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Carlos Silva, os patrões, através de António Saraiva, acabam de anunciar que suspendem a participação nos encontros da concertação social e pedem mesmo uma reunião com o Presidente da República. Como é que ficam estes encontros? Qual é a posição da UGT?

Em primeiro lugar, devo dizer-lhe que é uma medida extrema e radical, tão radical como às vezes nós acusamos alguns partidos e algumas decisões radicais do nosso país de tomarem decisões a quente. Eu não sei se isto é a quente, é a frio. Não vou comentar as razões que levam as quatro confederações patronais a suspenderem a sua participação. Uma coisa é suspender, outra coisa é renunciar. Mas há uma coisa que é verdade: em 2012, a UGT não suspendeu a sua participação na concertação social perante o ataque feito pela troika, e já agora, com alguma cumplicidade da parte dos patrões, porque no momento em que a UGT se atravessou em nome do país para, em 2012, fazer um acordo muito difícil para o movimento sindical e para os trabalhadores, não vi nenhum patrão dar-nos a mão. E, portanto, a decisão que agora está em cima da mesa é também para pressionar o governo para não avançar na reversão de um conjunto de medidas que têm nove anos de existência no nosso país. Para já fico perplexo pelo ineditismo da decisão. E depois, por outro lado, pergunto aos patrões deste país se em nove anos os trabalhadores foram bem tratados em Portugal. Se estes nove anos não chegaram para se reverterem algumas medidas impostas pela troika numa altura em que o país estava à beira de um desastre financeiro e foi necessário recorrer a um empréstimo internacional. Nessa altura foi a UGT que deu a cara por um acordo de concertação social, que se não fosse a nossa assinatura com o engenheiro João Proença, não tinha havido acordo nenhum e porventura não teria havido empréstimo, porque aquilo que o FMI, o BCE e a Comissão Europeia queriam era naturalmente impor alguma paz social, mesmo para medidas muito draconianas, muito nefastas para os trabalhadores. Passaram nove anos e eu não posso deixar de fazer uma pergunta: esta decisão dos patrões tem a ver com o quê? Tem a ver com pressões políticas, tem a ver também com uma decisão de encostar o governo à parede, no sentido de com o PCP ou com o Bloco, não sei, em sede parlamentar, não conseguir, não ir além de meras intenções, porque há coisas que o governo já disse. Era preciso alterar cirurgicamente algumas matérias da legislação laboral. A UGT veio dizer: há anos que reclamamos, desde pelo menos 2018, quando fizemos o último acordo de concertação social, que a UGT disse ao então ministro Vieira da Silva: é necessário olhar outra vez para o valor do trabalho suplementar, é preciso olhar para as indemnizações por despedimento. E as indemnizações por despedimento são uma chaga em Portugal aplicada pelos patrões portugueses, sem olhar a meios, para meter os trabalhadores na rua. Os despedimentos coletivos hoje fazem parte do dia a dia dos trabalhadores. Todos estão com a espada em cima da cabeça. Afinal, querem o quê? Querem o país a pedir, querem o país a pão e água ou querem que os trabalhadores se sacrifiquem ainda mais? Eu acho que isto é um golpe palaciano, que terá o impacto que deverá ter. Uma coisa eu posso dizer: a UGT não abandonará a concertação social e continuaremos a lutar para em sede de concertação social, vermos muitas das nossas propostas serem adotadas ou não pelo governo. Portanto, nós não saímos da concertação.

Carlos Silva, não estão a ficar nesta altura quase a falar sozinhos com o governo, com este afastamento dos patrões?

Nós nunca precisámos da concertação social para falar com o governo, nem para falar com os patrões. Como sabe, a negociação coletiva é feita de forma bilateral. A concertação é o espelho do diálogo social em Portugal. Quem dá uma machadada no diálogo social neste momento são os patrões. Quem se afasta da mesa negocial são os patrões. Quem põe em causa os princípios da OIT e do tripartismo são os patrões. O tripartismo existe nas Nações Unidas desde 1919. São os patrões portugueses que pela primeira vez dão um murro na mesa, não vou discutir as razões, mas acho que é um erro tático. Mas enfim, cada um toma as suas decisões. A UGT falará com quem estiver à mesa das negociações dentro da concertação social. Espero que os patrões possam refletir, possam dialogar com o governo e perceber que efetivamente o melhor para o país não são decisões drásticas.

E não se lembra de uma situação destas nos últimos anos?

Não, nos últimos anos, não. Nunca. Isto nunca aconteceu na concertação social em Portugal desde 1984. Nunca aconteceu. E, portanto, acho que é bom que todos tenham consciência da decisão que tomaram e do peso simbólico que isto tem no diálogo social em Portugal.

Qual acha que pode ser o papel do Presidente da República numa altura em que os patrões pedem essa reunião com Marcelo Rebelo de Sousa?

O senhor Presidente da República é um árbitro importante, um mediador e é acima de tudo um grande defensor da concertação social no nosso país. É uma pessoa que deu provas bastas no seu anterior mandato, de defesa do diálogo, da negociação e da concertação social. Estranharei que ele, se conceder uma audiência aos responsáveis patronais, com certeza que o fará, mas estranharei que não alerte para a necessidade de haver aqui alguma contenção numa decisão tão drástica como esta. Eu acho que os patrões, é natural, fazem falta à concertação. A concertação social em Portugal ou em qualquer país democrático, não tem razão de existir se não houver uma parte importante. É fundamental que a parte dos patrões, são aqueles que geram emprego e criam emprego. Agora, também não é preciso fazerem birras. Isto é uma birra