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Em cima da mesa está a possibilidade de o governo contratar enfermeiros, profissionais de saúde reformados e também estrangeiros. Lúcia Leite, pedia-lhe a sua opinião. Comecemos primeiro pela contratação de enfermeiros reformados. O que lhe parece esta solução?
Não me parece uma solução muito viável, embora possa em alguns serviços, e se colocarem essas pessoas em serviços que de facto estejam menos expostos ao Covid, porque os profissionais reformados já estão numa idade avançada e já estão próximos dos grupos de risco, alguns deles também com doenças associadas. Portanto, não haverá um número significativo de profissionais reformados, penso eu, que se disponham a ser contratados. Ainda não conheço as condições da contratação e é preciso perceber se, de facto, há aí alguma possibilidade de os enfermeiros que estão reformados poderem ajudar, se houver condições especiais e particulares. Vejo isso como uma possibilidade para os cuidados de saúde primários, sobretudo para dar apoio às áreas não Covid e com alguma proteção, poderá ser uma possibilidade, mas também não vejo que essa seja uma solução para resolver a carência de profissionais que temos neste momento.
Há alguma estimativa, alguns números do universo de enfermeiros que poderíamos estar aqui a falar?
É assim, são conhecidos há muitos anos a carência de enfermeiros no SNS. As nossas dotações estão muito abaixo daquilo que seria recomendável e, portanto, em situações de crise, e se pensar que neste momento também os enfermeiros adoecem e também eles ficam em isolamento, é preciso cobrir os turnos dessas pessoas. Nós temos um problema muito sério que nunca foi bem equacionado. O sindicato sempre tentou que fosse publicado o ACT, que permitia uma organização do tempo de trabalho mais adequado à forma de trabalhar dos enfermeiros. Os enfermeiros fazem, por regra, turnos rotativos e que não são rotativos regulares e, portanto, isso traz muitos problemas à substituição quando falta alguém. Ou seja, o trabalho não fica pendente como no administrativo. É preciso, se falta alguém, substituir essa pessoa. Ora, o que está a acontecer nesta situação é que tem havido ainda uma redução maior de profissionais por turno, o que diminui o número de enfermeiros para o número de doentes, que aumenta, e portanto, as condições com que se está a prestar cuidados é ainda muito mais complicada.
Na sua opinião, quais seriam as condições que o governo teria de proporcionar a estes enfermeiros reformados para voltarem ao ativo, para se sentirem em segurança?
Teria que primeiro, em termos de compensação financeira, justificar o risco e o esforço. E depois, serem colocados em áreas mais protegidas da exposição ao Covid. Obviamente, todos nós sabemos que andar na rua hoje é um risco. E estar dentro de um serviço de saúde, o risco é bastante mais aumentado. Portanto, teria que ser uma compensação financeira que justificasse alguém que já está aposentado, baixar a sua posição de conforto e de isolamento, que pode fazer ficando em casa, para vir ajudar. Eu acredito que alguns enfermeiros se disponham a fazê-lo, porque faz parte do nosso ADN. Os enfermeiros não pensam como trabalhadores, pensam como profissionais e têm sempre a lógica da ajuda e do apoio ao outro. E todos nós temos consciência que as situações que se estão a viver nos serviços são muito complicadas e, portanto, muitos de nós se disporão a ajudar, com certeza, mesmo que possa ser em condições mais arriscadas.
E quanto à contratação de enfermeiros estrangeiros, o que lhe parece esta solução? É viável?
Nós precisamos de enfermeiros para ontem. A contratação de enfermeiros estrangeiros, eu não estou a ver como muito possível, porque em todos os países há carência de enfermeiros. E o facto de trazermos pessoas que não dominam a língua, que têm uma forma de trabalhar muito diferente da forma como trabalhamos em Portugal. Em muitos sítios, os enfermeiros trabalham tendo por base protocolos muito específicos e não têm a autonomia que os enfermeiros portugueses também já têm. E por isso, integrar pessoas agora nos serviços é muito complicado. Há uma coisa que nunca foi acautelada e que neste momento em Portugal também acontece. Os enfermeiros estão a ser mudados de serviço muitas vezes sem o tempo de integração. E o tempo de integração para o enfermeiro é fundamental para garantir a segurança dos cuidados. Um enfermeiro precisa de conhecer bem, quer o contexto em que presta cuidados, quer o tipo de situação de doença em que presta cuidados.
E seria difícil para um profissional de saúde estrangeiro adaptar-se a essas condições em Portugal, sendo assim?
Obviamente que vai precisar de um tempo que nós não temos. Ou seja, recrutar gente no estrangeiro que não conhece as condições em que estamos a exercer, que não conhece os sistemas informáticos de registo, que não consegue ler uma palavra em português Será de certeza uma pessoa que pouco vai ajudar naquilo que é o trabalho mais imediato para se fazer. Vai estar sempre muito limitado. Portanto, não nos parece que essa seja uma solução, sobretudo para os enfermeiros, que traga o resultado imediato que estamos a precisar. Neste momento, o que nós defendemos é que haja uma gestão correta dos enfermeiros que existem no sistema, que se tenha também uma reorganização da forma de se trabalhar. Muitas vezes estamos dependentes uns profissionais de outros profissionais e isso gera muitas ineficiências ao sistema. E ainda temos muitas instituições que têm produção adicional, os conhecidos SIGIC, que é impensável que neste momento haja gente alocada a esse tipo de atividade, quando, na prática, sobretudo os enfermeiros que estão nas unidades de cuidados intensivos, nas unidades que têm doentes Covid e nos serviços de urgência, é dramática a carência de enfermeiros para cuidar do número de pessoas que lhes chega e com a gravidade que têm. E há aqui uma outra questão que é muito importante que a população perceba: por muito experiente que seja um enfermeiro, não é possível pegar num enfermeiro com cinco anos de experiência num serviço de medicina e colocá-lo a trabalhar numa unidade de cuidados intensivos, porque ele não domina nem os aparelhos, nem a medicação, nem os cuidados que são necessários ter com essa tipologia de doentes. O normal para integração numa unidade de cuidados intensivos é de três a seis meses. E isto chega para perceber a dificuldade que iremos ter para colocar enfermeiros inexperientes nessas unidades. Portanto, o que é preciso fazer é perceber, no total da população das instituições e até do sistema, onde é que existem enfermeiros com experiência nessas áreas ou que tenham a especialidade de médico-cirúrgica, pessoa em situação crítica, que possam ser alocados a esses serviços, porque é mais fácil integrar esses enfermeiros. Portanto, a gestão não pode ser uma gestão cega, tem que ser uma gestão focada nas necessidades.
Portanto, na opinião da Associação Sindical Portuguesa dos Enfermeiros, essa melhor gestão da mão de obra seria a solução. Deixe-me ainda perguntar-lhe, Lúcia Leite, o regresso dos enfermeiros que estão lá fora, que emigraram, seria uma solução melhor?
Com certeza que sim, essa seria a solução ideal. A questão é se efetivamente alguém admite largar as condições em que está a trabalhar noutros países, nomeadamente nos países europeus, em que os enfermeiros têm quer progressões na carreira, quer salários que não são comparáveis com os salários dos enfermeiros portugueses. E, portanto, é pouco provável, com as condições que neste momento se estão a oferecer, que esses enfermeiros regressem a Portugal. Acredito que uma grande parte regressaria se tivesse essa oportunidade, e o faria até com gosto de poder vir ajudar o seu país. Mas para isso é preciso que a forma de contratação e as condições de contratação sejam equiparáveis às desses países.