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O Primeiro-Ministro anunciou hoje uma linha de apoio de €600 milhões destinada a financiar algumas empresas, empresas estas cujos custos da energia representam mais de 20% dos custos de produção. Está conosco Armindo Monteiro, o presidente da Confederação Empresarial de Portugal. Muito obrigado por ter aceitado o convite para falar com a Rádio Observador. E Armindo, como é que reage ao apoio anunciado por Luís Montenegro?
Olá, boa tarde. Nós estamos realmente num estado de emergência económica. Por quê? Porque a energia é a prioridade absoluta. É óbvio, isto é uma verdade lápalis, os custos energéticos são claramente a questão número um para muitas empresas que fazem parte do setor industrial português. E nós continuamos a viver numa ilha energética, ou seja, nós e Espanha, mais nós e já explico porquê, temos uma separação da Europa por este muro que são os Pirenéus e por isso não nos chega a energia aos custos que normalmente as empresas que operam na Europa têm. Espanha tem uma energia nuclear e nós não temos. E eu não estou a fazer apologia da energia nuclear, estou apenas a constatar o óbvio. Nós não temos energia nuclear e por isso quando há essas crises energéticas, apesar da energia que temos de fontes renováveis, ainda não é suficiente para as necessidades da nossa indústria e estou a falar em particular dos eletrointensivos, portanto, os consumidores fortes e intensivos de energia. Por isso, esta medida, que foi anunciada hoje pelo senhor Primeiro-Ministro, naturalmente que saudamos de forma positiva. Nós precisamos ser competitivos, seja nas empresas que são eletrointensivas, mas também para a nossa logística. Se nós não tivermos as condições que Espanha tem para o transporte, a nossa competitividade fica circunscrita à fronteira. Portanto, deixamos de ser competitivos a partir de Vilar Formoso, a partir de Elvas, a partir de Badajoz. Ou seja, precisamos de ter as mesmas condições e esse ponto foi agora concretizado e saudamos, naturalmente, esta medida. Uma vez mais, contamos com o Banco de Fomento e é importante nós termos no Banco de Fomento esta capacidade de resposta. Naturalmente, gostaríamos que não houvesse apenas, como aqui foi anunciado, linhas de crédito, gostaríamos que houvesse capital. Por quê? Porque as linhas de crédito têm sempre subjacente um juro. Um juro é um custo e, portanto, esse custo, ainda que mitigado, continuará a ser algo que nos vai diferenciar do resto da Europa.
Era mesmo sobre isso que lhe ia perguntar. Mesmo sendo este apoio apresentado nestes moldes como uma linha de financiamento, mesmo assim é um apoio que vai beneficiar as empresas?
É sem dúvida, é um apoio que vai beneficiar as empresas. Seria melhor se não fosse uma linha de crédito, mas não queremos de maneira nenhuma ser contrários, porque não somos, somos favoráveis às medidas. Estamos a dizer é que seriam ótimas e não apenas boas. Ou seja, são boas estas medidas que foram anunciadas, mas o facto de terem um juro, e o juro é um custo, e um custo vai continuar a diferenciar-nos da situação que as empresas europeias têm, que têm de facto energia a custos inferiores aos nossos, e isso pode significar também termos um preço final do produto superior. Ora, a nossa competitividade não se pode perder aqui neste aspeto.
De que forma é que Luís Montenegro pode apoiar mais as empresas do seu ponto de vista?
A comunicação com o governo tem sido frutífera nas nossas conversas e o interlocutor é naturalmente através do Ministério da Economia e o senhor ministro tem sido sensível às nossas preocupações. Haveria, porventura, dois aspetos que poderemos ainda melhorar e acreditamos que há margem de manobra aí. Um, é desde logo a simplificação de procedimentos. Há a necessidade de simplificarmos esses procedimentos, e também temos estado a trabalhar com o senhor ministro da Reforma do Estado, mas é preciso que estas alterações se concretizem, e se concretizem rápido. Os custos que as empresas têm, e aqui não estou a falar de custos financeiros, estou a falar de custos económicos, são custos elevados. O outro ponto é a fiscalidade. A fiscalidade nós continuamos a ter, apesar da redução das taxas de IRC, continuamos a ter uma tributação elevada. Mas eu queria destacar este último ponto que vou referir, que é a necessidade de nós aumentarmos a resiliência das empresas. Nós temos tido muitas crises. Tivemos há algum tempo atrás, parece que foi há muito tempo, mas não foi assim há tantos anos, tivemos a crise do Covid, que tirou boa parte da energia às empresas. Depois tivemos todas as consequências resultantes da invasão da Ucrânia. Tivemos recentemente, e essa foi bem portuguesa essa crise, que nos atingiu com particular força na zona de Leiria e arredores. Agora temos esta crise energética, ou seja, nós temos que preparar as nossas empresas, temos que ajudar que as nossas empresas sejam resilientes, para serem resilientes e estarem preparadas para todas as crises que mencionei, mas sobretudo aquelas que virão aí, porque naturalmente não estamos a assistir à última crise das nossas vidas, infelizmente. Temos que permitir que as empresas tenham bolsas de resiliência. E isso significa permitir que tenham a capacidade de reter na empresa alguma mais-valia do que produzem, porque neste momento não é assim. Neste momento, as empresas não têm essa capacidade de reter receitas que permitam investir no futuro. É inexorável a forma como hoje as empresas são desprovidas destes meios por custos que muitas vezes nem sequer aproveitam ninguém, são apenas ineficiência do sistema e é aí que temos que melhorar.