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Perante a notícia de hoje, em que o diretor-geral da OMS anuncia que é o fim da emergência global, podemos dizer que isto é mesmo o fim da pandemia ou há aqui uma distinção entre o conceito de fim de pandemia e o fim de emergência global?

A definição de pandemia não é uma definição com contornos muito claros. Normalmente, dizemos que temos uma pandemia quando temos uma situação de emergência à escala planetária e a situação de emergência, penso eu, que já não se verifica. Portanto, eu concordo com esta decisão de acabar com a situação de emergência de saúde pública. Nós dizemos que passamos a uma situação de endemia, por oposição a pandemia, quando existe já uma certa previsibilidade no comportamento do agente infeccioso, neste caso, do vírus. Portanto, eu diria que nós estamos já realmente a entrar em situação endémica. Não tenho 100% a certeza disto ainda, espero não vir a mudar de opinião no próximo inverno, mas penso que estamos numa situação endémica e não tanto pandémica, no sentido em que não existe já tanta imprevisibilidade, já conhecemos melhor o vírus, as suas características, etc. Portanto, penso que respondi à sua pergunta, não tenho a certeza.

Ou seja, não se pode dizer assertivamente que é o fim da pandemia.

Eu diria que isso depende da definição exata que se der à palavra pandemia. De acordo com os manuais, os tratados, uma pandemia é uma situação de uma epidemia, ou seja, um aumento muito grande do número de casos de uma infeção à escala planetária. Nós, neste momento, já não estamos nessa situação, a meu ver. Não quer dizer que não haja outras definições para pandemia, mas se for esta, que é a definição dos tratados, nós já não estamos em pandemia, pelo menos desde o inverno passado.

E faz sentido a vacinação continuar de forma tão alargada ou poderiam haver agora uns ajustes também com vista a esta notícia?

Vai haver com certeza uns ajustes. Se quiser eu faço um ponto de toda esta situação presente e do que é que se perspetiva para o futuro, incluindo a vacinação. Quer que eu faça isso? Eu faço isso num instante.

Sim, por favor. Agradeço. Obrigado.

Em primeiro lugar, eu concordo com esta decisão, como lhe disse, de fim da emergência de saúde pública. Provavelmente, esta decisão já teria sido tomada em abril, não fosse a situação na Índia. Nós tivemos um grande surto com uma nova subvariante ómicron na Índia. E havia uma certa expectativa em relação àquilo que poderia acontecer, nomeadamente se seria uma subvariante mais patogénica ou não. Aparentemente, não. O número de óbitos, quer em Portugal, quer praticamente em todo o planeta, está num nível estável, bastante baixo ou está mesmo em declínio. E o mesmo se passa com as hospitalizações e com as admissões a cuidados intensivos. Nós sabemos que o vírus continua a evoluir, portanto tem sido acompanhado pelos colegas que fazem a genética do vírus, mas, felizmente, estas novas subvariantes que vão surgindo do vírus não são mais patogénicas. Por exemplo, não representam um perigo aparentemente grande para a nossa saúde como humanos. Por um lado, elas não são tão patogénicas como eram em 2020, 2021 e, por outro lado, também, porque a grande maioria das pessoas ou está já vacinada, ou foi já infetada, ou as duas coisas. Nós temos, como lhe digo, agora uma maior previsibilidade em relação ao presente e ao futuro, nomeadamente, o vírus apresenta já algumas características sazonais, no sentido em que portanto, há menor incidência na primavera/verão, embora não seja um padrão sazonal tão vincado como, por exemplo, a gripe. A gripe, quando nós chegamos a esta altura do ano, não há gripe. Ora, isso não se passa com a Covid. Nós continuamos a ter casos de Covid, nomeadamente em Portugal, nós estamos ainda neste momento com 200 e tal pessoas hospitalizadas com o vírus. Não quer dizer que tenham sido hospitalizadas por causa da Covid. Foram hospitalizadas, em muitos casos, por outras razões. Mas depois faz-se um teste e verifica-se que as pessoas estão infetadas. Também constatamos, não só aqui em Portugal, como em praticamente todo o mundo, que faz vigilância de águas de esgotos, que o vírus continua nos esgotos. Isto é, continuamos a ter uma concentração significativa de vírus nas águas residuais, portanto, o vírus continua em circulação, mas aparentemente é menos patogénico e nós estamos mais protegidos. O que é que se perspetiva para o futuro? Provavelmente, a Covid, no futuro, vai ser incorporada na vigilância de todos os vírus respiratórios, como são os outros coronavírus, o sincicial respiratório, a gripe, etc. E provavelmente iremos focar a vigilância mais nos internamentos e nos óbitos, ver que casos é que surgem de internamentos por Covid. Vamos vigiar, com certeza, com mais atenção, certos grupos de maior risco, como é o caso, por exemplo, dos idosos, nos lares, nos RPIS, etc. Vamos continuar a manter a vigilância das águas residuais, dos esgotos, porque aí não temos o problema da subnotificação. Nós, neste momento, as pessoas que testam positivo em casa com um teste rápido, não comunicam que estão infetadas. Mas as águas residuais não enganam. E vamos também, com certeza, continuar a fazer inquéritos serológicos, isto é, tomar amostras da população, colher sangue e ver qual é a percentagem de pessoas que mantêm o nível de anticorpos que lhe confere proteção, nomeadamente nos grupos mais vulneráveis, como digo, os idosos. No que diz respeito à vacinação, eu diria que vai haver um reajuste, um reafinamento, digamos assim dos grupos aos quais a vacinação se irá dirigir e previsivelmente serão as pessoas mais idosas com comorbilidades e também as pessoas que não sendo idosas, têm problemas de imunocomprometimento. Portanto, pessoas que não têm o sistema imunitário ao nível que é expectável para lhes conferir proteção contra a doença grave Covid. Portanto, é isto que se perspetiva para o futuro. É evidente, temos que continuar a vigiar as características das subvariantes que vão aparecendo. O vírus não para de evoluir, mas há uma coisa positiva: ele tem evoluído de uma forma mais previsível, mais de acordo com os outros coronavírus que nós já conhecíamos e que nos causam constipações no inverno sem importância. Portanto, a evolução que o vírus está a ter desde o princípio de 2021, com a Ômicron, é já muito mais previsível do que foi em 2020. E portanto, isso é positivo. Mas evidentemente, não podemos ter a certeza absoluta de que não podemos vir a ter uma surpresa. Esperemos que não, esperemos que as coisas continuem assim. Vamos agora entrar no verão, no hemisfério norte. Em princípio, tudo vai correr bem, mas não tenhamos ilusões, nós não nos vamos ver livres da Covid. Quanto mais não seja, porque os humanos não são o único reservatório da Covid. Este vírus já infectou várias populações de mamíferos não humanos e portanto, isto é característico de infeções das quais nós não nos vamos ver livres. Vamos continuar a ter Covid, como temos gripe, como temos outros vírus respiratórios.

E enquanto epidemiologista e que viveu tão intensamente os tempos da pandemia e até chegou a participar ativamente nas reuniões do Infarmed, na fase mais crítica da pandemia, como é que se sente perante este anúncio de hoje, que é também um feito histórico?

Eu fico satisfeito que a OMS tenha tomado esta decisão. Como lhe digo, provavelmente já poderia ter tomado em abril. Compreendo que não tenha tomado porque havia uma certa incerteza com a situação da Índia. Fico bastante satisfeito que, mais uma vez, na Índia, se tenha confirmado que esta nova variante da Ômicron não representa um perigo significativo. E portanto, encaro com naturalidade que a OMS tenha, um mês mais tarde do que eu pensava, tomado esta decisão e fico satisfeito com isso. E acho que as pessoas devem estar tranquilas. A Covid não desapareceu, mas é essencialmente agora um problema para os profissionais de saúde, para os epidemiologistas e para as pessoas que fazem vigilância. Os nossos institutos de vigilância, o Instituto Ricardo Jorge, a Direção-Geral de Saúde. É um problema agora para os profissionais de saúde, portanto, já não é aquela situação de emergência, de preocupação que nós tivemos em 2020 e que nos pôs a todos de rastos. Nós, os epidemiologistas incluídos.