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Diana Celor, muito obrigado pela disponibilidade. O presidente da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos anunciou o apoio a um inquérito para a destituição de Joe Biden. Fala numa cultura de corrupção à volta da família do presidente. O que se pode esperar desta investigação?
Muito rapidamente, a resposta curta é: da investigação, não sabemos. Da transição para o impeachment, também não sabemos. De um impeachment, nada. Ou seja, existe efetivamente, e isso é uma questão que está há muito tempo a ser discutida nos Estados Unidos da América, um eventual envolvimento de Hunter Biden, filho de Joe Biden, em questões passíveis de corrupção relativamente à Ucrânia, e os republicanos têm feito uma grande exploração disso, até para criar um contraponto à situação de Donald Trump. Não há provas concretas, há suspeitas fortes e, portanto, tendo em conta que um julgamento do Congresso, neste caso da Câmara dos Representantes, é um julgamento político, aquilo que este inquérito pretende apurar é se Joe Biden tem condições para se manter enquanto presidente dos Estados Unidos da América, tendo em conta o eventual envolvimento do seu filho Hunter Biden em escândalos de corrupção. A Câmara há de deliberar, são precisos apenas 50% dos representantes votarem positivamente na deliberação e, portanto, tendo em conta que a Câmara dos Representantes é dominada pelos republicanos, há uma possibilidade forte que se dê início a um processo de impeachment. Ou seja, há um indício forte de que a Câmara pode deliberar que não há condições para Biden se manter no exercício da presidência dos Estados Unidos, tendo em conta o envolvimento da sua família em escândalos de corrupção. Depois, o impeachment passa ao Senado, e o Senado mais uma vez delibera do ponto de vista político se há condições para a manutenção, e tendo em conta que, no caso do Senado, são precisos dois terços de votos para a destituição e que o Senado é democrata, portanto, 50 dos 100 senadores são democratas, mais um, tendo em conta que a vice-presidente tem voto de qualificação. Portanto, teria que ser o conjunto dos republicanos a votarem mais metade dos democratas, um pouquinho menos da metade, para efetivamente se verificar o impeachment. Portanto, na verdade, isto é, acima de tudo, um movimento político que pretende enfraquecer Joe Biden na véspera das eleições. Na véspera, enfim, as eleições são dentro de um ano e dois meses, mas estamos a entrar em pleno processo eleitoral, nomeadamente das primárias republicanas e, portanto, parece-me que não passa disso. Se houvesse um verdadeiro incômodo na Câmara, este processo já tinha começado há bastante tempo, tendo em conta que as suspeitas sobre Hunter Biden são anteriores à eleição de Joe Biden. Portanto, o que me parece é que temos aqui duas questões fundamentais. A primeira é essa, é que estamos perante um processo político que se pode julgar, ou que me parece, do meu ponto de vista, é essencialmente um processo que pretende, no fundo, trazer para a praça pública, para a opinião pública, para as discussões, a posição de Hunter Biden e a posição de Joe Biden na sociedade e na política norte-americana, no fundo, desacreditá-la. Em segundo lugar, e esta talvez seja a questão mais preocupante de todas, que eu aliás tenho vindo a referir e referi várias vezes no que se refere aos impeachments que foram movidos a Donald Trump, parece-me que o impeachment, que é uma figura que foi pensada pelos pais fundadores para ser uma figura absolutamente excepcional no panorama americano, para travar um presidente que efetivamente estivesse a causar dano à nação, que era visto como uma garantia de uma coisa que nunca deveria acontecer e só se usaria se isso acontecesse, transformou-se num objeto político completamente banalizado, o que destitui a América de uma instituição, que é o impeachment, que é muito importante na sua democracia. Portanto, independentemente do que acontecer, que não há de ser muito diferente daquilo que eu descrevi, parece-me que quem perde é a América na sua totalidade, porque mais uma vez, as forças políticas, agora as republicanas, anteriormente as democratas, usaram os impeachments como uma arma política, quando os impeachments devem ser uma figura institucional de ultimíssimo recurso. E ninguém vai ganhar com esta nova política dos norte-americanos, dos republicanos.
E em relação a essa banalização desta ferramenta do impeachment, o que se pode esperar para os próximos anos, para próximas presidências, em relação ao uso deste objeto? É esperado que agora, de cada vez que estejamos perto de uma eleição, voltem a aparecer alegações de impeachment?
Não é necessário que seja perto de uma eleição. Donald Trump teve dois impeachments movidos em momentos completamente diferentes. O que acaba por acontecer com este impeachment é precisamente aquilo que eu estava a descrever: é uma tentativa que está profundamente relacionada com a grande polarização pela qual a América está a passar, e é a tentativa de um lado de enfraquecer politicamente e de denegrir a imagem do outro lado. Eu acho que independentemente de quem venha a ser eleito ou do que possa acontecer nos Estados Unidos da América, no fundo, a caixa de Pandora já se abriu. Agora, muito facilmente se usará a figura do impeachment com fins políticos e sem consequências políticas, que é isso que é grave. Porque na realidade, houve muito poucos impeachments na história dos Estados Unidos. Houve um do Andrew Jackson, que foi o sexto presidente dos Estados Unidos. Houve o do Richard Nixon, que acabou por não se confirmar, porque Nixon demitiu-se antes do impeachment se concretizar e ia, de fato, passar no Senado. Foi o de Bill Clinton, que eu diria que já de alguma maneira pertence a esta era de impeachments políticos. E foram dois do Donald Trump e agora do Joe Biden. Temos que chegar aos anos 2000 para termos tantos impeachments como em dois séculos de história americana. Quando nós soubemos, à partida, em qualquer um dos impeachments, que não iam ter quaisquer consequências políticas. Pode efetivamente voltar a acontecer este uso desta figura perfeitamente excepcional e de salvaguarda da democracia americana como um instrumento de arremesso político para enfraquecer uma candidatura, um presidente, um conjunto de ideias, aquilo que lhes quisermos chamar, que no fundo é tudo isso. Acho que é lamentável e acho que é prejudicial à política americana.
Diana Soler, muito obrigado