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Assinalam-se hoje quatro anos do dia em que Portugal conquistou o título de campeão da Europa de futebol. Foi a 10 de julho de 2016 que o gol de Éder deu a Portugal o maior título coletivo da história. Para recordar conosco esse dia, está aqui na emissão do Observador o jornalista do Canal 11, Alexandre Afonso, que esteve a relatar toda a fase final para a Antena 1 com o Nuno Matos.

Antes de mais, Alexandre Afonso, bom dia. Obrigado por esta oportunidade de estares aqui conosco. Mas antes vou te lançar este desafio. Já deves ter ouvido isto tantas vezes, mas de qualquer maneira vamos ouvir outra vez esse momento mágico.

Vamos ser! Vamos ser! Vamos ser! Vamos ser! Vamos ser! Vamos ser! Acabou! É campeões, campeões, nós somos campeões. Campeões, campeões, nós somos campeões. Portugal ganhou. Portugal, daqui a pouco, vai levantar a taça, Alex. Somos campeões da Europa.

Nuno, este momento, a esta distância, quatro anos depois. Tinhas alguma coisa preparada para isto ou não? Saiu-te mesmo, foi espontâneo?

Vamos ver. Isto foi tudo uma conjugação de emoções e naquela altura não dava para pensar em muita coisa. Eu estava com o meu companheiro Nuno Matos, companheiro de tantos anos a fazer a Seleção Nacional desde 2000, e o nosso trabalho, tal como a Seleção Nacional, foi gradual. Nós ligámo-nos ao sucesso daquilo que importava, que era a seleção e não o nosso, obviamente, mas nós fomos apanhando ou tentando apanhar o comboio daquelas emoções todas. E de facto, o epílogo, a decisão, a ponta final, ali está no extremo desta emoção. Portanto, era impossível preparar o que quer que seja ou o que quer que fosse, porque mesmo que nós tivéssemos pensado e pensássemos: "E se Portugal ganhar? E se Portugal ganhar a França? Mas será possível aqui em Saint-Denis, em Paris, na França? Não, não é possível. Não, mas pode ser possível." Mesmo que nós idealizássemos um cenário, ele era completamente ultrapassado. Onde eu quero chegar? Mesmo que nós tivéssemos imaginado que Portugal ganhava, nunca iríamos imaginar que era daquela forma. Não sei se me faço entender. Ou seja, todo o próprio jogo da final teve episódios dentro do próprio jogo.

Teve uma série de condimentos que foram criando aquela sensação que eu imagino, para quem esteja a relatar naquela altura, vai criando e aumentando. Parece um filme, não é?

É um filme.

Era isso que eu te ia perguntar. Há dois momentos neste jogo, que eu acho que são aqueles momentos chamados de ponto alto, que é o do gol e a da lesão do Cristiano Ronaldo. Nesse momento em que todos assistimos, tu estavas lá na bancada, e que assistimos à saída do Cristiano, com o jogo a decorrer naquela altura, da forma como estava a decorrer, qual é que foi o teu sentimento naquela altura? Qual é que foi a vossa noção do que iria acontecer dali para frente?

Eu senti que naquele momento, quando se percebe que o Cristiano primeiro, antes de sair, dá sinais de que não está bem. E nós apercebemos logo que o Cristiano não estava bem, muito antes da imagem televisiva, porque a imagem televisiva, como sabemos, é um plano mais geral.

Vai acompanhando e quem está no campo percebe mais.

É. Nós percebemos assim: o Cristiano não está bem. E passado uns tempos, passado uns segundos, um minuto, dois, verifica-se que o Cristiano não está bem. É quando ele se senta a primeira vez e quando se percebe que não vai dar. Não há ninguém como o próprio jogador que conheça o seu próprio corpo e percebemos ali que não ia dar. Estar a jogar em França, em Paris, contra a França ou frente à França, eu não gosto muito de dizer o contra, e ver que sair o melhor do mundo, eu imagino que todos os portugueses sentiram aquilo que os próprios jogadores sentiram. Se com ele já era difícil, sem ele vai ser impossível ou vai ser muito difícil. Mas depois há ali outros pormenores. Eu falei recentemente com o Bruno Alves e falei com ele sobre isto. Eu estava colocado, mais o Nuno Matos, pela Antena 1, ser a rádio detentora dos direitos, mesmo sobre o túnel de acesso ao balneário. E quando o Cristiano sai na maca, a forma como o Bruno Alves sai do banco, vai a correr e se agarra ao Cristiano no túnel, é uma imagem que não foi muito vista, mas ela está disponível, em que se agarra ao Cristiano. Houve ali um sinal de que pode ser que eles façam por ele. E esse momento, para mim, foi determinante. A saída do Cristiano foi determinante, com tudo o que o Cristiano representou, representa e vai representar para o futebol em Portugal. Mas isso também, perdoem-me agora dizer, ajudou que Portugal ganhasse. Não sei se depois com o Cristiano em campo, se Portugal teria conseguido vencer. Isso seria especular. Agora, foi efetivamente, concordo contigo, um dos grandes momentos do jogo, que foi a saída do Cristiano Ronaldo, e um momento marcante, porque todos nós, eu acredito, a lágrimazinha, pelo menos o olho ficou um pouco umedecido, ficou ali brilhante quando vimos o Cristiano sair. Porque esta coisa de se dizer que o jornalista não tem emoção e que o jornalista tem que estar acima, é óbvio que tem que estar acima.

Mas isenção nestas alturas é impossível, não se consegue despir.

É impossível. Então, Portugal está à beira de ser campeão europeu Pela primeira vez na história e qualquer jornalista, eu falo aqui no plural, dissocia-se disso, separa-se disso, só porque a deontologia tem que ser preservada. É óbvio que a deontologia tem que ser preservada, mas também aí foi, acho que em todos, não só comigo nem com o Nuno, mas em todos os jornalistas que estiveram na final, e os da rádio e os da televisão, porque estão com o direto, têm a palavra, têm as sílabas a sair da boca constantemente, tem que se ter um cuidado ainda mais apurado para saber o que se diz, porque naquela altura, com as emoções assim.

Pode sair qualquer coisa.

Pode sair qualquer coisa. E o controle verbal, o controle das sílabas, das palavras, das ideias, é muito difícil. Felizmente, acho que conseguimos. Conseguimos passar a mensagem, conseguimos agarrar os portugueses e isso foi o mais importante. É tão importante que vocês colocaram agora este excerto no ar e volta a arrepiar, acreditem, volta a arrepiar. Eu não posso ver muitas vezes na televisão porque arrepia, porque traz saudade, traz alegria. E chorar de alegria é ótimo, é maravilhoso, é espetacular.

Sente isto naquele momento. Eu acho que quem faz rádio e quem, no caso, relata jogos, sente também isso. E nesta altura, nomeadamente os jogos da seleção, sentiste que eras um bocadinho a voz também dos portugueses, ou seja, que aquela tua forma de gritar: "É meu, é teu, é nosso, é de Portugal" era aquilo que estariam naquele momento também a gritar os milhões de portugueses que estavam a ver o jogo, quer no estádio, quer fora dele, a ver através da televisão, a ouvir na rádio. Sentiste que eras essa voz também ou não? Isso é uma fração, mas passa-te na cabeça essa ideia ou não?

Passa, sem qualquer pretensão da minha parte. Vamos lá ver. O que eu pensei foi ao longo dos anos, ao longo do Europeu, inclusivamente, como ele foi, eu cheguei a chamar o Europeu do sofrimento, porque aquilo foi aqueles empates com a Islândia, com a Áustria e com a Hungria, e onde é que vai ficar Portugal, vai segundo, vai terceiro. No próprio jogo, não se sabia, na última jornada da fase de grupos, onde é que ia cair, depois cai para aquele lado nos grupos. E depois foi gradual. E eu sentia de muita gente, um carinho muito grande pela química que tinha com o Nuno, que foi feito ao longo dos anos. E eu senti-me uma parte da história. Uma ínfima, uma pequenina parte, por amor de Deus. Agora, quando Portugal ganha o Campeonato da Europa e quando, no dia a seguir à chegada, quando chegamos, tive a felicidade de ser chamado pelo presidente da Federação Portuguesa de Futebol, Fernando Gomes, e na própria Federação e no seu próprio gabinete, me dar a taça e me dizer: "Alexandre, também fez parte, também ajudou a que nós conquistássemos o título, também é sua." Aí confesso que me voltei a emocionar e voltei a sentir, enfim, consegui, porque era aquilo que eu queria, era ligar os portugueses ao sucesso da seleção. O sucesso foi da seleção, mas ligar os portugueses. E eu acho que efetivamente consegui, em muita gente, eu e o Nuno, obviamente, conseguimos ligar os portugueses naquela onda de querer fazer bem e de querer alcançar o título. Confesso que sim, respondendo telegráfica agora, sim, telegraficamente à tua pergunta, senti-me um bocadinho parte do sucesso, mas um bocadinho pequenino, claro.

Voltando outra vez ali ao Relvado e àqueles minutos finais, entrou o Éder. Nesta altura, o que te pareceu a opção de Fernando Santos colocar, vamos usar esta palavra, o patinho feio em jogo?

Naquela altura, a esperança é tão grande e a vontade de ganhar é tão grande que se pensou: "Bom, mas já aconteceu de tudo a Portugal neste Campeonato da Europa". Apurar-se no terceiro lugar da fase de grupos, cair ou não pro lado dos teoricamente mais fortes ou menos fortes. Depois aquele jogo com a Croácia. Depois as grandes penalidades à Polônia. As lesões durante o Europeu, os jogadores a serem recuperados e a conseguirem estar aptos nos jogos a seguir. Tudo estava a caminhar, era como trepar uma montanha, escalar uma montanha. E depois quando entra o Éder, enfim, acreditava-se, poderia ser ele, não havia Cristiano, poderia ser ele. Naquela altura já não importava se era o A, se era o B. Eu acho que isto é que resume aquilo que foi a seleção nacional, porque Cristiano há só um, Cristiano é indiscutivelmente o capitão, é o líder, é o melhor, mas depois ele próprio, Cristiano, com a forma como esteve depois com o joelho ligado junto ao banco e toda a equipa. O Cristiano soube entrar no filme e a equipa soube entrar para o filme sem o Cristiano. Foi uma conjugação de várias coisas. E quando o Éder entrou, eu tinha obviamente uma grande esperança. Não vou dizer aqui que eu tinha a certeza que ele ia marcar, nada disso, não se trata disso. O que eu achei na altura e o que achamos era: enfim, é o Éder, pode ser que isto está a correr. Nós estamos com a estrelinha conosco, pode ser que. E não é que foi mesmo? Foi mesmo.

Alexandre Afonso, e depois conseguiste dormir nessa noite ou não?

Não, não dormi. Impensável. Mas é que impensável mesmo. Por quê? Deixe-me contar este episódio rápido. Isto voltando atrás àquele episódio de Fernando Gomes, presidente da Federação Portuguesa de Futebol, tem uma história. Quando nós vamos para a França, a comitiva, a imprensa vai no avião com a seleção nacional. No mesmo avião. Para cá não foi feito assim, jamais. E nessa viagem para lá Fernando Gomes veio e alguns jogadores vieram à parte traseira do avião cumprimentar os jornalistas, desejar bom trabalho, desejar boa sorte. Obviamente que foi recíproco da nossa parte para toda a seleção, o normal que acontece nessas alturas. E eu estive naquela altura, quando Fernando Gomes veio e disse: "Presidente, pode escutar-me só 10 segundos aqui com a malta?" "Diga, Alexandre". "Vamos fazer uma coisa. No regresso, traz aqui a taça para nós, que nós também queremos erguer a taça". E ele disse-me assim, no seu ar compenetrado: "Alexandre, está combinado". E saiu, foi embora. Pronto, e a conversa foi assim. O que é que se dá? No jogo, na final, nós sabemos, através da assessoria de imprensa da federação, que afinal Portugal campeão da Europa já não vinha no avião com a imprensa. A imprensa veio, vieram familiares dos jogadores e do staff e, como sabemos, a seleção veio num avião mais pequeno, entrando em espaço aéreo português com os caças e tudo aquilo. Bom, e é quando se dá depois aquela chamada do presidente da federação, porque ele tinha prometido que me levava a taça, então entregou-me literalmente a taça. E nessa noite era impossível dormir. Para já, chegar a Marcoussis, que era o centro de estágio da seleção, de Saint-Denis, estamos a falar de 20, 30 km, mas todos sabemos como é Paris no trânsito. É horrível, em qualquer altura do dia. Mas naquele dia era impossível. Regressar não dava. Não dava para regressar, porque a estrada estava na aproximação a Marcoussis. Era uma loucura, eram milhares de portugueses que impediam que nós pudéssemos lá chegar. A seleção chegou para fazer as malas e para descansar um pouco, para comer e para festejar, porque tinha os batedores. Eu cheguei ao hotel, deviam ser umas 6h, 7h e tivemos que fazer as malas, arrumar tudo, porque tivemos que fazer a viagem de regresso. Mas foi das noites mais lindas. A nível profissional, foi a noite inesquecível, porque de facto é marcante. Não dormi mesmo. Nem eu, nem ninguém.

Lembras-te de alguma história, daquelas histórias que nós sabemos que vão acontecendo ao longo e durante os treinos, durante estes jogos, mesmo com adeptos, com jogadores, que se possa contar aqui na rádio, aquelas que tenham ficado na retina e que sejam desconhecidas nesta altura, mas que passado quatro anos se possam contar agora? Há alguma mais interessante que te lembres?

Há várias. Eu não gosto muito de meter o lado dos jogadores, como compreendes, eu respeito muito essa parte do lado pessoal e poderia, mesmo pensando eu que não iria cometer aqui nenhuma inconfidência ou que não iria tocar aqui nalgum ponto sensível, nunca sabemos. Enfim, cada pessoa é uma pessoa, cada ser humano é um ser humano, e poderia eventualmente contar aqui um ou outro episódio mais privado que pudesse chocar ou que pudesse melindrar os protagonistas. Mas posso-te contar esta história que tem a ver com uma adepta. Em Marcoussis, como sabes e lembras-te dessas imagens, estavam sempre à porta do centro de estágio. A seleção estava no centro de estágio da seleção de rugby francesa e então estavam todos os dias, dezenas de pessoas lá à porta. Passavam lá os dias porque queriam ver os jogadores. E então era um desânimo, era uma desilusão. Os jogadores treinavam lá e quando não saíam, não havia jogos, nem sempre vinham cá ao exterior. Estava uma senhora, um calor tórrido, acima dos 30 graus naquela altura, e então estava uma senhora completamente vermelha de apanhar o sol, aquilo era já insolação, acredito que sim. Com a água, com cara molhada e eu estava a fazer a reportagem, ela dizia-me: "Eu nunca mais aqui venho, porque é uma falta de respeito estes jogadores não virem aqui fora saudar os portugueses. É uma vergonha". E ela estava toda indignada. E eu disse: "Mas tenha calma, sabe que os jogadores estão a descansar, têm que treinar, nem sempre podem vir aqui, tenha calma". Eu a tentar suavizar e não dar força àquele sentimento que ela tinha, que eu também compreendia, porque as pessoas, os adeptos queriam ver de perto, queriam um autógrafo, queriam uma fotografia. Nem sempre é possível.

Querem sempre um bocado os jogadores, querem também fazer parte.

É normal.

O que é normal, também é evidente.

É normal. E a seleção depois, o staff da federação percebeu isso e começou, de facto, a levar mais jogadores, porque é aquele bocadinho que os jogadores podem dar. Há pessoas que passaram lá. Essa senhora passou lá dias inteiros a comer bolachas e a beber água e não queria sair da grade da parte da frente para não perder um possível contacto com os jogadores. Então ela dizia que não ia mais. Portugal joga no dia a seguir e ganha um dos jogos, já não me recordo qual. Lá estava ela no dia a seguir. Eu vi-a, fui ter com ela, microfone em punho, já a gravar, e disse-lhe: "Então, como está? Está boa? Eu estou disse que não vinha mais e está aqui". Ela teve uma saída: "Não vinha mais? Mas como é que eu não podia vir? Eu tinha que vir. Estes homens são isto." Ou seja, mudou completamente o discurso de 48 horas antes. Isto para dizer o quê? Que o futebol é assim, o futebol é apaixonante, o futebol gera, não diria ódio, mas gera desilusão numa terça-feira e gera a paixão louca e o amor e a adoração 48 horas depois. E com aquela adepta, com aquela senhora, é exemplificativo do estado de espírito dos portugueses. Não acreditando na fase inicial do Europeu, Portugal não joga nada, não ganha a ninguém, empata e depois passam a ser os maiores. Isto no fundo continua a ser assim em todo o futebol, em todo o mundo. É passar-se de besta a bestial e de bestial a besta num estalar de dedos.

É a paixão do futebol. Alexandre Afonso, obrigado por nos relembrares outra vez esta festa do Campeonato da Europa, que tu viveste lá dentro e nos trouxeste a nós, que estávamos do lado de cá, com esta emoção extraordinária que a rádio também nos dá. Obrigado, Alexandre Afonso. Vamos ficar outra vez com este teu relato, este teu final.

E felicidades para vocês, e felicidades para o Observador, felicidades para o projeto. Corra tudo bem como vocês idealizaram e idealizam diariamente, porque é a força da rádio, e a força da rádio tem que estar sempre presente.

Obrigado, Alexandre. Um grande abraço.

Vamos ser, vamos ser!

É campeã!

Vamos ser, vamos ser!

É campeã!

Vamos ser, vamos ser!

É campeã!

Vamos ser, vamos ser!

É campeã!

Somos campeões, campeões, nós somos campeões. Campeões, campeões, nós somos campeões. Portugal ganhou. Portugal daqui a pouco vai levantar a taça, Alex.

Somos campeões da Europa, contra tudo e contra todos. Foi o nosso vaticínio, foi aquilo que esperávamos, foi por aquilo que trouxemos e temos, de facto, um grupo extraordinário. Soubemos sofrer. É uma grande seleção, é uma grande vitória e desculpem-me os franceses. C'est la vie.

C'est la vie, mon ami.

C'est la vie.