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Depois de alguma recuperação e contenção no aumento de casos, voltam a subir os números nas últimas semanas. O lar de Aljubarrota, em Alcobaça, estão aqui 43 casos positivos de COVID-19. No lar de Cinfães, os casos chegaram aos 57 e, mais recentemente, no lar de Reguengos de Monsaraz, no distrito de Évora, já há 62 casos positivos da doença. Para nos ajudar a analisar esta situação preocupante nos lares, junta-se a nós João Ferreira de Almeida, o presidente da Associação de Apoio Domiciliário de Lares e Casas de Repouso de Idosos. Boa tarde, João, obrigada por se juntar a nós.
Muito bom dia. Ainda não almocei.
Bom dia, então. Esta semana, a Directora-Geral da Saúde, Graça Freitas, apelava a maiores cuidados por parte dos trabalhadores dos lares e pedia responsabilidades acrescidas aos funcionários. Considera que há aqui alguma responsabilidade por parte dos trabalhadores neste aumento de casos?
Eu costumo falar em responsabilidade. Gostaria mais de falar em termos da origem das infecções vir através das empregadas, que todos os dias nos entram pela porta pra entrar no serviço. Talvez seja uma maneira mais equilibrada de pôr a questão. É um risco muito acrescido, como eu já disse muitas vezes, nós termos as empregadas todos os dias a entrar pela porta, vindas, na grande maioria, de transportes públicos. E a questão do vírus também ter uma fase assintomática antes de se declarar a infecção, também é uma dificuldade muito grande.
Há alguma forma de contornar?
Por muitos cuidados que haja, é sempre um risco muito grande e uma possibilidade de acontecer infecções.
Há alguma forma de contornar este risco a que faz referência? Alguma medida que possa ser adotada para prevenir precisamente que alguém que entra e sai do lar possa infectar os utentes desse mesmo lar?
Não, as medidas são tomadas com os planos de contingência que os lares devem implementar, mas depois, sobretudo, como também já disse várias vezes, o essencial será o rigor e a disciplina de cumprir esses planos de contingência e as regras de proteção, de segurança e de higiene.
E isso não tem acontecido?
Será o primordial.
Isso não tem acontecido?
Eu quero acreditar que sim, que as pessoas têm cuidados, mas como digo, é um risco muito grande e de difícil controle. Por muitas precauções que haja, pode acontecer sempre qualquer coisa. Não devia, mas o essencial, como lhe digo, é haver uma disciplina muito grande na aplicação das medidas do plano de contingência de cada lar.
Como é que interpretou a declaração da Directora-Geral de Saúde, Graça Freitas, na passada semana, que indiciava que estes recentes casos, que têm precisamente origem nos funcionários desses lares, como um puxão de orelhas?
Puxão de orelhas, não, até porque não é com puxões de orelhas que se lá vai. Agora, chamando a atenção pra necessidade do cumprimento das regras, como acabei de dizer, isso é sempre bom. E ainda agora, por coincidência, acabei de receber um e-mail do Centro Distrital da Segurança Social, exatamente alertando pra urgência e pra premência de se cumprir o que está nos planos de contingência de cada lar.
João de Almeida, com o desconfinamento, os lares de idosos voltaram a receber visitas de familiares desde o dia 18 de maio. A verdade é que passadas duas, três semanas, os números de casos em lares dispararam novamente. Acredita que há aqui alguma relação?
Poderá também, eu ia falar nisso também, poderá realmente haver alguma relação, até porque há dois dias, num órgão de comunicação social, me pediram para falar sobre esta mesma questão. Eu tive o cuidado de falar a alguns membros da direção da nossa associação, pra confirmar uma ideia que tinha e que me confirmaram que sim, é que há alguma indisciplina por parte dos familiares quando vão fazer as visitas aos lares. Em vez de ir só uma pessoa de cada vez, e só uma vez por semana, para cada idoso, as pessoas vão duas e três, em simultâneo, com contato físico aos idosos, apesar de serem avisados de que não deve haver. De maneira que, essa alguma indisciplina, não digo que isso seja generalizado, mas há casos em que já aconteceu. E potencialmente pode realmente provocar infecções.
E os lares não conseguem impor o cumprimento dessas regras?
Impor é difícil, porque nós podemos aconselhar e podemos fazer pressão para que as pessoas cumpram as indicações que são dadas. Agora, depois, só com confronto físico é que se lá vai. O que é de evitar, como é evidente.
Tendo em conta esta realidade, acha que seria de considerar dar um passo atrás nas visitas, como já têm feito vários lares, de resto?
Fizeram alguns lares, e bem. E penso que seria de equacionar essa questão à Direção-Geral de Saúde, sobretudo, como também já disse, nas zonas em que há focos fortes ativos de propagação da epidemia Estou a falar no Algarve, em que as misericórdias fecharam as visitas. Não sei se os outros também, mas pelo menos as misericórdias fecharam as visitas no Algarve. Mas depois aqui nos concelhos à volta de Lisboa, onde estão a acontecer números de novos casos preocupantes, era natural que a Direção-Geral de Saúde equacionasse se sim ou se não. É muito violento voltar a fechar as visitas dos familiares aos idosos, é muito violento emocionalmente. De maneira que não são coisas simples de resolver.
Espera que essa decisão seja tomada hoje, na sequência da reunião do primeiro-ministro com os autarcas dos cinco municípios da região de Lisboa mais afectados pela Covid-19? Gostava que essa decisão saísse desse encontro, a proibição de visitas?
Tenho dificuldade em lhe dizer que sim ou que não, porque como lhe digo, é muito violento voltar de novo a restringir as visitas aos familiares, porque os idosos ressentem-se muito da falta de visitas, os familiares também, como é natural, de maneira que é realmente violento. Um segundo período de proibição de visitas é realmente violento. Agora, temos que pensar no bem maior a salvaguardar, que é a saúde dos idosos. De maneira que temos que pesar aqui prós e contras, benefícios e prejuízos, e tomar uma decisão.
Em relação aos lares, há agora um outro problema, que é a quantidade de instituições em situação ilegal, sem autorização, que estão a ser sinalizadas pelas autarquias. Sendo instituições ilegais, o que se pode fazer nestes lares para combater a pandemia, tendo em conta que já foram detectados casos em alguns?
Pois, isso também logo em março, eu disse que onde tinha receio que a situação fosse bem pior era nessas casas ilegais ou clandestinas, porque é, de facto, complicado. Há 15 anos que nós, a ALHI, a associação, andamos a protestar contra o elevadíssimo número de casas clandestinas que grassam por todo o país e sem que se tenha feito alguma coisa. Agora que estão aflitos com a situação dos idosos nessas casas, resolveram realmente proceder a esse levantamento, que eu acho bem, como é evidente. Também sempre disse que era só uma questão de quererem e de trabalharem em conjunto com os corpos de bombeiros locais, que seria fácil detectá-los, porque os bombeiros vão lá buscá-los para irem ao hospital, para irem a consultas, para irem a tratamentos e sabem onde eles são todos. Era só uma questão de querer. Agora finalmente quiseram e ainda bem.
A associação tem ideia de quantos lares ilegais é que existirão em Portugal e quantos utentes têm?
Nós temos uma estimativa, que já tem alguns anos, mas que penso que se manterá atual. Temos uma estimativa de cerca de 3500 casas e que nem é para o país todo, só contemplamos os distritos de Setúbal até Viana e os distritos junto ao litoral. Três mil e quinhentas casas. Se fizer uma média de 10 idosos por casa, que é baixa, chega facilmente a 35 mil idosos instalados nessas casas e obrigados a estarem lá em más condições, porque infelizmente, na grande maioria dos casos, já não são os idosos a decidir da vida deles, mas são outros que decidem por eles.
João Ferreira de Almeida, uma última questão sobre estes lares ilegais. O PSD vem hoje defender um período excepcional para a legalização destas instituições. A Associação de Apoio Domiciliário de Lares e Casas de Repouso de Idosos concorda com esta ideia?
Olhe, que se tem que fazer alguma coisa, tem. Não sei se essa será a melhor ideia, porque se poderá levar à resolução de alguns casos, se calhar não muitos, mas pelo menos alguns casos de ilegalidade. Por outro lado, é de uma injustiça muito grande para quem teve despesas brutais para se adequar às exigências da legislação que está em vigor, que tiveram que investir largos milhares de euros e aparecerem agora estas casas que, mais ou menos ad hoc, poderão ser legalizadas. Agora, que havia necessidade de fazer alguma coisa, isso não tenho dúvida que é. E que é difícil, também não tenho dúvida que é, mas pode ser muito injusto. Não sei se resolverá alguma coisa, porque há tipologias dessas casas clandestinas muito diferentes. Mesmo que se flexibilizem algumas regras, se calhar continuam a não ter condições de se adequar, ou então essa flexibilização é de tal maneira grande que é capaz de ser exagerada.
Muito obrigada por se ter juntado a nós, João Ferreira de Almeida. Obrigada pela sua disponibilidade.
Muito obrigado eu.
Foi João Ferreira de Almeida, presidente da Associação de Apoio Domiciliário, Lares e Casas de Repouso de Idosos, para nos ajudar a contextualizar mais como é que o Covid-19 está a afetar esta população.