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Junta-se a nós aqui nesta emissão da Rádio Observador, o doutor Luís Pinheiro, o diretor clínico do Centro Hospitalar Lisboa Norte. Começo já por lhe perguntar: estes testes começaram hoje e estão a ser feitos a quem? Aos profissionais de saúde e também aos doentes? E com que objetivo?

Muito boa tarde a todos. Muito obrigado por esta oportunidade de contribuir um pouco para esclarecer e transmitir a evolução das nossas instituições nesta área. Efetivamente, começámos hoje a disponibilizar internamente, dentro do hospital, aos nossos médicos, a possibilidade de prescreverem os testes sorológicos para a Covid-19, portanto, para a identificação dos anticorpos contra o vírus. É um tipo de teste que, não sendo um teste de diagnóstico, porque é realmente uma informação relevante, é, como disseram, um teste que pode ser útil para ajudar a caracterizar a evolução da infeção ou complementar alguns dos outros elementos clínicos. E realmente estão dirigidos a doentes e a profissionais, porque efetivamente poderão ser úteis para avaliar o status imunológico após a infeção, nomeadamente dos profissionais. E eles estão disponíveis dentro do hospital para serem solicitados no âmbito da atividade clínica dos nossos internamentos e consultas e no âmbito do serviço de saúde ocupacional.

Quantos testes irão realizar por dia?

Não temos um alvo. Neste momento, a capacidade laboratorial permite chegar entre os 80 e 100 por dia, se for necessário. Mas mais do que o número de testes pré-definido, aquilo que definimos são as situações em que eles poderão ser úteis e, como tal, só nessas é que deverão ser solicitados.

E há prioridades?

Não, as prioridades centram-se nas indicações, ou seja, temos acima de tudo situações onde não devem ser solicitados e, portanto, a prioridade será para os casos em que eles se revelem úteis de acordo com as indicações. Ou seja, avaliar a resposta após uma infeção documentada, avaliar eventuais ocorrências de reinfeções e o status imunológico desses doentes ou dos profissionais, estudar e avaliar pessoas assintomáticas que tiveram contato com casos confirmados, que é também relevante, nomeadamente no âmbito dos profissionais de saúde, ou contribuir para o processo de diagnóstico em situações onde o diagnóstico seja mais duvidoso, não substituindo de maneira nenhuma o teste de diagnóstico, que é efetivamente a zaragatoa e o método de biologia molecular de RT-PCR. Portanto, estes testes não são testes de diagnóstico.

E qual é o grau de fiabilidade destes testes?

O grau de fiabilidade é muito elevado. É elevadíssimo em termos daquilo que determinam. Temos que separar aqui entre: o teste é fiável? É. Este kit que temos foi testado, por isso é que só hoje é que o começámos a utilizar, porque durante estas últimas duas semanas esteve a ser validado internamente para que possa efetivamente ser utilizado com confiança. Ou seja, o que ele se propõe determinar, que é a existência de anticorpos contra o vírus da Covid-19, o SARS-CoV-2, é completamente fiável. Inclusive anticorpos IgG, de uma resposta mais tardia, ou anticorpos IgM, que muito se fala também, numa fase mais precoce. Nesse aspecto, é completamente fiável. Agora, a maneira como nós usamos a informação é que tem que ser muito cautelosa. Ou seja, existir anticorpos não é, neste momento, sinónimo de termos proteção, porque não se sabe ainda se os anticorpos produzidos são protetores numa eventual segunda infeção.

É essa a ideia da imunidade da população portuguesa nos estudos que têm sido feitos. Doutor, ajude-me a perceber. Com este teste, podemos chegar a essa imunidade da população?

O teste identifica a resposta imunitária do organismo, ou seja, o teste não nos chega à imunidade. O teste o que faz é identificar e quantificar a presença dos anticorpos, que no fundo são a resposta do nosso organismo, a resposta imunitária ao vírus. A questão que se coloca é: a produção desses anticorpos e a sua existência no sangue da pessoa depois de ter sido infectada protege-a de uma próxima infeção ou não? Nesta doença, ainda não se sabe se protege.

E não se sabe por quê? Devido à mutação do próprio vírus?

Não. O vírus, daquilo que é conhecido até agora, não é um vírus que tenha níveis de mutação. Portanto, é relativamente estável. Não se sabe porque ainda passou pouco tempo relativamente ao estudo da doença e dos doentes curados após a primeira infeção. E porque o comportamento dos anticorpos, nesta como noutras infeções, é muito variável. Há infeções onde os anticorpos protegidos dão imunidade definitiva e por isso, por exemplo, algumas vacinas tomam-se uma vez na vida e ficamos vacinados para a vida toda, outras temos que ir fazendo reforço ao longo do tempo. E aqui, não se sabe exatamente qual é o tempo durante o qual os anticorpos existentes são suficientemente protetores para uma próxima infeção. Nem o tempo, nem sequer a quantidade necessária para ser garantida essa mesma proteção. Não se sabe ainda. É uma questão de tempo saber se é.

E quem tiver anticorpos pode deixar de manter a chamada distância social ou não aconselha de todo?

Não aconselho de todo, de forma nenhuma. Exatamente porque ainda não sabemos o significado clínico total da existência desses anticorpos. E, portanto, como tal, temos que ter aqui muita prudência na interpretação destes resultados. E por isso é que fazemos estes testes a nível hospitalar, pedidos e interpretados por médicos em contextos que estão clinicamente validados, porque não podemos rotular alguém, por ter anticorpos, de ser alguém que está isento das medidas de proteção. Muito pelo contrário, essa segurança não existe. Não podemos passar à população a mensagem: "Vamos fazer testes para saber se temos anticorpos, porque se tiverem, não precisam ter cuidado". Pelo contrário, a existência de anticorpos não é um salvo-conduto, como hoje comentava já com alguém, para termos uma vida sem as devidas cautelas de proteção social que estão a ser preconizadas.

Nem mesmo para os profissionais de saúde?

Nem mesmo para os profissionais de saúde.

Qualquer pessoa pode ir fazer este teste?

Aqui no hospital, não. Este teste é uma análise ao sangue, como as outras análises todas que fazemos aqui no nosso laboratório e que são análises que são feitas mediante a solicitação do médico, neste caso do médico do hospital, num contexto clínico que se enquadre dentro das indicações que determinamos. Portanto, não é um serviço, digamos assim, prestado de forma quase anónima e não controlada à população. É prestado à população de que nós cuidamos, num contexto clínico, volto a dizer, bem definido, de acordo com as indicações que estão definidas.

Qual é esse contexto clínico? Para nós também percebermos, de certa forma, quem é que está a ser testado.

Sim, irão ser testados os doentes que tenham tido um teste de diagnóstico positivo.

O primeiro teste?

Não, depois da infeção estar resolvida, para ser feita exatamente a avaliação depois da resolução clínica e laboratorial, para fazer a monitorização da resposta imunológica e da sua evolução, correlacionando isso com a situação clínica do doente. O outro contexto clínico é quando ocorre uma reinfeção, que podemos documentar, eventualmente, fazer esse mesmo estudo para verificar se essa reinfeção surge com anticorpos produzidos ou não. Lá está, porque precisamos, enquanto agentes também de informação científica em saúde, de ir contribuindo para o tal conhecimento do valor dos anticorpos do ponto de vista clínico. Porque imagine este cenário: alguém que é reinfetado, que se documenta uma segunda infeção. Se verificarmos que tem anticorpos, teremos que relacionar essa reinfeção com a quantidade desses mesmos anticorpos e dar nota disso exatamente à comunidade.

E temos casos de portugueses que já tenham sido reinfetados? Há casos desses ou não?

Que eu tenha conhecimento específico, não. Também ainda passou muito pouco tempo para que as primeiras infeções, inclusive, se resolvessem. Aqui no hospital, que tenhamos nós, dentro dos doentes que tratamos até agora, identificado essa situação, não. Mas quem poderá responder a isso com mais propriedade será a Direção-Geral de Saúde, que tem a informação dos casos todos do país. Mas eu não estou a dizer com isso que esperamos que as pessoas tenham reinfeção, porque, à partida, ou a ocorrer, qual é o momento em que deixamos de estar protegidos? É isso que não se sabe. Daí que a valorização dos anticorpos deva ser feita, não pelo cidadão, mas pelo médico conhecedor da potencialidade do teste. Outra área onde este tipo de teste será útil é no doente assintomático ou na pessoa assintomática, não lhe chamemos doente, que, por alguma razão, contactou com doentes COVID positivos confirmados. Profissionais de saúde, por exemplo. Poderá ser relevante, às vezes, até para identificar uma situação mais precoce de infeção ou de resposta. E depois casos muitíssimo específicos de doentes em que a suspeição clínica, em termos hospitalares, doentes internados, é muito elevada para infeção, mas o resultado do teste de diagnóstico da zaragatua ainda não é positivo. E aí pode ser útil aqui fazer este de anticorpos, nomeadamente a IgM, que pode surgir mais precocemente. Mas tudo isto são contextos clínicos muito especializados que, de maneira nenhuma, se podem nesta fase generalizar para um pedido anónimo e indiscriminado, porque depois a interpretação dos resultados levaria àquilo que dizia há pouco, tem toda a razão, que é as pessoas acharem que por terem anticorpos estão protegidos e, portanto, como tal, não têm que ter cautela. Pelo contrário, não podemos, de maneira nenhuma, deixar que essa mensagem, nesta fase, passe, porque o conhecimento científico não o permite.

Doutor, e como é que vê essa hipótese de se usar, tem-se falado sobre isso também, a utilização do plasma de doentes que já tenham sido infetados para a cura de outros doentes?

É um dos vários tipos de terapêutica de investigação que ainda está a ser feita. Está, inclusive, a ser objeto de ensaios clínicos internacionais, alguns deles em que Portugal, em alguns dos seus centros, e nomeadamente nós próprios, estamos a ponderar ser envolvidos. Com alguns exemplos de sucesso, ainda caso individuais, sem séries muito longas, muito extensas, mas, portanto, parece ser promissor em algumas situações e vindo de plasma de alguns doentes. Lá está, é isso que está a ser estudado ainda no âmbito de ensaios clínicos. Ou seja, não é uma terapêutica que exista de forma generalizada, nem poderia ser. E, portanto, no âmbito de ensaios clínicos, devidamente estruturados, está a ser equacionada essa hipótese, já com alguns casos de sucesso, mas os resultados finais ainda não estão concluídos. Mas é uma das linhas potenciais para alguns casos de doentes particularmente graves que se possam vir a beneficiar. Mas, de maneira nenhuma, é uma terapêutica, chamemos de comum ou aceite, porque é efetivamente ainda, chamemos de experimental.

Doutor Luís Pinheiro, só uma pergunta para terminarmos. O que é que pode mudar, na prática, isto na vida de alguém, nesta altura, com imunidade?

Com imunidade? O que é que entende por imunidade? Imunidade por ter anticorpos luziados?

Exatamente.

Imunidade que for protetora. A questão é que nós, neste momento, não podemos dizer que a presença de anticorpos é protetora. Não podemos. O que não quer dizer que não possa ser, mas não o podemos afirmar, porque não temos forma de o garantir. E, portanto, dará, pelo menos, a informação de que essa pessoa já contactou com o vírus. Isso, sem dúvida nenhuma. A existência destes anticorpos no sangue de alguém, significa que já contactou com o vírus, ou com uma infeção que tenha sido documentada, ou com uma infeção que tenha passado de forma assintomática, sem ter sido identificada, o que pode acontecer perfeitamente, porque muitos dos casos, felizmente, são muitíssimo pouco graves e quase sem sintomas. Portanto, é esse o significado que tem. No futuro, com mais tempo, quando já a comunidade científica conseguir aferir qual a quantidade de anticorpos que significa proteção, poderá vir a significar que essa pessoa, durante esse tempo, poderá estar protegida, mas neste momento ainda não podemos afirmá-lo.