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Ricardo Mexia, ouviu estas medidas com toda a atenção, com toda a certeza. São medidas que já deviam ter vindo há mais tempo e se tivessem vindo, estaríamos nesta altura numa outra situação em relação aos dados de Covid-19?
Boa noite. Eu julgo que a questão de pôr sempre a sílaba tônica nas medidas restritivas é, de facto, um erro e que me parece que também nos custa bastante sucesso no controle da pandemia. É evidente que se as pessoas não cumprem aquilo que lhes está a ser pedido, se a mensagem não lhes chega de forma clara, incisiva e que elas adotem comportamentos mais seguros e mais saudáveis no sentido de reduzir a disseminação da doença, depois temos que entrar, se calhar, por estas medidas que têm impactos não só na saúde, mas também depois, obviamente, na economia, de forma muito significativa. Estamos, de facto, num cenário muito complicado, com o número de casos diário a rondar os 7000. Temos que conter a situação da forma mais ágil que conseguirmos. Ainda não é claro o sucesso das medidas destes fins de semana, deste e do anterior, mas já, na prática, há 15 dias que estamos com estas medidas.
E os números não têm mudado, não é?
Aparentemente, a taxa de crescimento está a reduzir-se, mas continuamos a crescer. Esse é um dos problemas que enfrentamos.
O que é que falta fazer, na realidade? Tirando a tônica nas medidas mais restritivas, o que é obrigatório fazer e o que é que os portugueses têm de fazer nesta altura?
Soubemos que havia 20 mil inquéritos epidemiológicos por fazer. Não é surpresa, na medida em que não se reforçaram os meios para fazer esses inquéritos epidemiológicos. Ora, se nós não conseguimos interromper as cadeias de transmissão, naturalmente contactando os casos, sabendo quem são os seus contactos de alto risco e isolando essas pessoas, é normal que, de facto, a situação se complique. Repare, estamos a falar de 20 mil pessoas. Se cada uma delas tiver, em média, cinco contactos, são 100 mil pessoas que deviam estar em isolamento profilático e não estão. Ora, se mesmo que nós assumamos que uma parte residual destas pessoas, 10%, por exemplo, possa vir a adoecer, estamos a falar de 10 mil pessoas que estiveram a circular com potencial de infectar outros sem nós sabermos durante algum período. Enquanto nós não dotarmos a capacidade de resposta necessária para isto, enquanto não comunicarmos de forma mais assertiva para que as pessoas saibam exatamente o que é que devem fazer, de que forma é que devem fazer para se protegerem elas próprias e terceiros, eu julgo que vamos ter dificuldade em controlar a situação. E naturalmente, vai ser uma altura muito difícil, a altura das festas, em que tradicionalmente as famílias se juntam. Eu encaro com muita dificuldade esse período, e as repercussões que isso depois vai ter. Eu temo que o mês de janeiro, depois das festividades, vai ser um mês particularmente difícil no combate à pandemia.
Ricardo Mexia, olhando para essa situação dos feriados e do período de Natal. A noção que tenho é que as pessoas desconfiam dos números e daquilo que está a ser comunicado e por isso não cumprem, é isso?
Eu não sei se desconfiam dos números. Eu acho que se entrou aqui numa normalização dos números. Ou seja, já achamos normal haver 6000 casos por dia. As pessoas já desvalorizaram, porque já são muitos meses com esta situação. Eu acho que as pessoas acham que é normal haver 6000 novos casos por dia, que é normal morrerem 80 pessoas por dia com este problema específico, mais o excesso de mortalidade por outras causas que nós ainda não sabemos exatamente por quê. Esta normalização de uma situação que é tudo menos normal, pode levar a que as pessoas, também fatigadas de todas estas restrições, acabem por adotar outros comportamentos. E nós temos relatos de n situações em que coisas que não deviam ter acontecido, acabaram por acontecer, desde pessoas que, apesar de terem sintomatologia, continuam a encontrar-se em almoços, a visitar a família, etc. As pessoas objetivamente têm que perceber: se neste momento têm sintomatologia, devem restringir todo o contato social até verem esclarecida a situação. Não podem ir a um almoço se estão a tossir há dois dias. Não é possível. É fundamental que toda a gente perceba o que está em causa e que adote os comportamentos adequados à situação presente. Não podemos fazer a vida que fazíamos nessa altura e temos que adotar todas as medidas que já toda a gente amplamente conhece, do distanciamento físico, da máscara, da higienização das mãos, naturalmente que sim, mas principalmente atender a redução dos nossos contactos sociais neste momento e assegurar que se estamos com algum problema de saúde, não andamos a contactar com outras pessoas até o esclarecer. Isto são mensagens que têm que ser muito claras para as pessoas, que as pessoas têm que adotar, por forma a nós conseguirmos reduzir o impacto desta situação e naturalmente, aquilo que é a pressão nos serviços de saúde e a mortalidade associada.
E é isso que eu ia perguntar: como é que está essa pressão nos serviços de saúde e como é que estão a reagir, nesta altura, os profissionais de saúde, que no fundo, são eles que acabam por ter que resolver os problemas e esta má forma de tratar esta pandemia que está a ser feita?
Com muita dificuldade, como se imagina, com uma pressão enorme. Imagine, na saúde pública, 20 mil inquéritos epidemiológicos por fazer, é algo que causa imensa preocupação aos colegas. Eles já fazem o trabalho de duas pessoas, não conseguem fazer o de quatro, nem de 10. E, portanto, é fundamental que estes reforços cheguem. Estão agora a chegar os militares, finalmente.
Esses reforços que foram prometidos, como é que estão a chegar? Esse trabalho não está a ser feito.
Estão a chegar a conta-gotas. Os militares estão agora a fazer formação e estão a chegar agora. Mas a situação já está desde março, nós a dizermos que era importantíssimo reforçar os meios, designadamente durante aquele período em que houve menor pressão, durante o verão, em que era fundamental ter recrutado e treinado as pessoas para quando elas fossem necessárias, e como seria mais do que expectável que viesse a acontecer, já estivessem amplamente rotinadas e com capacidade de produzir de forma mais ágil. Agora estamos a desviar recursos de pessoas que deviam estar a trabalhar na vigilância epidemiológica para dar informação a estes profissionais para os integrar. De facto, é difícil compreender porque é que chegamos a este ponto. Mas eu espero que, mais uma vez, se perceba que tem que se reforçar a montante para evitar o número de casos e que naturalmente possam aliviar a pressão nos serviços mais diferenciados de internamento e, em particular, dos cuidados intensivos, que estão sob uma pressão enorme, como os meus colegas mais ligados a essa área têm descrito de forma bastante transparente.
Ricardo Mexia, nesta última reunião do Infarmed, foram apresentados vários estudos, muita investigação, que foi passada à classe política e a quem depois decide estas medidas que hoje nos estão aqui a apresentar. Mas vocês, a classe médica, os investigadores, já o dizem há muito tempo. Ou seja, têm sido feitos ouvidos moucos por parte das autoridades da política àquilo que vocês passam?
Pois, não consigo perceber exatamente o que se tem passado e espero que o único momento em que os decisores políticos têm contato com aquilo que é o aconselhamento técnico, seja apenas as reuniões do Infarmed. Eu espero que esse contato seja muito mais próximo e muito mais frequente, por forma a tomar as decisões. Estas reuniões do Infarmed, que aparentemente retomam agora, não sei se foi uma situação única ou se vai, de facto, ter continuidade, mas espero que não seja o único momento em que isso acontece. E, portanto, a minha expectativa é que haja aqui uma interação grande entre quem tem que tomar as decisões e quem pode dar dados para suportar essas decisões e que as decisões sejam apoiadas naquilo que se vai passando no terreno. É evidente que nós sabemos que há aqui dificuldades no que diz respeito ao sistema de informação, já constatamos isso múltiplas vezes. Mas tem que haver um mínimo de fundamentação para a tomada de decisão e que ela seja ajustada àquilo que é a evolução epidemiológica. E, portanto, eu espero que haja essa interação, que seja mais ampla e que possa, ao fim e ao cabo, dar mais ferramentas para a tomada de decisão, direcionando as intervenções para, efetivamente, as causas dos problemas.