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Temos no Jornal das 10 da Rádio Observador, Filipe Garcia, economista da IMF, Informação de Mercados Financeiros. Bom dia, bem-vindo à Rádio Observador, obrigado pela disponibilidade. O Estado está, com esta decisão, a fazer um favor aos bancos?

Olá, bom dia. Sem dúvida que a banca terá menos pressão para subir a remuneração dos depósitos, num contexto em que os depósitos recuaram ou caíram cerca de 15 mil milhões de euros este ano, que é um montante bastante impressionante. Eu acho que do ponto de vista do racional do Estado, e depois podemos falar um pouco mais sobre as diferenças do produto, há aqui duas questões: uma mais explícita, que é a diminuição do custo do endividamento, porque os Certificados de Aforro, neste momento já representam cerca de 30 mil milhões de euros, ou seja, cerca ou até um pouco mais do que 10% da dívida pública portuguesa, e a remuneração está a ser acima daquilo que são as alternativas de financiamento da República no mercado. Ou seja, dito de outra maneira, neste momento o Estado português consegue levantar dinheiro mais barato do que através dos Certificados de Aforro. E enquanto a percentagem sobre a dívida pública era pequena, residual, se calhar isso não era um problema, a partir do momento em que representa mais de 10% da dívida pública, já começa a ter mais impacto. Esse é um dos lados do racional. O outro lado racional, que não podemos deixar de pensar, mas é altamente especulativo, é que pode ter havido também alguma pressão da banca neste sentido, não vou dizer o contrário.

Até porque os depósitos a prazo têm taxas baixas. Já se percebeu por que isso acontece?

Pela comparação que se faz com outros mercados, nomeadamente europeus, é cada vez menos compreensível. Por um lado, é verdade que tem havido uma melhoria das condições nas últimas semanas, essencialmente no último par de meses, e creio que também em reação a este movimento dos Certificados de Aforro, ou seja, de fuga de depósitos para Certificados de Aforro, e houve já uma subida das remunerações. Agora, não se compara com aquilo que é possível obter noutros bancos, nomeadamente no estrangeiro, e então em montantes maiores, nem se fala. Ou seja, as taxas de depósito que existem para maiores investidores ou aforradores é muito melhor do que aquela para os pequenos. Portanto, os pequenos que tinham aqui nos Certificados de Aforro uma forma de alguma maneira de lutar contra a inflação, perdem um pouco dessa dinâmica. Eu creio que os bancos portugueses têm jogado um pouco com a inércia dos aforradores para contar que podem, de alguma maneira, refletir as taxas Euribor nos financiamentos, mas não refletir nos depósitos. Eu creio que não há outra justificação. Eu tenho sido crítico dessa medida. Percebo-a da lógica meramente financeira, mas creio que perturba a relação de confiança entre os clientes e os bancos, porque sentem que é uma assimetria de tratamento. Havia esta pressão para que os bancos remunerassem mais os depósitos. Não é que deixe de haver, mas sem dúvida nenhuma que esta nova série é muito menos favorável para as famílias do que a anterior.

Mas ainda assim continua a ser uma boa forma de investimento ou de poupança para as famílias? Já sabemos que há sempre aquela questão da inflação e do valor da inflação que acaba por comer uma parte desta poupança, mas continua a ser uma boa opção?

Dentro do menu que existe sem risco, é relativamente atrativo, mas começa a ser muito menos atrativo. Basta dizer que a taxa base máxima passa a ser 2,5%, com a taxa base a ser definida pela Euribor. Mas, por exemplo, no caso atual, que temos a Euribor de três meses quase a 3,5%, passa a ser 2,5. Mas a parte pior até é outra: é que a série anterior tinha como taxa de base a Euribor de três meses mais um ponto percentual. Quer dizer que, por exemplo, se a Euribor de três meses fosse 1%, a taxa de base passaria a ser 2. No novo produto, se a taxa Euribor for 1%, a taxa que vai ser aplicada vai ser 1%. Portanto, é bastante pior e num contexto em que as taxas de juro, provavelmente em termos de Euribor, estejam perto de bater o máximo, se calhar daqui a um ano, ou algo assim do gênero, vai se notar que esta série é bastante pior que a anterior.