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Para analisar esta aprovação, junta-se agora a nós, em direto, o presidente da associação ambientalista Zero, Francisco Ferreira. Boa noite, Francisco Ferreira, tem estado a acompanhar esta cimeira em Glasgow. Peço-lhe uma reação à aprovação deste documento. Pergunto-lhe se contém as medidas que reivindicava. Isso também é da opinião do secretário-geral da ONU, que fala aqui num passo importante, mas ainda assim insuficiente.
Boa noite. Sem dúvida que houve avanços nesta conferência. Terminou-se o chamado Livro de Regras de Paris, que não tinha sido possível em Madrid. Houve montantes de financiamento prometidos aos países em desenvolvimento para os próximos anos, processos que vão agora começar. E, por outro lado, também continua a haver reconhecimento do que a ciência nos diz, que estamos no caminho para ir bem mais acima de um grau e meio, que é preciso esse valor. E foi dado um tempo extra para os países até daqui a um ano, na próxima cimeira, reverem, e não daqui a cinco anos como seria de esperar, as suas metas. Mas, por outro lado, Glasgow soube muito a pouco e o final foi verdadeiramente desastroso, porque aquilo que tinha sido conseguido no primeiro texto de quarta-feira, de olhar para o fim do uso dos combustíveis fósseis, em particular do carvão, viria a ser amenizado depois num texto ontem e agora a Índia realmente bloqueou esta ideia de que o carvão, que é na produção de eletricidade o principal combustível fóssil associado às emissões à escala global e ao aumento de temperatura, que ficassem as palavras "terminar" e apenas ficasse a palavra "reduzir". Há também outros elementos insatisfatórios.
Como por exemplo?
As associações ambientalistas falam de uma traição, inclusive aos países mais vulneráveis, porque a operacionalização do apoio para estes países lidarem com as catástrofes climáticas acabou por não ter lugar, ficou muito aquém do que seria desejável. E o comércio de emissões à escala global, que era precisamente um elemento fundamental para finalizar a regulamentação do Acordo de Paris, vai ter que ser muito escrutinado, porque, por um lado, permite que licenças que já vêm de 2013 possam ser consideradas neste novo acordo e, por outro lado, também permite, eventualmente, a dupla contabilização de projetos, quer por parte do país, quer por parte de empresas, quando o objetivo aqui, acima de tudo, é a redução das emissões. Portanto, em adaptação, mitigação, financiamento, justiça climática, uma COP, diria eu, passe a expressão, que soube a muito poucochinho, mesmo reconhecendo alguns avanços.
Francisco Ferreira, pergunto-lhe, portanto, e para terminarmos, se este é um documento puramente político e não tem em conta efetivamente o combate às alterações climáticas.
O combate às alterações climáticas decorre precisamente de decisões políticas, nomeadamente à escala das Nações Unidas.
Sim, mas a minha pergunta vai no sentido em que o Francisco Ferreira durante a semana alertou para fortes bloqueios e afirmou que temia um certo recuo nas negociações. Pergunto-lhe se isso aconteceu e se as delegações não tiveram em conta realmente as medidas mais importantes para o combate às alterações climáticas para os próximos anos.
Isso é verdade. Entre o documento que nós tínhamos quarta-feira e aquele que temos, houve realmente uma desilusão crescente que se materializou neste final dramático, com o presidente da conferência a pedir desculpas pela falta de ambição que o documento acabava por ter. E, portanto, não são os ambientalistas a dizê-lo, é o próprio presidente da conferência. Nós estamos longe de garantirmos um grau e meio, estamos provavelmente um pouco acima de dois graus. É preciso que realmente nós percebamos que este é um problema absolutamente gravíssimo. E no documento está lá também a referência à ciência, que nos mostra indubitavelmente que são necessárias medidas para evitarmos um impacto muito maior da subida da temperatura à escala global.