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Realmente, a questão agora é perceber se há aqui mais uma dinâmica de escalada ou não. Isto corresponde a uma escalada e o alargamento do conflito, ou seja, temos os Estados Unidos a envolverem-se não apenas na defesa de Israel, mas envolverem-se militarmente de forma ofensiva, atacando o programa nuclear, parece ser esse o grande alvo. Aquilo que sabemos é que Donald Trump irá falar daqui a umas horas. Para já declarou que o ataque foi bem-sucedido, portanto isso parece indicar que o objetivo era este objetivo limitado de completar as ações de Israel com uma ação muito mais eficaz, que não seria possível por parte de Israel contra os alvos identificados ligados ao programa nuclear. Agora é preciso saber se o Irão vai retaliar, como é que vai retaliar. Aí tem vários meios, milícias armadas por todo o Médio Oriente mesmo enfraquecidas, mas desde o Iraque ao Hezbollah no Líbano, os Houthis no Iêmen. Portanto podem atacar alvos americanos, bases americanas. Sabemos que temos oito grandes bases, as mais importantes com mais tropas, around de 40 mil soldados, 30 mil estão em três bases basicamente no Kuwait, no Bahrain e no Qatar, que estão a poucas centenas de quilómetros do Irão. Podem atacar diretamente alvos americanos, podem atacar indiretamente através das milícias, podem diretamente sair com mísseis, indiretamente com milícias, podem atacar a navegação, fechar, por exemplo, o Estreito Ormuz, portanto isso bloquearia a saída de todo o petróleo e gás do Golfo. Isso tem a desvantagem também de afetar países como a China, mas também bloquear novamente a navegação no Estreito de Aden com os Houthis, embora também haja riscos e eventualmente ainda há sempre esta possibilidade de ataques terroristas. Sabemos que no passado, através destes grupos armados também ataques terroristas visando interesses ligados a Israel, por exemplo, o atentado na Argentina há umas décadas atrás. Tudo isso são possibilidades. Se isso acontecer, voltaremos a ter a questão: será que os Estados Unidos vão responder e vão responder alargando, intensificando a sua ação militar? E também a questão das negociações. À partida, a posição de Donald Trump parece ser se nós demonstrarmos força, é mais provável que o Irão ceda e aceite negociar numa posição de fraqueza. A posição oficial iraniana tem sido que não vão fazer isso, não aceitamos ceder, não aceitamos sequer negociar de uma posição de fraqueza enquanto não houver um cessar-fogo. Mas se a situação piorar, se o próprio regime se sentir em risco, pode ser que os iranianos venham a rever isso. Mas para já a posição oficial iraniana é havendo ataques não só de Israel como ainda por cima dos Estados Unidos, à partida, se eles mantiverem a mesma posição, a possibilidade de negociações de momento parece afastada, mas há sempre canais paralelos. Ainda agora tivemos conversas entre os ministros europeus e o próprio Irão, portanto veremos se isso acaba também por acontecer. Aqui a única conclusão certa é que o grau de incerteza, de insegurança, de perigo, de risco no Médio Oriente e nas regiões envolventes aumentou como resultado deste ataque, deste envolvimento americano.

Bruno, estes três bombardeamentos norte-americanos foram a três centrais nucleares iranianas. Podemos dizer que isto é uma operação estratégica e fixada apenas em pontos estratégicos ou podemos dizer que isto é um envolvimento a 100% dos Estados Unidos nesta guerra Irão e Israel?

Essa é realmente a grande questão. Eu diria, para já, os sinais parecem ser que é um envolvimento mais limitado. Estes três sítios, Natanz, Fordow e Isfahan são os principais, mas sobretudo Fordow, que é aquele mais difícil, que está no interior de uma montanha, etc. São os grandes alvos ligados a este programa de enriquecimento de urânio que permitiria ter material depois para armas atômicas. Aí sabemos que só os Estados Unidos têm aviões que mais ninguém tem, estes B-2, que são aviões altamente avançados, muito difíceis de detetar também, bombardeiros estratégicos também de muito longo alcance, que a partir daquela base no Oceano Índico, Diego Garcia, conseguem atacar o Irão com a arma convencional mais poderosa que existe, este GBU-57, tudo indica que terá sido o armamento que foi utilizado, provavelmente várias destas bombas em várias vagas para realmente garantir a destruição desses sítios. Eu diria, tendo em conta a postura de Donald Trump, que se apresentou como candidato à paz, tendo em conta o grau de oposição aqui a um envolvimento direto dos Estados Unidos no conflito no Médio Oriente, nas últimas sondagens que temos 16% apenas apoiavam um ataque ao Irão, 60% opunham-se. Parece-me que também tendo em conta os instintos políticos de Donald Trump, que isto corresponde muito à vontade dele ter aqui algum protagonismo, poder declarar uma vitória, mas reduzindo os custos, tendo em conta que Israel já tinha feito ataques muito significativos contra os sistemas antiaéreos, etc. Portanto, os riscos eram relativamente reduzidos. Nessa lógica, o que seria lógico seria Donald Trump tentar evitar um envolvimento maior. Ele afastou, aliás, liminarmente para já também a questão do envolvimento terrestre com tropas. Mas mesmo em termos aéreos, eu diria que a tendência, a inclinação dele parece ser no sentido de limitar as coisas, mas como este ataque demonstrou que é difícil prever exatamente em que sentido é que Donald Trump irá, ele próprio aliás gabou publicamente disso, "Ninguém sabe exatamente o que é que eu vou fazer".

E disse há cerca de duas horas que dava prioridade a uma negociação diplomática com o Irão e entretanto depois acaba por acontecer este bombardeamento.

Sim, e tudo isso também torna difícil haver aqui negociações, ou seja, alimenta algo que o regime iraniano já é muito pulpenso, que é uma certa paranoia, uma enorme desconfiança em relação aos Estados Unidos, que é oficialmente apelidado de Grande Satã, sendo Israel o Pequeno Satã. A confiança já não era abundante. De facto, com declarações e ações muito contraditórias, percebe-se que o regime iraniano possa ter aqui alguma dificuldade em perceber se vale a pena tentar chegar a algum compromisso, arriscar isso também numa região onde mostrar fraqueza é uma coisa relativamente arriscada, quer em termos de política interna, quer em termos de política externa.