercado de Natal no Rossio com a família e assim. E tudo sem nos preocuparmos com esta versão do Grinch que roubou o Natal, na figura dos guinchos dos activistas, que quase roubaram o Mercado de Natal. Só faltava mesmo, a pretexto da crise da habitação, também o Pai Natal ficar sem casa.

Sendo que sobrou para a Câmara lidar com a Cambra: deixar-lhe a tenda, ou tirar-lhe a tenda? É fazer moeda ao ar num cara ou coroa e no fim ver se o Moedas vai ao ar à conta desta polémica. O que, por si, não significaria nada, atenção. Basta ver como o Pedro Nuno Santos, as Mortáguas, ou um Fabian Figueiredo, que foram todos democraticamente ao ar, agora se passeiam entre os comparsas idiotas úteis com a posse altiva de quem constata o óbvio: a solução para os problemas na habitação criados pelo socialismo é… mais socialismo! Um delicioso pacotinho de ideias, indiferente a ataques informáticos. Ao simples contacto com a realidade, apodrece.