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Começava por lhe perguntar quais são as capacidades do Irão para contra-atacar Israel.
O Irão é uma potência regional e tem mostrado por aquilo que tem sido a guerra da Ucrânia, que tem capacidade de produção e até de exportação do seu material. Acontece que há, neste caso, uma particularidade que nós não nos podemos esquecer: é que Irão e Israel não têm fronteira terrestre comum. Esta é uma guerra que tem que ser desenvolvida e conduzida exclusivamente através de vectores aéreos entre os dois territórios. Há cerca de 1700 a 2000 km entre o Irão e Israel. Isto coloca em relação àquilo que é o arsenal do Irão, também alguns problemas. O primeiro problema tem a ver com os drones. Os drones são muito lentos e portanto têm muito tempo para poder ser abatidos neste trajeto de 2000 km entre o Irão e Israel. Até porque normalmente a Jordânia, que tem o seu território interposto neste percurso, tem normalmente considerado que os drones iranianos passam sem autorização o seu espaço aéreo e tem vindo a abater também os drones. A ameaça dos drones é uma ameaça bastante séria na Ucrânia em função das distâncias, mas à medida que as distâncias são muito grandes, como é aqui o caso, há muito tempo de aviso para intercetar, abater este conjunto de drones. Os drones, sim, fazem parte do arsenal do Irão, mas o tempo de execução é muito longo e permite a sua interceção e destruição em tempo. O mesmo já não acontece com os mísseis balísticos. O Irão tem muitos mísseis balísticos. Nós não temos uma contabilidade desses mísseis balísticos, mas sabemos que esses mísseis balísticos têm alcance suficiente para bater qualquer ponto do território israelita. Alguns deles têm ogivas convencionais de 700 quilos, que é uma quantidade impressionante de matéria explosiva, e podem atingir alvos a 2000 km. Isto significa que o Irão tem capacidade, através destes mísseis, os mísseis Sejjil, de alcançar qualquer ponto do território israelita. Ele tem também alguns mais sofisticados, o Khorramshahr, que pode meter uma carga convencional da ordem dos 1800 quilos. Isto é uma quantidade impressionante de matéria explosiva. Simplesmente, nunca existe uma coincidência entre os números que o Irão publica e que serve também, certamente, aquilo que é o seu público interno. São sempre às centenas que são lançados. Simplesmente, ao fim de 2000 km, os que chegam a Israel são consideravelmente menos. Já começaram a chegar os mísseis balísticos a Israel. Israel tem tempo, por causa desta enorme distância entre os dois países, para avisar a sua população e Israel tem preparados abrigos antimíssil e a população que é avisada em tempo, tem tempo de se abrigar, o que significa que não obstante possa haver uma capacidade de destruição daqueles mísseis que possam saltar todos os crivos da defesa antiaérea israelita, a capacidade de eles produzirem baixas entre os israelitas é relativamente baixa porque Israel tem um sistema de proteção civil extraordinariamente avançado. Agora temos que ver qual é a percentagem destes mísseis balísticos que consegue ultrapassar as várias camadas do escudo de defesa antiaéreo de Israel e verificar o tipo de alvos e o tipo de destruição que causa.
Aparentemente, a cúpula de ferro israelita não é então invencível.
Não, e isto depende também naturalmente da quantidade de mísseis que são enviados simultaneamente. Isto é, a cúpula de ferro pode proteger-se contra 400 mísseis, se tiver tempo. Se os 400 mísseis chegarem simultaneamente, alguns irão certamente conseguir passar. A questão não está aqui na quantidade, mas a quantidade versus o tempo que há para fazer essa interceção em tempo. E é esta a questão, certamente, que também terá sido estudada pelo Irão, no sentido de tornar mais difícil a eficácia do sistema de proteção israelita. De qualquer maneira, o sistema de proteção israelita não é a primeira vez que é chamado a responder aos ataques balísticos do Irão. Também há experiência acumulada por parte de Israel relativamente a este tipo de ataques.
Há já registo de duas vagas de ataques, agora na última hora, com mísseis balísticos. Pergunto-lhe se antecipa novas vagas de ataques durante esta noite.
É muito difícil dizer onde é que isto vai parar. Eu recordo que daquilo que foi o último ataque balístico do Irão sobre Israel, as duas partes consideraram que estavam cumpridas as suas missões. Há, por parte do Irão, sobretudo uma questão que me parece que é relevante aqui. É que o Irão quer afirmar-se como uma potência regional e de alguma maneira aquilo que foi a intervenção de Israel constituiu uma humilhação do Irão perante os seus outros parceiros regionais, mas sobretudo perante a sua população. E portanto, muitos destes discursos do Irão estão muito virados também para uma certa fragilidade. O regime dos Aiatolas já foi bastante mais popular no Irão e as últimas escolhas políticas do Irão mostram uma tendência para avançar para escolhas bastante mais moderadas. Portanto, o próprio regime do Irão sente aqui necessidade de se justificar como potência regional, por um lado, mas por outro lado, também como a capacidade de não ser humilhado perante a sua própria população. Enfim, o sistema é complexo e eu terminaria com isto, mais complexo será se resolver atacar também as bases americanas na região, no Iraque, no Qatar, no Bahrein, etc. Aí a situação torna-se bastante mais complicada.
O Iémen também já enviou hoje mísseis para Israel. Pode haver uma ação concertada entre o Irão e os proxy para atacar Telavive?
Os últimos têm também este problema da distância, que a distância em relação a Israel é muito grande e, portanto, o tempo de aviso é muito grande. E situam-se no mesmo patamar de relevância que o Irão, porque os mísseis balísticos não foram desenvolvidos pelo Iémen, foram entregues provavelmente pela Guarda Revolucionária Iraniana. Estaremos a falar de tecnologias bastante equivalentes e disparadas à tal distância de 2000 km, o que significa que há tempo também para Israel prever, monitorizar a chegada destes e eventualmente conseguir interceptar pelo menos alguns deles.
Além de atacar estruturas nucleares, Israel diz que já atacou também lançadores de mísseis iranianos. Este plano israelita pode não passar só por neutralizar a forma nuclear do Irão?
Ninguém nos garante que o ataque de Israel ao Irão já terminou, isto é, que todos os alvos foram atingidos, porque o que se passa normalmente neste tipo de operações é que é preciso fazer um julgamento sobre se os alvos se encontram com o grau de destruição pretendida ou se, pelo contrário, têm que ser batidos outra vez. E nós não temos consciência de se essa avaliação ainda está a ser feita, se vai continuar a ser feita, quanto tempo é que demora a fazer essa avaliação, porque suponha que alguns dos alvos não ficaram com o grau de destruição pretendida. Uma vez que as defesas antiaéreas iranianas estão agora bastante fragilizadas, Israel pode entender que agora é o bom momento para retomar o ataque a alguns dos alvos que não tenham tido o grau de destruição suficiente para se tornarem inoperacionais. Nós não sabemos se o Irão vai continuar ou não vai continuar com estas vagas. Também não sabemos se Israel entende que já atingiu os objetivos de destruição que pretendia atingir.
Recebemos agora também a indicação de que os Estados Unidos estão a apoiar Israel a interceptar mísseis. Admite que os Estados Unidos possam ter um outro papel e participem nos ataques ao Irão?
Nos ataques ao Irão, não me parece que seja provável enquanto o Irão se abstiver de atacar as bases americanas. É por isso que eu dizia há bocadinho que é preciso ver como é que evolui a situação do Irão em relação às forças americanas. Porque se o Irão entender que lhe compete, que deve, que para justificar tudo isto, era interessante atacar as bases militares americanas na região, Iraque, Qatar, Bahrein, etc, então o problema muda de figura e os Estados Unidos certamente sentir-se-ão eles próprios também atacados e com a necessidade de dar uma resposta a este nível. Isso é que pode aqui também vir a complicar um bocadinho a desescalada, que é aquilo que de alguma maneira o sistema internacional e a diplomacia global procura neste momento fazer. É que ambas as partes considerem que os respectivos objetivos estão atingidos e que devem cessar as hostilidades.