Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Junta-se agora a esta edição das 18h, João Gouveia, que é o presidente da Comissão de Acompanhamento da Resposta Nacional em Medicina Intensiva para COVID-19. Boa tarde, doutor.

Boa tarde.

Estes números inspiram preocupação?

Inspiram. Quando falou em linhas vermelhas, era o número de doentes que poderiam estar internados em medicina intensiva sem perturbar a atividade habitual. Isso só foi possível porque houve uma expansão de camas de medicina intensiva ao longo deste ano. Neste momento, quando se ultrapassa essas linhas, quer dizer que a atividade habitual vai ter que ser prejudicada para poder atender a estes doentes mais graves.

Essa linha vermelha, julgo que estava fixada eram 245 internamentos em cuidados intensivos a nível nacional.

Sim, 84 na região de Lisboa e Vale do Tejo. Neste momento, é a que está mais pressionada.

O que há a fazer face a este aumento da procura de cuidados intensivos e de enfermarias nos hospitais e, particularmente, nas zonas de maior densidade populacional, como Lisboa e Porto?

Há duas ações a ter. Uma primeira, que é mais reativa do que outra coisa, que é aumentar a capacidade de resposta.

Isso já está a acontecer.

Sim, para aumentar a capacidade de resposta, por exemplo, no caso da medicina intensiva, já foram dadas indicações aos hospitais para escalarem o número de camas e neste momento já temos 102 camas de medicina intensiva e possibilidade de chegar a 123 rapidamente, em termos de Lisboa e Vale do Tejo. O que é preciso para ir mais além? É termos recursos humanos, porque existe capacidade física e equipamento instalado, mas não existe ainda recursos humanos, apesar de todos os esforços, porque os recursos humanos demoram tempo a formar-se e não nascem nas árvores, como se costuma dizer. Portanto, o que vai ser necessário é, de alguma maneira, adiar ou parar algumas atividades programadas, de maneira a ter recursos humanos para poder aumentar o número de camas de medicina intensiva. Isso será um passo seguinte. Entretanto, ao mesmo tempo, é aproveitar, se possível, a desigualdade regional e conseguir escoar alguns doentes para outras regiões.

À semelhança do que foi feito, que é o período mais crítico do início do final do ano.

Isso é uma solução que, a prazo, está condenada, porque o vírus não vai respeitar fronteiras administrativas e rapidamente vai passar de uma região para outra.

Transparece um pouco aquela ideia de que o número de casos vai continuar a aumentar, os internamentos também devem continuar a aumentar, mas já ali as vacinas vão começar a produzir efeito e, portanto, estes números vão começar a baixar por força da vacinação de um maior número de população. Partilha desta opinião, ou seja, devemos esperar sem grandes alarmismos este aumento de novos casos e esperar que a vacinação faça efeito ou eventualmente devemos atalhar caminho e adotar algumas medidas mais restritivas para impedir a disseminação do vírus?

Eu acho que nós temos que ter equilíbrio e muito bom senso. Eu acho que, em relação à vacinação, está demonstrado pela mudança de perfil dos doentes que nós temos, pela diminuição da gravidade, até mesmo em termos de internamentos. Temos menos internamentos percentualmente do que tínhamos antes. Está demonstrado que a vacinação é eficaz e deve ser acelerada o mais rapidamente possível. Acho que a vacinação deve ser acelerada nas camadas mais jovens, porque são os que nos estão a aparecer neste momento na medicina intensiva e também porque são aqueles que têm uma mobilidade maior e transmitem mais o vírus. Portanto, é extraordinariamente importante que eles sejam vacinados nesta fase. Sabemos que isso tem um tempo. Até a vacina ser eficaz, principalmente para a variante Delta, são precisas as duas tomas e mais algumas semanas depois da segunda toma. Portanto, estamos já a projetar-nos para agosto. Mesmo com as pessoas todas vacinadas, não temos, neste momento, garantia de que não seja necessário manter as medidas de precaução habituais. Portanto, até lá chegarmos, temos que manter e reforçar essas medidas. Se são precisas mais medidas do ponto de vista administrativo, não sei. O que eu acho é que é preciso responsabilidade individual da parte de cada um. Não podemos ter os ajuntamentos que vemos regularmente, não podemos passear na rua e ver toda a gente sem máscara a conviver alegremente. A toda a gente apetece, ainda por mais, hoje não, que não está assim tão bom tempo, mas quando está bom tempo, o que nos apetece é estar todos em conjunto. Nós somos um povo que gosta muito do convívio, mas neste momento temos que pensar no outro e ter algum cuidado.

O doutor há pouco referiu que muito provavelmente as cirurgias programadas terão de ser afetadas por este previsível aumento do número de novos casos e necessidade de mais camas em hospitais para tratar doentes Covid. As doenças não Covid, os doentes que padecem de doenças não Covid, já estão a ser afetados pelo aumento de casos Covid?

Não. Neste momento, não. O que nós vemos é, subjetivamente, eu não tenho dados por isso, temos bastantes doentes não Covid. No entanto, apesar de tudo, a taxa de ocupação na medicina intensiva não Covid, não é uma taxa de ocupação que neste momento nos ofereça problemas. O que quer dizer que, de alguma maneira, até poderá haver algumas camas que se possa fazer o switch de não Covid para Covid. Depois, há outra situação: normalmente, por diversas razões, há sempre um abrandar das cirurgias no verão. Portanto, é a altura de aproveitar esse abrandar para poder também canalizar alguns profissionais para onde eles neste momento serão necessários. De maneira a poder dar resposta às duas situações: Covid e não Covid. Para o sistema de saúde, não há diferença entre os doentes. Quando nós temos que separar circuitos e tratar doentes de maneira diferente, é por uma questão de segurança para os doentes não Covid.

Dr., na altura do final do ano e durante aquele período mais crítico, houve a necessidade de recorrer às unidades de saúde privadas para ajudarem a dar resposta àquela procura excessiva para a capacidade das unidades do Serviço Nacional de Saúde. Há a perspectiva de que isso possa voltar a acontecer durante o próximo mês, que haja essa necessidade?

Eu acho que quando estamos a falar da pandemia, nós devemos pensar como sistema nacional de saúde e não apenas como Serviço Nacional de Saúde. Acho que se houver uma sobrecarga grande sobre o Serviço Nacional de Saúde, se deve perspetivar exatamente utilizar quer o privado, quer o público, em conjunto, em harmonia, como foi feito. Acho que isso é essencial. A solução passa, como eu disse há bocadinho: um, por controlar o mais possível a transmissão, portanto, uso, reforço de todas as medidas de prevenção, do uso de máscara, da etiqueta respiratória, da lavagem das mãos, não estar em conjunto em espaços fechados, etc. Vacinação, acelerar a vacinação o mais possível. Mas depois, também por aumentar a resposta e para aumentar a resposta, tem que ser às camas do setor público e do setor privado. Acho que há um limite onde até o Sistema Nacional de Saúde pode ir, ao tentar não prejudicar a sua atividade habitual. Depois, para não deixar nenhum doente para trás, acho que se deve aproveitar a oferta do privado.

Do privado. Dr.

Claro que essa oferta do privado foi muito importante e é muito importante, mas não se compara numericamente ao esforço que é possível fazer dentro do Serviço Nacional de Saúde.

Dr., uma última pergunta. O perfil dos internados em cuidados intensivos mudou relativamente àquela altura do final do ano?

Sim, nós neste momento temos doentes mais jovens, com menos comorbilidades. Ou seja, um estudo que foi feito recentemente em Lisboa e Vale do Tejo, mais de metade dos doentes tinham menos de 55 anos. Posso-lhe dizer que no outro dia estava de urgência e tinha doentes de 21, 23 anos. Temos doentes em que um terço não tem nenhuma comorbilidade, são pessoas perfeitamente saudáveis. Também cerca de um terço tinha recebido uma dose da vacina, mas não havia praticamente casos que tivessem recebido as duas doses, portanto, não estavam ainda imunizados, tinham ainda a imunização em curso. Daí a importância de acelerar a imunização. E, como lhe disse, estão de sexo masculino e são casos graves, com muita necessidade de ventilação mecânica invasiva e também muitos doentes com indicação para o suporte respiratório mais avançado que nós temos, que é a oxigenação por membrana extracorporal, normalmente conhecida por ECMO.