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Contamos agora com o André Biscaia, presidente da Associação Nacional das Unidades de Saúde Familiar. Obrigada por estar conosco. Este reforço dos centros de saúde acredita que vem ajudar, que a população está sensibilizada para recorrer ao centro de saúde, tendo em conta que fica aberto até mais tarde ou, mesmo assim, pode ser difícil?
As medidas não podem ser únicas. E aquela sequência que disse, que foi apresentada aqui na notícia, é aquela que deve ser seguida: primeiro, telefonar pro SNS 24, e eles depois orientam qual é a melhor solução. E muitas vezes a solução é o autocuidado. E se realmente não houver esta parte do autocuidado, ou seja, se as pessoas forem ao primeiro sinal de tosse ou às primeiras horas de febre à procura de um serviço de urgência hospitalar ou de centro de saúde, não vai ser possível dar resposta. E, portanto, é preciso que todas estas medidas sejam tomadas em conjunto. Primeiro, realmente esta parte da literacia, uma boa comunicação com a população. Depois, telefonar pro SNS 24. O SNS 24 tem que ter capacidade e bons algoritmos pra poder discernir quais são as situações e, sempre que possível, aconselhar o autocuidado e realmente permanecer em casa. Depois, temos a solução para aquilo que for indicado, para o centro de saúde ou pra urgência hospitalar.
Foi anunciado um reforço da linha SNS 24, foi anunciado ontem, mas há casos em que de fato as pessoas ficam muito tempo à espera de serem atendidas. Nesse caso, mais vale ir a uma farmácia? Estava a falar no autocuidado.
O autocuidado tem que haver o literacia, ou seja, tem que haver informação. Se as pessoas não puderem telefonar, tem que conseguir um site onde há acesso à informação. O site do SNS 24 e do próprio SNS tem muita informação, e rapidamente as pessoas podem se orientar também por aí. Portanto, essas têm que ser realmente as primeiras medidas que as pessoas têm que tomar. Depois, houve aqui uma série de medidas que já foram sendo tomadas, nomeadamente esta questão da autodeclaração da doença. Muitas vezes as pessoas só procuram os cuidados de saúde porque precisam de uma justificação pra ausência ao trabalho. Temos também as autodeclarações de doença. E tudo isso são medidas que foram importantes. Mas se realmente não houver esta, digamos, conscientização maior sobre o que é que se pode fazer em casa e quando é que se deve realmente contactar os serviços de saúde, isso não vai acontecer. Outra medida importante são as outras medidas de autocuidado. Parece que esquecemos tudo aquilo que aprendemos com o Covid, a utilização da máscara.
A Ordem de Médicos hoje já recomendou o uso de máscara, também recomenda para prevenir o contágio.
Exatamente. Também a limpeza das mãos, se as pessoas realmente tiverem queixas de sintomas de infecção respiratória viral, utilizarem sempre a máscara, autoisolarem-se. Tudo isso são coisas fundamentais. E depois a questão toda da vacinação. A vacinação da gripe, a vacinação contra a Covid. Este ano tivemos realmente constrangimentos nesta vacinação, porque se optou, apesar de Portugal ser dos únicos países que tem conseguido cumprir as metas de vacinação da gripe todos os anos, este ano a direção executiva do SNS decidiu mudar a estratégia. E essa estratégia fez atrasar aquilo que eram os taxas de vacinação que tivemos o ano passado em cerca de um mês.
E é por isso que a cobertura agora está abaixo do desejável?
Está abaixo, sem dúvida. Sempre correu bem. Este ano decidiu-se mudar e correu pior. A 20 de novembro tínhamos 48% da população vacinada, da população alvo, quando realmente no ano anterior era muito superior. E agora, depois, realmente, de voltar-se à estratégia, tendo sido feito o apelo da direção executiva para que os centros de saúde retomassem a estratégia que tem sido seguida todos os anos, já se está quase a aproximar da meta, mas perdeu-se um mês. Portanto, isso tem que servir para realmente se aprender pro próximo ano. Disse que, com esta estratégia, de se passar a maior parte da vacinação pras farmácias comunitárias, que se ia aumentar os postos de vacinação, mas não é isso que se passou. Ou seja, quem tem o conhecimento, e se fosse perguntado aos cuidados de saúde primários, sabe perfeitamente que os postos de vacinação, em termos de Covid e de gripe nos anos anteriores, são cada enfermeiro que está no SNS. E nos cuidados de saúde primários estão cerca de nove mil enfermeiros. E esses são os postos de vacinação, que conhecem a população. E aquilo também que se sabe, e isso também já foi dado aqui nos relatórios do Vacinômetro, é que realmente a recomendação das equipes de saúde, nomeadamente os médicos, os enfermeiros, é aquilo que realmente leva a população a querer se vacinar. Não são os SMS que são recebidos. E, portanto, este ano optou-se por outra estratégia, e a estratégia não deu certo. E espero que pro ano não se insista nessa estratégia, até porque custou dinheiro também. Ou seja, com aquilo que realmente se gastou na vacinação pra gripe este ano e da Covid, dava pra contratar os enfermeiros que faltam ao SNS durante um ano. E, portanto, é esse tipo de reflexão que tem que ser feito.
E esse apelo fica feito. Deixe-me só voltar aqui à questão do alargamento dos horários dos centros de saúde. Têm capacidade de resposta para garantir, de fato, esta abertura até mais tarde? Há recursos humanos suficientes ou esta medida foi tomada em cima do joelho?
Aquilo que nós sabemos também é que por cada ida à urgência hospitalar, há duas ou três que são feitas por doença aguda nos cuidados de saúde primários. Portanto, sempre houve essa resposta. A resposta que tem que ser dada é uma resposta de fundo que passa pela cobertura da população com equipas de saúde familiar. Isso é algo que se está a tentar agora com a generalização das USF modelo B.
As tais 222 que vão entrar em vigor a partir de janeiro.
Exatamente. Isso é uma medida positiva, é uma medida que a minha associação, a USF AN, a Associação Nacional de USF tem lutado desde sempre. As quotas para as USF modelo B é o que nós consideramos a principal razão para não haver uma cobertura da população toda por equipas de saúde familiar. Esta é uma medida que começou na troika com o governo PSD, e que foi alterada a seguir. E isto levou a uma desmotivação e realmente a uma desmobilização. São formados médicos de família, enfermeiros de família e também assistentes técnicos que também existem no mercado de trabalho, suficientes pra população toda. O problema aqui é que realmente faltam incentivos, e estes incentivos que agora se vai tentar com esta generalização do modelo B, é nesse sentido. O problema é que há aqui uma série de contrastes, ou seja, temos esta generalização, temos um aumento do vencimento base, mas depois, nas partes variáveis do vencimento, que tem a ver com as listas e com os indicadores de desempenho da qualidade, vai haver alterações e nós não sabemos qual vai ser esse impacto. Sabemos que neste momento está a haver uma limpeza das listas nos cuidados de saúde primários e isto pode levar à saída de várias centenas de pessoas de cada lista do médico de família.
A medida pode ser boa, mas ainda tem que ser afiada, pelo que percebemos aqui por André Viscaias. Já estamos mesmo no limite do nosso tempo.
Só mais um ponto. São umas medidas que foram demasiado centradas no médico de família e realmente esqueceram-se dos outros grupos de profissionais. E isto cria problemas a nível da equipa e isto era tudo aquilo que nós queríamos evitar. Portanto, há aqui realmente uma série de medidas positivas, mas há outras que realmente ainda têm que ser limadas.