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Conosco em estúdio está o jornalista de economia do Observador, Edgar Caetano. Boa tarde, Edgar.
Olá.
Edgar, estiveste a acompanhar esta conferência de imprensa, fica claro que podem estar na calha novas subidas das taxas nos próximos tempos.
Ela não se comprometeu, como já se esperava. Todos nos recordamos que em 2022, 2023, havia momentos em que o BCE fazia a sua reunião, o seu comunicado, e logo aí dizia que provavelmente na reunião seguinte ia haver mais subidas. Não estamos nessa fase. A ideia é que as decisões são tomadas reunião a reunião, conforme os dados que vão saindo, mas há uma frase no comunicado que foi lido que é bastante importante, que é quando se diz que a inflação deverá continuar muito acima do objetivo por um período alargado. Isso, embora não comprometa o BCE, deixa claramente a porta aberta a que possam ocorrer mais subidas. E a verdade é que os analistas continuam um pouco divididos, mas os mercados de futuros de taxas de juros estão neste momento a apontar para que possa haver mais três subidas até outubro do próximo ano. Ou seja, a perspetiva é que daqui a cerca de um ano a taxa de juro pode estar em 3,25. Aliás, neste momento, da última vez que vi, há uma probabilidade superior a 50% de que os juros possam subir já na próxima reunião, no final de outubro. Mas atenção, são previsões que os mercados fazem hoje ou fazem neste momento até, muito facilmente podem não fazer.
E de facto a Christine Lagarde fez aquela distinção, uma coisa são os mercados, outra coisa é aquilo que nós decidimos. Disse essa frase na conferência de imprensa.
O que não é bem o mesmo do que dizer que os mercados estão errados.
Exatamente. Edgar, sabemos que o preço do petróleo tem estado a subir estes dias. Hoje mesmo já ultrapassou os $105. Pode ser este mais um fator a pressionar os preços e, dessa forma, também uma subida de juros?
Sem dúvida, o problema começa aí. São precisamente os preços da energia que estão a fazer subir a inflação e obrigar a estas subidas de juros. E quanto mais subirem os preços da energia, e, por outro lado, quanto mais tempo os preços da energia continuarem nestes níveis elevados, maior é o risco de que a inflação mais elevada se enraíze na economia e nas expectativas dos agentes económicos. Ou seja, é curioso ver que o BCE toma esta decisão, que já era esperada. Os comentários que fez, que também são muito importantes, também foram em linha com o esperado, mas mesmo assim estamos a ver os mercados financeiros a prever mais subidas de juros. E vemos, por exemplo, no dia em que o petróleo supera os $105 por barril, como disseste, temos os investidores a admitirem que a Euribor pode subir mais do que o previsto. Nos últimos dias, quando fazíamos a antecipação desta reunião, estávamos a ver que os mercados antecipavam que a Euribor a 12 meses podia chegar aos 3,4%, mais ou menos, ao longo do próximo ano, e agora já se está a prever 3,6. Portanto, é uma pequena diferença.
Quer dizer, é uma diferença que faz diferença.
Sem dúvida.
Outro ponto citado, Edgar, nesta conferência de imprensa, foi o problema que se tem falado de alguma forma nos últimos dias também dos juros da dívida pública, que estão a subir em vários países da Europa. Este é um tema que preocupa Lagarde? Ficaste com alguma indicação em relação a isso? Percebeste alguma coisa em relação a isso?
É certo que preocupa, certamente preocupará, embora ela tenha dito que este não é um problema que seja exclusivo da União Europeia ou da Europa. Como nós recordamos, na crise da dívida pública na década passada, era uma questão europeia, até de alguns países europeus. Agora não é isso. Sabemos que a instabilidade existe na dívida pública, desde logo dos Estados Unidos, onde a taxa a 10 anos está perto de chegar aos 5%, que é um valor ao qual nós já não estamos muito habituados. O BCE, no entanto, ela referiu isso, tem um mecanismo disponível a entrar em funcionamento que é o TPI, que no fundo é um mecanismo que permite que o BCE volte a intervir nos mercados de dívida pra comprar títulos de dívida dos países, caso seja necessário. Ou seja, se considerar que pra uma razão que os preços das obrigações dos países e as taxas de juro implícitas estão em níveis indesejáveis, o BCE pode a qualquer momento voltar a comprar dívida pública, que já fez isso. Já não faz há muito tempo, mas pode voltar a acontecer. Mas na Europa sabemos que existe este movimento de descida do preço das obrigações e subida dos juros. Sabemos que uma parte da explicação está relacionada com os preços da energia e do petróleo. Outra parte da explicação também está relacionada com a incerteza política que se vive na Europa, com vários atos eleitorais previstos para os próximos meses, e negociações orçamentais que também não se afiguram fáceis em muitos países, nomeadamente no país de origem da Christine Lagarde, que é a França, como sabemos.