Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
O país está a preparar-se para aliviar as medidas de isolamento e há uma recomendação do governo para as universidades abrirem no dia 4 de maio. José Fragata é vice-reitor da Universidade Nova de Lisboa. Professor, muito boa tarde.
Boa tarde.
A Universidade Nova está preparada para retomar as aulas daqui a sensivelmente duas semanas?
Muito obrigado pela pergunta. Quando se fala em abrir, é óbvio que nós estamos a lidar com algo que não tem precedente. O papel das universidades é, obviamente, intervir na sociedade através do conhecimento e o modo como pode intervir é ensinando, investigando e divulgando ciência. A universidade não tem estado fechada este período. Falo da Nova, mas penso que poderei falar da maior parte delas. A universidade tem mantido alguns serviços, adaptou-se de uma forma hibernante àquele que era a necessidade de distanciamento social e de contenção. Ninguém está mais desejando do que nós de abrir, mas é preciso deixar aqui uma palavra de cautela, porque há muitos serviços nas universidades, que são serviços de laboratórios, de expediente, secretaria, de investigação. Muitos serviços que reduziram a atividade, mas continuaram a trabalhar, às vezes em teletrabalho, outras vezes mesmo localmente. Mas no que respeita a aulas presenciais, é disso que está a falar, eu acho que nós aí vamos ter que ser mais cautelosos. É óbvio que o governo quer que a partir de 4 de maio as universidades abram, e muito bem, como toda a economia vai ter que abrir. Vinha há bocadinho do meu hospital, onde obviamente estamos a relançar a atividade de uma forma muito séria, mas nós não podemos nunca relançar essa atividade. Isto é um lugar comum, mas acho que vale a pena ser realçado. Nunca podemos comprometer aquilo que já atingimos.
Mas acha que o governo está a comprometer aquilo que já se atingiu?
Não, de maneira nenhuma.
Como é que têm sido essas negociações? Porque ouvimos aqui algumas críticas do sindicato também. Como é que têm sido essas negociações entre as universidades e o Ministério do Ensino Superior?
Quer que lhe diga, eu acho que tem havido uma grande sintonia entre o ministério e as universidades. Eu acho que Portugal tem se portado exemplarmente nesta crise. Ouça, faço uma pequena crítica, as máscaras já deviam estar cá há muito tempo. Nós vamos ter que aprender uma nova normalidade, que é a normalidade que vamos ter nos próximos meses. E por isso, a abertura da universidade, que o governo está a pedir, e muito bem, porque nós temos que ter um processo de retoma, porque senão morremos no Covid, mas morremos estiolando, sem atividade nenhuma. O que eu estava a dizer é que nós temos que abrir no contexto de segurança. Ou eu vou ser mais preciso. Todas as aulas e atividades que puderem ser feitas por métodos à distância, devem ser feitas por métodos à distância. Isto é o que se passa em Portugal, como aliás é o que se passa na esmagadora maioria das universidades europeias. Alguns trabalhos de laboratório, que não envolvam grandes aglomerados de pessoas, vão ter que começar a ser feitos presencialmente, mas sendo que funcionários e pessoal docente têm que usar máscara, porque a máscara é verdadeiramente um mecanismo de dupla proteção. Eu dou-lhe o exemplo, pessoalmente, no hospital, uso máscara e viseira se estou a ver doentes. Nós vamos ter que nos habituar a viver de uma forma diferente. Absolutamente abrir, esse é o papel da universidade. Acho muito bem que a partir de 4 de maio nós intensifiquemos esse esforço, mas dentro das regras de segurança, e estas são muito importantes, volto a repetir: contenção social, lavar as mãos e usar máscara. Portanto, é uma abertura, sim, mas uma abertura que tenha sempre muito bem enquadrada, porque repare, nós vamos provavelmente ter uma segunda onda, mas nós não queríamos sair desta posição de planalto em que estamos. Temos 215 doentes hoje internados em cuidados intensivos. Esse é um indicador muito sensível, porque ninguém vai para lá se não precisar. E de facto, é muito confortável, passe a expressão, ver que estes números se mantêm desta maneira e ninguém quer uma retoma, e certamente o governo é o primeiro, que se estrague isto. Portanto, é um compromisso difícil, é um compromisso ético e é um compromisso técnico que tem que ser muito customizado. As universidades não têm as disciplinas a ser todas iguais, nem as escolas são todas iguais. Para a área das ciências, o trabalho laboratorial é mais importante, mas, por exemplo, para a área das letras, há muitas atividades que podem ser feitas em teletrabalho.
José Fragata, e a Nova está preparada para dar esse apoio aos alunos? Há mecanismos para aqueles... Aliás, antes disso, a Nova tem capacidade para fornecer máscaras aos alunos, por exemplo?
A Nova vai ter que ter essa capacidade. Não lhe consigo dizer, ex officio, no momento em que estamos a falar, se as máscaras já lá estão. Obviamente, nós temos que ter algum tempo para nos prepararmos.
É porque há aqui alguma preocupação com o preço também, não é?
Ouça, mas vamos lá ver. Repare, o país, os governantes, o primeiro-ministro, têm liderado isto bem. Sinceramente, eu acho que têm liderado bem. O país vai ter que diferenciar-se na produção ou reconverter-se na produção de alguns items de proteção, porque isso não vai acabar em junho. Isso vai prolongar-se para além do verão. E portanto, nós vamos ter que aprender a viver uma normalidade dentro desta anormalidade em que estamos.
E no que diz respeito às aulas a distância, esta questão tem se colocado muito nos ensinos básico e secundário, mas nas universidades os alunos estão preparados? Têm estado. Aliás, muitos deles estão a ter aulas a distância.
Vamos lá ver, eu não acho que o problema de acesso a computadores seja um problema que ganhe uma dimensão que nos deva preocupar particularmente. Não quer dizer que não possa haver um ou outro caso de extrema pobreza, e certamente haverá mecanismos para os considerar. Mas em termos gerais, eu acho que se uma das coisas que esta crise nos demonstrou é que os métodos de ensino a distância são uma realidade. É errada a mensagem de que as universidades têm estado paradas. Eu sou professor catedrático de Cirurgia na Universidade Nova e não só, obviamente, na cirurgia, em todas as cadeiras, com exceção do sexto ano de medicina, que é um ano de prática clínica iminente, como se pode perceber, os alunos têm estado a ter aulas, têm estado a discutir casos, têm estado a ser avaliados.
À distância.
À distância. Poder-se-á ter a ideia de que as universidades estão paradas, mas não estão paradas. Como dizia Darwin: "Os que resistem são os que sabem adaptar-se." Eu acho que as universidades têm dado aí, se quer que lhe diga, não só em Portugal como na Europa, por aquilo que eu conheço, têm dado um exemplo muito importante que vai ficar para o futuro. Vai ser um resultado de aprendizagem desta crise, porque nós temos estado a assegurar ensino por métodos.
Professor, era isso que eu queria perguntar, era precisamente se as universidades estão a aprender com este processo, o que é que podem aprender e o que é que pode mudar já no próximo ano letivo, mesmo, e esperando nós todos, obviamente, que o país não esteja a viver este surto pandémico.
O país pode não estar a viver este surto pandémico, mas até que haja uma vacina efetiva, e quando eu digo efetiva é de qualidade e que chegue a todas as pessoas, e isso, como podem imaginar, é uma dimensão muito macro. Enquanto isso não chega, nós vamos ter que nos habituar a viver desta maneira. Por isso é que esta capacidade, se quer que lhe diga, me surpreendeu das escolas, mas sobretudo das universidades, que é disso que estamos a falar agora, terem conseguido, à conta de um esforço grande e uma capacidade de engenho grande dos professores e de uma grande capacidade de aceitação dos alunos, estarem praticamente a assegurar uma grande porcentagem do ensino a distância, é absolutamente notável. E eu tenho a certeza que essa ferramenta, essa metodologia, vai ficar.
Pode ser uma tendência para futuro em alguns cursos da Universidade Nova?
Pode ser alguma tendência. Eu vou lhe dizer uma coisa. Como dizia o Aristóteles: "O homem não prescinde da socialização e não prescinde de estar ligado a alguém e de contactar fisicamente." E nada substitui. E eu tenho 76 anos, tenho muitos anos de ensino, nada substitui a presença de um professor em sala de aula. A interação com os alunos, as expressões, as caras. Mas eu não direi que a universidade passará a fazer tele-ensino. O que eu estou a dizer é que o tele-ensino vai ficar como uma ferramenta que a universidade vai usar uma forma mais flexível e dilatada do que aquilo que usava até agora. Aliás, isso é verdade para as nossas reuniões. Nós perdíamos muito tempo a viajar pela cidade para nos irmos reunir e podemos, hoje em dia, eu levo o meu dia sentado à secretária a falar em Zoom para várias partes do mundo, aqui para um lado, para a rua de baixo. E portanto, isso é uma aprendizagem, entre outras, que vamos fazer. Esta é uma aprendizagem útil, uma ferramenta que vai ficar e as universidades estão nessa vanguarda, não tenho dúvidas nenhuma disso.
José Fragata, e este ano, como é que vai terminar este ano letivo? É possível fazer a avaliação dos alunos da Universidade Nova?
Vamos lá ver. É uma boa pergunta. Nós não queremos que este ano fique perdido ou que este semestre fique perdido. Não é isso que nós queremos. E portanto, como estivemos a ensinar a distância, vamos poder avaliar. Também se consegue avaliar a distância. E há trabalhos que os alunos fazem e há a possibilidade de lhe dar testes através das ferramentas dos módulos que as universidades têm. Portanto, a resposta é que haverá avaliações, os alunos sabem disso. Deixe-me dizer-lhe aqui que os alunos têm tido... Sabe que nas crises as pessoas crescem, amadurecem, e os alunos têm tido uma enorme responsabilidade e têm tido um comportamento de uma enorme compreensão. Eu acho que a universidade, professores e alunos, funcionários, mas professores e alunos, têm conseguido fazer aqui uma equipa à volta de uma coisa que é de interesse para todos, que é mantendo a segurança, entrarmos o mais rapidamente possível na normalidade.
O professor é professor de cadeiras de medicina, estávamos a falar disso há pouco, que é uma área iminentemente prática. É possível que todos os alunos, no caso de medicina, e haverá outros cursos iminentemente práticos como medicina, mas usemos aqui o caso de medicina porque é o que conhece melhor. É possível fazer, de facto, uma avaliação justa de todos os alunos à distância?
É possível fazer uma avaliação séria. Não será a mesma coisa, mas nós podemos dar casos clínicos aos alunos pra discutir, podemos fazer isso de uma forma direta, por tele, podemos fazer isso em conjunto, podemos ter a apresentação de trabalhos que os alunos submetem. Sabe que o ensino superior, naturalmente, tem formas de avaliação que buscam mais a integração de conhecimentos, buscam mais a capacidade de raciocínio. Por exemplo, o novo teste de acesso dos finalistas de medicina às especialidades é um teste de raciocínio clínico. Portanto, é possível ajuizar da maturidade, da capacidade de juízo de um estudante de medicina à volta de problemas clínicos que lhe são dados. O exame não é necessariamente um aluno, uma secretária e um professor atrás. As ferramentas já existem e eu devo lhe dizer que, por exemplo, na cadeira que tenho, estão a ocorrer avaliações. Aliás, deixe-me dizer que quando a pandemia aconteceu, uma parte significativa dos alunos já tinham tido o seu ensino e a sua avaliação. Portanto, isto apanha a metade tardia. O que tem, obviamente, expressão, mas o ensino é de muito boa qualidade em termos gerais e com esta atitude colaborativa, de colaboração entre os alunos e os docentes, eu acho que nós vamos ultrapassar esta crise. Isso não é algo que me preocupe, não vão sair piores médicos por causa disso. Este ano, que fique bem claro, não é um ano perdido.
Fica essa informação.
É isso mesmo, é a capacidade de conseguir avaliar e continuar a ensinar.