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É surpreendente que ele tenha dissolvido a Assembleia da República ou, neste caso, a Assembleia Nacional Popular da Guiné-Bissau, porque nada justificaria a situação. E esta justificação do golpe de Estado é um pouco estranha, até porque quem foram os visados foram ministros e secretários de Estados que, em teoria e na prática, pertencem à coligação vencedora, têm a maioria do poder. E quem esteve por trás foram elementos militarizados que rapidamente, segundo aquilo que nós sabemos, foram rapidamente militarizados e, eu não direi abatidos, mas "eliminados" pelo exército da Guiné-Bissau. Portanto, esta situação começa a ser normal, dentro da anormalidade que é os problemas que passam na República da Guiné-Bissau, mas começa a ser preocupante que isto esteja constantemente a acontecer no consulado do senhor presidente Umaro Sissoco Embaló.

E o que é que se segue para a Guiné-Bissau? Estamos a falar de um cenário de confrontos, na semana passada, entre forças de segurança. O que é que se segue e há razão para os cidadãos da Guiné-Bissau temerem pela própria segurança?

Razões há. Há sempre razões quando o país está instável, ainda que a população da Guiné-Bissau já esteja habituada a esta anormalidade da instabilidade institucional, que fica cada vez maior durante o duplo consulado de Umaro Sissoco Embaló. Há uma coisa que eu preciso dizer. Pessoalmente, não conheço o senhor presidente e, portanto, não estou à vontade para falar. Mas não deixa de ser estranho. A partir do momento que um presidente, que supostamente é presidente de toda uma nação, assume claramente que é do Modem G-15, quando devia estar ausente dessa situação. Se fosse no caso de Angola, eu não me surpreenderia, nem me surpreende, porque o presidente é eleito dentro do partido. Agora, no caso da República da Guiné-Bissau, não é essa a situação. É um presidente eleito direta e universalmente. Portanto, não devia estar ligado. Poderia estar, não há nada que impeça ninguém, mas pelo menos deveria ter o pudor de não ser abertamente apoiante e apoiar um partido político que quer à viva força que esteja no poder. Ora, isto vai implicar, de certeza, novas eleições. E aqui a questão que se põe é se o país tem condições para novas eleições. É um país pobre, em que cada vez que há eleições tem que ser agentes externos ou atores externos a apoiar essas eleições e, portanto, é uma instabilidade que provoca problemas na população, ainda que, infelizmente, a população comece a estar habituada. Agora, não sabemos, e face a este anterior, entre aspas, "conflito", que levou à detenção, a soltura e novamente a detenção dos ministros e secretários de Estados pelas autoridades, não sei qual é a situação que vai prevalecer a seguir. Nem sei se Sissoco Embaló começa a ter condições para se assumir como um presidente democrata. Cada vez mais tem tiques de autocrata e não esqueçamos que o senhor Sissoco Embaló faz honra dizer que foi um dos, tomara não me falhe citando aí os seus dizeres, assessores do presidente Kadhafi. E nós sabemos que o presidente Kadhafi, em termos de democracia, acho que pode ficar por aqui.

Mas acha então que o presidente Sissoco Embaló está a perseguir objetivos políticos com esta dissolução?

Isso não tenho a mínima dúvida, desde o início. E ele assume. Ainda só há 15 dias, ele fazia a apologia clara do Modem G-15. Portanto, ele nunca negou isso, nem nunca fez discrição nessa situação. Ele assume claramente objetivos políticos. Por um lado, é compreensível. Poderemos criticar isto num ponto de vista chamado a democracia ocidental. Desculpe, vai me permitir esta imagem talvez um bocadinho forte. Não precisamos sair daqui do retângulo que está no extremo oeste da península pra percebermos que há duas instituições que têm sempre objetivos políticos claros.

Quais são?

A presidência e o governo. Ou vamos dizer que a presidência em Portugal, o presidente não tem também alguns objetivos políticos? Não quero com isto imiscuir na política interna portuguesa, ainda que eu tenha dupla nacionalidade e, portanto, sou angolano e tenho essa obrigação de fazer essas análises. Mas nós percebemos perfeitamente que, ainda que discretamente, o presidente da República Portuguesa também tem a sua simpatia política. E todos os atos que um presidente faça, com intenção ou não intencionais, são sempre vistos como objetivos políticos. E, por vezes, esses atos, mesmo que não intencionais, sublinho, mesmo que não intencionais, por vezes colide. E se a facção, entre aspas, que está oposta a ele, ou seja, o governo, que é oposto, entre aspas, for de uma cor política diferente, qualquer analista político terá tendência para olhar. Eu não diria que o analista político tem a obrigação de saber ler as entrelinhas e saber medir as coisas, mas a Vox Populi tem uma tendência para dizer que aquele ato é contrário ao poder institucional governativo. Portanto, veem como um ato político. Eu digo isto porque eu falo com pessoas e muita gente vê isso dessa forma. Por isso é que eu trouxe esta imagem ou esta analogia, este exemplo pra compreender o que se passa na Guiné-Bissau. E depois, a Guiné-Bissau tem outros problemas. É um país lusófono rodeado por países francófonos, com interesses antagônicos: Senegal e República da Guiné. O Senegal, neste momento, tem questões políticas graves, internas. A República da Guiné está sob o efeito do governo advindo de um golpe de Estado militar. Tudo isso, e com a problemática que a presidência da Guiné tem de ver sempre um adversário quase como um inimigo, não me surpreende que o próprio presidente Umaro Sissoco Embaló, por vezes, e não poucas vezes, sinta que o lugar já está em prumo. E, portanto, a situação muitas vezes é uma fuga pra frente. E como ele tem, ou presume-se que tenha, pelo menos parece, apoio claro e inequívoco do exército, é muito natural que, por vezes, as situações fiquem como esta situação. E depois dá, o que torna-se, no caso presente, surpreendente, o que não é justificável, a dissolução da Assembleia Nacional Popular