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A propósito do relatório das linhas vermelhas do Instituto Nacional Ricardo Jorge, metade das camas de cuidados intensivos já estão ocupadas em todo o país. Gostaríamos de fazer um ponto de situação sobre os distritos onde a situação está mais complicada e perspetivas para as próximas semanas.

Primeiro ponto, só dar nota de que apesar da situação ser preocupante, nós não estamos em situação de rutura.

Descreva concretamente os detalhes da situação dos cuidados intensivos, Álvaro Mourão.

Muito bem. Nós, neste momento, como disse muito bem, temos 128 doentes internados em medicina intensiva, o que corresponde, grosso modo, a 50% do tal limiar de alerta das 255 camas. Estes números, por si só, não são preocupantes, se nós pensarmos que cerca de um ano atrás chegamos a ter 900 doentes com Covid-19 crítica internados. O que é fortemente preocupante é a tendência. E se nós pensarmos que no início de outubro tínhamos 50, 60 doentes internados em medicina intensiva e no espaço de dois meses esse número mais do que duplica e que mantém esta tendência crescente, ainda não estamos em fase de desaceleração, isso sim, é que é preocupante, até porque é uma época do ano em que normalmente os serviços de medicina intensiva já estão sobrecarregados, por força do resto das patologias que normalmente necessitam de admissão em medicina intensiva.

Nesse sentido, acredita que as medidas do governo vão ajudar ou não na preservação dos serviços?

Eu, como intensivista, acredito sempre que do nosso ponto de vista, quanto mais gravosas forem as medidas, mais eficazes serão em termos de prevenção da incidência da infeção. Agora, claro está, o ponto de vista da medicina intensiva não é o único que tem que ser levado em conta nesta análise. Portanto, eu acredito que as medidas são o compromisso possível entre combater a incidência crescente da infeção e manter a economia a funcionar. O que é fundamental é entender as medidas e tentarmos realmente cumprir aquilo que são as recomendações. O discurso parece muito repetitivo, mas a verdade é que as recomendações, no fundamental, continuam a ser as mesmas: vacinar com a maior rapidez possível e cumprir as medidas de proteção individual e de proteção do próximo. Distanciamento social, etiqueta respiratória e higiene das mãos. Isso provavelmente é o aspeto mais importante das medidas, é sermos capazes de cumprir as recomendações. Tinha-me perguntado em termos regionais, como é que está a situação.

Exatamente.

Os distritos, neste momento, que estão sob maior pressão, olhando exclusivamente para os números de Covid-19 crítica, são o Algarve e a região Centro. O Algarve, com uma taxa de ocupação já perto dos 90% ou um bocadinho acima dos 90%, mas estamos a falar de relativamente poucas camas. Portanto, em termos percentuais, um ou dois doentes a mais faz uma diferença grande. E claramente, ainda há capacidade para funcionar a referenciação em rede. E é assim que a medicina intensiva funciona. Não é por um doente estar num hospital sem camas que deixa de ter cuidados, tem que ser transferido para um hospital com capacidade de o receber. E esta rede de referenciação tem funcionado bem desde há muitos anos para cá e continua a funcionar e é um dos aspetos funcionais da medicina intensiva que tem permitido a excelente resposta que foi possível dar ao longo da pandemia. E portanto, não é por uma determinada região estar próximo do limite de capacidade, que vai haver ruturas na capacidade de resposta. Volto a dizer, o que é importante é percebermos que nós estamos numa tendência de agravamento e prepararmo-nos para que realmente a situação nas próximas semanas continue a piorar e dentro da medida do possível, evitarmos situações dramáticas como aquela que vivemos no início da epidemia. Portanto, é muito importante que os conselhos de administração tenham os seus planos de contingência, mais do que apresentados, operacionalizáveis, quando se atingirem as linhas vermelhas pré-definidas. É muito importante que a nível social, as pessoas entendam esta mensagem e é muito importante reforçar a capacidade de vacinação, porque independentemente da variante Ômicron ser mais ou menos grave, que é uma coisa que nós ainda não sabemos, a situação está-se a agravar. Mesmo que a variante Ômicron não contribua de forma significativa para um agravamento ainda mais rápido, nós já estamos numa trajetória que neste momento não é muito boa. Acho que é um exercício que vale a pena fazer, que é se consultarem o minisite da Covid da DGS, tem lá o mapa dos internamentos, que põe muito bem em perspetiva a trajetória de internamentos em UCI nos últimos dois meses.

Mas acredita que com estas perspetivas e com esta complicação anunciada também para as próximas semanas, que os cuidados intensivos vão conseguir ter resposta ainda assim, nomeadamente nestas regiões em que a situação está ligeiramente mais grave?

Eu acredito que os cuidados intensivos vão ser capazes de dar resposta. Também acredito que é fundamental dar os recursos necessários à medicina intensiva para que essa resposta seja eficaz. O que eu quero dizer: houve um investimento muito grande nos últimos meses em infraestrutura e esse investimento era fundamental, mas uma unidade de cuidados intensivos não é constituída por paredes e material pesado. É preciso ter o equipamento adequado e fundamentalmente, é preciso ter profissionais adequadamente treinados e em número adequado para que o funcionamento das unidades seja seguro. E aí nós ainda temos margem de melhoria. É fundamental que os conselhos de administração tenham a capacidade de recrutar as pessoas que são necessárias para manter este aumento grande do número de camas de medicina intensiva a funcionar. O que eu posso dizer é que neste momento, do ponto de vista da medicina intensiva, a situação em termos de capacidade de resposta é preocupante, porque o que nós tratamos não é apenas doentes Covid, tratamos muitas outras situações, mas que para já, não há nenhuma região do país que esteja em rutura, que se possa atribuir, um eventual excesso de mortalidade, à falta de respostas da medicina intensiva. Nós grosso modo, em termos de taxa de ocupação global, estamos por volta dos 75%. Estamos numa faixa preocupante, mas claramente não de rutura. Agora, nós ao longo do último ano, temos ouvido muitas sociedades científicas chamar a atenção para que realmente a Covid provocou atrasos muito significativos. Estou a referir-me, por exemplo, ao diagnóstico e prognóstico de cancros, acompanhamento de doenças crónicas, como sejam a diabetes, como seja a doença pulmonar obstrutiva crônica. Não sei se esse tipo de acumular de atraso de diagnóstico e de revisão, se pode justificar o número