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125 ignições só durante a última noite e madrugada, é um dos números que marcam esta terça-feira, no balanço feito ao início da tarde pela Proteção Civil, dos incêndios em curso no norte e centro do país. Esse número é o mote para a conversa com o Filipe Duarte Santos, geofísico, professor catedrático da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, especialista em alterações climáticas. Muito bem-vindo à Rádio Observador. Tem dados concretos sobre a discrepância entre Portugal e os restantes países da União Europeia no que toca à área ardida e também estimativas sobre a mão humana nos fogos. Gostaria que começasse por partilhá-los conosco.

Sim, aquilo que se sabe com bastante segurança é que o número de ignições com origem humana em Portugal é exageradamente, desproporcionalmente elevado relativamente a outros países. Portanto, aquilo que está estimado é que mais de 90% das ignições em Portugal são de origem humana. Portugal tem, isto pode não ser muito confortável dizer, mais ignições do que Espanha, que é cinco vezes maior em área e tem uma população quatro vezes mais numerosa. Isto é um aspeto. O outro aspecto tem a ver com a área que é anualmente ardida. Estas estimativas da área ardida em incêndios florestais são feitos pelo sistema Copérnico da União Europeia e estão acessíveis num site que se chama European Forest Fire Information System. EFFIS. E nesse site pode-se ver que Portugal é, de longe, desde 2006 a 2023, o país da União Europeia em que a média da porcentagem da área que arde anualmente, relativamente à área total do país, é mais elevada. Eu digo os números porque penso que é importante.

Podem ajudar-nos a compreender, sim.

Nas circunstâncias em que estamos. O valor médio da área ardida por ano, em Portugal continental, de 2006 a 2023, foi de 93.735,61 hectares, de acordo com estas estimativas da União Europeia, que como digo, estão acessíveis no site EFFIS do sistema Copérnico, de satélites, que tem estas informações. O país que está a seguir a Portugal tem uma área ardida média, que em porcentagem da área total, é bastante menor que no nosso caso, e tem uma área ardida por ano média de 50.783 hectares.

E esse país é a Grécia, não é?

É a Grécia.

Ou seja, por mais investimento que haja em meios humanos e técnicos, o país, tendo em conta estes dados e essa porcentagem de ignições e da questão da área ardida, acaba por enfrentar aqui um problema de cidadania, é isso?

Sim, repare, se há 125 ignições noturnas, que obviamente não têm causas naturais, mas têm causas humanas. Estas 125 ignições, num período que é particularmente favorável a que os incêndios se desenvolvam, se propaguem e atinjam grandes proporções, é uma coisa que é insustentável. Fala-se tanto de sustentabilidade. Isto é insustentável, porque tanto podem ser 125 como podem ser 330, se não se fizer nada para que isso não aconteça. Ora, por mais meios que existam para combater os incêndios florestais, torna-se impossível. Não há meios suficientes. Nós lançamos milhões de euros para fogueiras que não conseguimos extinguir, porque elas aparecem de noite sem se saber bem por quê, sem que haja responsabilidade nisso.

E o que se pode fazer para mudar essa realidade?

Eu acho que em Portugal as ciências sociais estão muito desenvolvidas, a sociologia está muito desenvolvida, e penso que era importante saber por que razão é que essas presumíveis pessoas que são responsáveis por essas ignições que ocorrem à noite, e também por essa porcentagem muito elevada, que é uma coisa oficial, quer dizer, que mais de 90% são ignições de causa humana, por que provocam ignições, por que provocam fogos? Será que quando as pessoas estão sujeitas a um processo judicial devido a essas ações Será que essas pessoas não voltam a provocar ignições? Será que o sistema judicial tem algum fator de dissuasão relativamente a este problema, ou não? E por que razões é que tem ou não tem esse poder de dissuasão? Tudo isto penso que são questões do foro social, do foro psicológico, se quiser, que é necessário analisar, porque somos realmente um caso único na União Europeia. Os outros aspectos são muito importantes, as questões da prevenção. E eu aproveito aqui a oportunidade para saudar o esforço que a AGIF tem feito, a Agência dos Fogos Florestais, com a direção do engenheiro Tiago Oliveira, para dar mais importância às questões da prevenção. Mas repare, não é possível haver pessoas em todas as florestas à noite, a prevenir que haja ignições. Isso não é, de facto, possível. Está para além das capacidades de uma agência de fogos florestais. Este é um problema que é complementar dos outros. Mas já agora, se me permite, eu diria quais são, na minha opinião, as principais razões de termos muitos fogos florestais e de termos a área em porcentagem, a área ardida por ano, relativamente à área do país, maior. A área ardida do país, repito, desde 2006 a 2023, é 1%, 1,02%, em média.

E quais são essas razões?

Como? Quais são as razões?

Quais são essas razões?

A primeira razão tem a ver que existe uma elevada porcentagem da área florestal que não é gerida ou que tem uma gestão que não é eficiente. Porque temos o minifúndio, sobretudo no centro e no norte do país, há certamente propriedades florestais que estão abandonadas. Nem sequer se sabe bem quem são os donos, são muito pequenas, não têm valor, não há mercado, não se negoceia, não se vendem essas propriedades. Não têm valor. Está-se a fazer um esforço muito grande e meritório no sentido de termos um cadastro, mesmo que seja simplificado, mas enfim, um cadastro que inclua tudo isso. Mas as propriedades são muito divididas, as heranças são indivisas, muitas vezes não se sabe onde é que estão os proprietários, portanto, é tudo muito difícil. Mas, em resumo, a razão é que há uma elevada porcentagem de área florestal em Portugal que não é devidamente gerida, não é gerida de uma forma sustentável. Esta é a primeira razão. O segundo é que a quantidade e a extensão das cargas combustíveis, ou seja, da biomassa que se acumula nos pinhais e nos eucaliptais, enfim, em toda a floresta, durante o ano, sobretudo num ano em que chova com alguma abundância no inverno, na primavera, no outono, etc. Depois quando chega o verão, quando chega dias como estes, que são dias muito quentes, já há muito pouco, já praticamente não há umidade no solo. Não chove há mais de dois meses, praticamente, em muitas regiões do país, até há mais do que isso. Temos essa massa, que é uma carga combustível, essa biomassa que é uma carga combustível. E portanto, o que se pode fazer? Pode-se retirar essa carga combustível das florestas, mas para isso é preciso trabalho e é preciso dinheiro para fazer isso. E muitos proprietários não têm nem uma coisa nem outra, porque efetivamente não estão a gerir essas propriedades.

E tudo isto a juntar também aos fenômenos que são cada vez mais extremos. As alterações climáticas aqui também são uma dor de cabeça. Não temos muito tempo, queria só mesmo que concluísse o seu raciocínio.

Portanto, o que é importante salientar também é que há florestas que são geridas de uma forma sustentável em Portugal e são rentáveis, e são lutas, e têm alguma biodiversidade. A terceira razão é aquela que já falei, portanto vou ser muito breve, é o elevado número de ignições indesejadas. Por causas humanas e, sobretudo, essas ignições têm lugar em condições de incêndio que são favoráveis aos incêndios, são moderadas e graves. Algumas dessas ignições noturnas podem conduzir a incêndios gigantescos, se não forem devidamente combatidas, mas quanto mais incêndios houver, mais difícil é combater cada um deles. E finalmente, as alterações climáticas não provocam os incêndios florestais, porque não provocam ignições. Mas as alterações climáticas estão a gerar períodos crescentes de tempo seco e quente. Portanto, temperaturas mais elevadas, mais secas, menor precipitação, que aumentam a gravidade potencial dos incêndios, caso haja ignições e esses incêndios não sejam combatidos nos primeiros momentos, nas primeiras horas. E portanto, são essas quatro razões.

É uma conjugação de fatores para essa tempestade perfeita, que pode fazer com que deflagrem mais incêndios. E aqui um diagnóstico e vários alertas deixados por si. Felipe Duarte Santos, geofísico, professor catedrático da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, especialista em alterações climáticas. Muito obrigada por ter sido colunista do dia.

Muito boa tarde.