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Embora a lei portuguesa, a lei de combate ao terrorismo, enquadre este tipo de tentativa de crime como terrorismo, a definição que é usada de terrorismo pela ciência política, pelas forças internacionais, pela psicologia, ou seja, pelas ciências sociais, é que o terrorismo tem que ter, obrigatoriamente, uma motivação política e ideológica por detrás de qualquer comportamento. E esse comportamento é racional, deliberado e consciente. E como o comportamento terrorista é racional, consciente e deliberado, pressupõe-se que a pessoa não tenha nenhum problema de saúde mental, porque normalmente quando as pessoas têm problemas de saúde mental, à partida, não agem de forma racional, deliberada e consciente.

O que pode ter potenciado esta situação?

Tanto quanto se sabe, e daquilo que já foi passando cá para fora e que foi partilhado pela comunicação social, esta pessoa, este jovem, que eu espero que as pessoas não se esqueçam que é uma pessoa e que não seja rotulado já como um terrorista, esta pessoa padecia de algum problema de saúde mental, de problema do foro psiquiátrico mesmo. Portanto, aquilo que pode estar na base da motivação deste comportamento, desta tentativa de cometer um crime, podem ser os problemas de saúde mental. Mas quero deixar a ressalva, e isto é muito importante dizer, é que sempre que alguém padece de alguma psicopatologia, algum problema psiquiátrico, não significa que vá sempre cometer violência. Existe todo um outro conjunto de fatores que estão na base disso. Agora, neste caso, tanto quanto se sabe, era isso, esta pessoa realmente parece padecer de algum problema psiquiátrico e isto aliado a outros fatores que existem no contexto desta pessoa e que têm que ser avaliados pelas pessoas que estão com este caso em mãos, é que pode ajudar a explicar isto. Mas não me parece que haja aqui motivação ideológica ou política para isto ser chamado de um atentado terrorista. E eu insisto muito nisto. Eu sei que a lei enquadra este tipo de crimes como terrorismo, mas dizer à população que isto era um atentado terrorista é diferente de dizer à população que isto era um jovem que tinha um problema psiquiátrico e que ia cometer um crime, porque o terrorismo, por definição, aquilo que procura sempre fazer é causar impacto psicológico e condicionar a vida das pessoas por causa desse condicionamento e por causa desse impacto psicológico. Estar a apelar a esse crime de terrorismo tem muito mais impacto e vai causar muito mais alarme social do que olhar para ele como o caso de uma pessoa que infelizmente padecia de uma psicopatologia, algum problema de saúde mental.

E nesse sentido, Cátia, podemos estar aqui também perante alguém que tentou mimetizar, precisamente nesse contexto, situações que foram noticiadas relativamente a outros países, outras situações semelhantes que se viveram noutros países?

Sim, também daquilo que já fui lendo na comunicação social, e claro que neste caso, enquanto não houver informações oficiais, é preciso sempre algum cuidado no manuseamento desta informação, mas daquilo que já fui lendo, parece que houve aqui alguma tentativa de mimetizar e replicar aquilo que já foi feito noutros países, nomeadamente nos Estados Unidos. E justamente por causa disso, porque se isto se vier a verificar, é preciso também cuidado no manuseamento desta informação para evitar que isto possa inspirar outras pessoas, até aqui em Portugal, para cometer e efetivar, de facto, um atentado deste tipo de violência. Porque isto é um fenómeno que existe não só no terrorismo, existe noutro tipo de crimes, como por exemplo, a violência doméstica, o crime dos incendiários. E isto está provado pela ciência. Sempre que existe uma grande amplificação social de um tipo de crime, depois é muito mais provável que nos dias seguintes, esse crime vá ser replicado e mimetizado por outras pessoas. Por isso, mais uma vez, também apelo a terem calma. A mimetização previne-se com o recato no tratamento e no manuseamento desta informação. Agora, prevenir este tipo de atentados ou destes atos de violência, é com programas de prevenção. E aqui, ainda bem que fez essa pergunta, porque embora já existam vários programas de prevenção, alguns em Portugal, mas muito mais em países europeus que já foram muito mais afetados pelo terrorismo, deve-se continuar a fazer uma aposta também nos programas de prevenção da radicalização. Mas, por outro lado, eu espero que este caso, que felizmente falhou, que sirva para nós olharmos para o problema da saúde mental, e se se vier a verificar que, de facto, esta pessoa padece de problemas de saúde mental, para nós olharmos para os problemas de saúde mental como algo que deve ser levado a sério e as pessoas têm que estar mesmo sensibilizadas para isso. Porque ainda há pouco ouvi uma senhora na SIC Notícias a perguntar: "Como é que nunca ninguém se apercebeu dos sinais que esta pessoa pode ter passado?" Obviamente que isto é muito difícil quando as pessoas não estão sensibilizadas para as questões de saúde mental, é muito difícil para essas pessoas conseguirem identificar sinais e, portanto, normalizam certas coisas que não devem ser normalizadas. E, portanto, a saúde mental deve ser algo que deve estar presente na nossa vida e devem ser feitas campanhas, por exemplo, a nível local, para se tratar e prevenir problemas de saúde mental, sensibilizar as pessoas e até encorajar as pessoas a falarem sobre os seus próprios problemas. Isto pode ajudar de alguma forma. Mas a informação que ainda se sabe ainda é muito reduzida e eu também tenho o receio de estar aqui a dizer mais do que o que seja. Embora o terrorismo seja consciente, racional e deliberado, e embora as pessoas quando têm problemas de saúde mental e quando cometem atos de violência, mas não são movidas por motivação ideológica, política ou ideológica, isso não seja terrorismo, é preciso também dizer que existem casos de pessoas que de facto têm problemas de saúde mental, mas agem em nome de uma causa política, de uma causa ideológica. Isso começa-se a verificar cada vez mais, nomeadamente associado à ideologia de extrema-direita. E nesses casos até é 14 vezes superior aos outros tipos de ideologia. Mas deixo a ressalva, e isto é importante dizer, embora possa existir esta conjugação entre problemas de saúde mental e terrorismo, radicalização violenta, ainda assim é muito nebuloso ainda aquilo que se sabe e é preciso também cuidado no manuseamento desta informação.