Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Carlos Natálio, professor auxiliar de História do Cinema na Escola das Artes da Universidade Católica do Porto, obrigada pela sua disponibilidade. Quero perguntar-lhe qual é o legado que deixa David Lynch?
Boa noite. O legado, desde logo, deixa os filmes, que são filmes que ficaram e vão ficar, como dizia agora há pouco tempo, já a reagir, o Steven Spielberg: são filmes que já testaram a passagem do tempo e que vão ficar, vão perdurar. Portanto, esse legado, ficamos com ele e ainda bem. Mas há depois também um legado, esta é uma outra forma de colocar a questão, que é um legado difícil de preencher. Ou seja, embora existam alguns cineastas cuja obra vai dialogar, vai beber do David Lynch, é muito difícil tocar exatamente no ponto onde o David Lynch conseguiu tocar. E, portanto, nesse sentido, deixa um vazio, de facto, difícil de preencher. É difícil nomear alguém que diga: "Este ou estes são os herdeiros do David Lynch".
Que tipo de pontos são esses, já agora?
Quê?
Que tipo de pontos são esses?
Olhe, desde logo, se calhar, uma coisa que eu acho que é muito importante é que o David Lynch conseguiu fazer uma coisa muito difícil de fazer, eu creio, que é o de ir instalando uma lógica, nós chamamos de lógica surreal, a lógica onírica, dentro de um universo ou dentro de um sistema de produção, se quisermos melhor colocado assim, onde tudo é formatado para a clareza. Ou seja, toda a ideia da clareza do cinema narrativo, que vem do cinema clássico, é assente nas ideias de clareza narrativa, de tudo tem que estar explicado. Ora, o David Lynch o que faz é: não abdica desses princípios, mas ao mesmo tempo ele trabalha esta coisa que lhe interessava muito, que era de perceber como é que nós vemos a nossa realidade interior, muitas vezes desconjuntada, sem explicação. E, portanto, ele vai jogando sempre estas duas coisas. Eu creio que seria muito fácil dizer o David Lynch apenas como um cineasta ligado ao surreal, mas ele talvez não tivesse o espaço que tem ou que teve, se não tivesse jogado neste transporte, digamos assim, desta preocupação para este sistema de produção.
E neste caso, qual é que é a marca que, para além daquilo que já me indicou, acha que o realizador deixa alguma marca neste mundo do cinema?
Acho que deixa. Deixa todos estes filmes maravilhosos que entretanto foi fazendo. Era um cineasta, se nós virmos, muito prolífico, mas não necessariamente apenas prolífico em longas-metragens, que normalmente nós contabilizamos assim apressadamente a carreira dos realizadores. Portanto, era alguém com uma sensibilidade forte para as artes e teve uma carreira também na música, tinha testado também já nos últimos anos algumas questões, algumas plataformas, nomeadamente o YouTube, ou pequenas curtas-metragens, mais no universo da música, videoclipes, anúncios. E, portanto, tem uma filmografia muito vasta. E depois tem estes filmes que ficaram na memória, e que vão ficar na memória, desde o primeiro filme, o "Eraserhead: No Céu Tudo é Perfeito", onde ele começa por trabalhar esta coisa do surrealismo ainda a preto e branco, e depois vai fazendo toda uma carreira. Vai testando, vai trabalhar a ficção científica, vai trabalhar o drama, vai trabalhar naquilo que ele se calhar era o melhor a fazer, no registo em que ele era melhor, que é o thriller surreal, uma espécie de reflexão progressiva sobre a culpa, sobre a nossa memória. E a partir também muito daquilo que é uma autópsia quase psicanalítica à fábrica dos sonhos, porque trabalhava também dentro da lógica de Hollywood. E, portanto, há essa referência, a recordar, por exemplo, do "Mulholland Drive", que especificamente trabalha essa questão a partir exatamente de Hollywood. E, portanto, tem todos estes filmes que deixa e, como disse no início, é difícil de apontar um sucessor.
E neste caso, como é que se percebe que um ícone como David Lynch, do cinema, não tenha recebido um Oscar, além daquele Oscar honorário?
Olha, a questão dos prêmios, seja os Oscars, sejam prêmios de outros festivais, muitas vezes acabam por ser fenômenos que são muito complexos de gerir. Ou seja, nós temos a tendência a achar que os prêmios apenas ou devem premiar os melhores filmes, mas muitas vezes há muitos outros fatores que têm a ver com a conceção, com o resultado a que chegam os jurados de cada festival. E os Oscars não é diferente. Eu até diria que é um bom exemplo de como, por vezes, não é no radar dos prêmios que estão os melhores filmes ou os melhores cineastas. Depende muito da circunstância. E é apenas um entre vários casos onde, de facto, há apenas um Oscar honorário, mas isso não desmerece em nada a sua obra.
Carlos, agradeço-lhe. Há aqui alguma coisa que queira ainda destacar a propósito da morte do realizador?
Sim, na verdade, apenas dizer uma coisa que eu acho muito interessante. Como se sabe, ele esteve em Portugal numa das primeiras edições do LEFFEST, onde além de ir dar uma masterclass, ele veio também apresentar e participou num evento de meditação transcendental. E eu acho que essa ideia, essa dimensão mais espiritualista era muito importante, às vezes vista com um bocadinho de ironia, mas era muito importante, de facto, porque tinha a ver não só com uma dimensão espiritual do próprio homem, mas tinha a ver com o tal processo criativo. Ele utilizava muito esta expressão de que era preciso ir buscar as ideias às águas profundas, como se fosse pescar um peixe nas águas profundas. E, portanto, essa ideia de ir buscar uma ideia e depois a acarinhar e perceber o que ela é, era uma das ideias fortes do David Lynch. Eu acho que é importante salientar essa questão, essa metodologia do David Lynch.