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Junta-se agora a nós, neste "Jornal Observador", o investigador e especialista em incêndios, Xavier Viegas. Muito boa tarde, Xavier Viegas. Obrigado por se juntar a nós. Pergunto-lhe como é que olha também para as declarações do Presidente da República na última madrugada, que disse que a pandemia de Covid-19 acabou por atrasar a limpeza das matas. Pergunto-lhe se concorda e se este é, neste momento, um problema.
Eu estou de acordo, porque realmente o confinamento das pessoas limitou a movimentação, a capacidade das pessoas trabalharem, mesmo no exterior. Creio que também não foi assim um mal muito grande, porque este ano, pelo menos em várias regiões do país, tivemos chuva até relativamente tarde. Portanto, se tivéssemos antecipado o corte da vegetação, provavelmente ele teria que ser repetido. Creio que não foi um problema por aí. Talvez admito que na quantidade diária que devia ser tratada tenha havido alguma redução, mas não foi completamente inconveniente.
E neste momento, o que é que falta? Tem que ver com sensibilizar a população, por exemplo, o que está a falhar neste momento?
Eu direi que a própria sensibilização das pessoas, da população, tem estado melhor. Notamos mais a presença de campanhas. Aliás, os próprios incêndios de 2017, naturalmente, criaram uma reação muito grande nas pessoas, uma grande sensibilidade, e ela tem sido mantida. Eu vejo um reflexo disso, por exemplo, na redução do número de incidentes, portanto, número de fogos de incêndio, que tem vindo felizmente a reduzir-se. Não apenas desde 2017, isto já é uma tendência anterior, mas eu creio que esta maior sensibilidade das pessoas pode ser muito importante na medida em que possa levar a reduzir o número de ocorrências em dias de elevado risco, como aqueles em que estamos agora a viver. Isso é muito importante. E é essa uma das mudanças que eu creio que houve e que são positivas em todo o sistema, todo o problema que o país vive à volta dos incêndios.
Xavier Viegas, já ouvimos hoje aqui na Rádio Observador a secretária de Estado da Administração Interna, Patrícia Gaspar, falar sobre estas próximas 48 horas, que têm condições meteorológicas propícias pra propagação dos incêndios, com muito calor, o tempo muito seco. O Xavier Viegas já dizia há algumas semanas que faltava ainda fazer muito, um trabalho estrutural ainda por fazer, no que diz respeito ao combate aos incêndios. Teme que possam repetir-se alguns cenários que fomos vendo em anos anteriores, ou considera que muito foi sendo mudado, por exemplo, desde 2017, e que estamos agora muito mais bem preparados para fazer esse combate?
Eu creio que onde tem havido melhorias claras é realmente na parte do combate, na parte de intervenção e da supressão do fogo.
Portanto, o que está a dizer é que na prevenção tem falhado alguma coisa.
Exatamente. E continuamos a notar falta, embora me pareça ver alguns sinais, alguns indícios de que algo está a mudar e algo está a começar a fazer. Só que é um trabalho que demora muito tempo e é difícil ver resultados em pouco tempo, mas há indicações positivas. No imediato, naquilo que seria necessário ter sido feito, eu, por exemplo, neste momento estou aqui em Castanheira de Pera, e toda esta área que ardeu em 2017, de fato, vê-se uma grande falta de gestão. Vimos o reaparecer dos eucaliptos, das acácias, sem qualquer gestão e, portanto, criação de condições que podem ser extremamente perigosas. E oxalá não aconteça aquilo que está a dizer, que possa ser uma repetição dos cenários que tivemos em 2017.
E se bem nos lembramos, Castanheira de Pera foi um dos conselhos mais afetados por esse grande incêndio na zona centro, em 2017. Muito obrigado, Xavier Viegas, por ter estado conosco neste "Jornal Observador". É especialista em incêndios, investigador também nesta área, ao longo dos últimos tempos, também a ajudar-nos a olhar de outra forma para essa necessidade de fazer a prevenção antes desse combate aos incêndios. Conosco neste jornal também para sublinhar esse problema da falta de limpeza das matas, esse problema para o qual já alertou também o presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, que disse ontem, já quase madrugada, que a pandemia da Covid-19 acabou por atrasar essa limpeza, e essa limpeza que depois torna também mais difícil o combate aos incêndios.