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Andou a ponderar apresentar esta candidatura à autarquia de Cascais, agora decidiu mesmo avançar. Eu perguntava o porquê de agora, o que o fez dar este passo?
A candidatura está a ser montada desde, pelo menos, setembro do ano passado. Não por mim, originalmente, grupos de cidadãos ligados a várias associações de residentes do conselho que sentem que é preciso alguma coisa nova num conselho que há 24 anos tem o mesmo partido no poder, que entrou com uma promessa de aumentar a qualidade de vida em Cascais, de combater a construção desregrada que se sentia numa data anterior do Partido Socialista, e sai não só não tendo cumprido essa promessa, como tendo piorado consideravelmente os níveis de construção para cima das áreas protegidas de Cascais, do seu parque natural, e tendo, em muitos casos, piorado a qualidade de vida, se olharmos para as praias que perdem bandeira azul, se olharmos para o aumento do trânsito, para a incapacidade que os filhos das pessoas de Cascais, onde eu me incluo, têm de arranjar uma casa a preços acessíveis, é o metro quadrado mais caro do país. Tudo isso são razões para mostrar que nesta mudança de protagonistas que aconteceu no PSD em Cascais, as promessas originais acabaram por ficar de lado e é preciso mudar alguma coisa. Eu acho que isso foi o que se foi construindo nestes meses. Eu fui pedindo às pessoas garantias de que avançavam, garantias de que me ajudavam a construir listas, recolher assinaturas, que é o que vamos fazer agora, apoios financeiros, porque é obviamente muito mais difícil para uma candidatura independente, mas é a minha terra, eu sinto que o devia fazer.
Já tinha dito também que chegou a ser abordado por esses eleitores que não se mostravam agradados com as opções da AD e do PS. Essa é a base de apoio que reuniu para justificar esta candidatura?
Sim, a base de apoio que eu reuni são os cascalenses. Já tive acesso a várias sondagens, algumas encomendadas por este meu grupo de apoiantes, que mostram que há insatisfação com uma série destes problemas que falei no conselho, que há pelo menos 10% de pessoas interessadas em que apareça uma alternativa independente ao centro. E eu percebo que isso aconteça porque tanto o PS como o PSD estão a candidatar os seus presidentes de concelhia. O PSD está a candidatar o seu quarto lugar na última lista à Câmara. Portanto, estão a apresentar opções que resultam dos aparelhos partidários, que já mostram o pouco contacto que os partidos têm com a sociedade civil. Portanto, percebe-se que a sociedade civil queira uma outra opção e eu percebo que, dado o meu mediatismo e a minha ligação a Cascais, que as pessoas tenham procurado falar comigo e eu sempre quis ser, nunca escondi que gostava de ser presidente da Câmara da minha terra e portanto acho que é um bom momento para o fazer.
Mas é conhecido que é militante do PSD. Não gosta assim tanto da proposta autárquica para concorrer contra o próprio partido?
Não gosto nada. Aliás, isso que estou a tentar deixar claro é que não gosto nada da proposta autárquica do PSD, porque acho que o que o PSD tem feito nos últimos anos em Cascais é aumentar brutalmente o tamanho do peso da Câmara na vida das pessoas. O universo municipal aumentou 500% nos últimos 30 anos e a população aumentou 30%. E acho que fazia falta o espírito reformista que o PSD apresentou originalmente em 2001 com António Capucho e que sinto que perdeu com Carlos Carreiras e que continuaria a perder se agora escolhesse, em vez de uma figura mais reformista do partido, uma pessoa que emane diretamente do aparelho. E eu disse isso na altura, havia ótimos candidatos do PSD para Cascais que podiam produzir essa mudança de espírito e essa transformação reformista que o PSD para mim representa, e por isso é que eu sou militante. Mas esses candidatos seriam a Joana Baltrimão, seriam o Miguel Pinto Luz, seriam o Ricardo Batista Leite. Não será o Nuno Pereira Lopes e as próprias pessoas do PSD que vêm falar comigo sabem disso. Mesmo as pessoas que vão apoiar esta candidatura sabem que estão a escolher um candidato com muitas falhas no campo da visão estratégica para o conselho, da capacidade de se ligar ao eleitorado, de comunicar uma mensagem eficazmente. Muita gente tem essa noção e muitas das pessoas até que podem vir a estar na lista do próprio Nuno Pereira Lopes. E eu percebo porquê. Aliás, eu tive vários contactos neste período com as estruturas do meu partido, em que tentaram chegar aqui a uma solução de consenso comigo, mas eu sinto que uma solução de consenso nunca poderia passar por uma candidatura que continue com o pior do que se tem feito em Cascais e rasga um bocadinho com o melhor que se tem feito.
E por falar em contacto com as estruturas, chegou a ser levantada a hipótese de ocupar este mesmo lugar, mas pelo Partido Socialista. Chegou a ter algum apoio do PS?
Apoio nunca tive. Eu fui convidado pelo Partido Socialista, informalmente, para ouvir uma proposta. Uma proposta que passava por eu ser candidato do Partido Socialista. Eu não estava disponível e não estou, nunca votei no Partido Socialista, não estava disponível para ser o candidato do Partido Socialista. Foi o que eu comuniquei ao Partido Socialista e comuniquei, aliás, a todos os partidos com que falei da área próxima do centro até agora, entre IL, Livre, PAN, PS, comuniquei a todos o mesmo, que é: o que nós estamos a procurar fazer é um movimento independente. Se os partidos quiserem participar nele com as suas pessoas, mas abdicarem de ter uma candidatura própria, ótimo. Obviamente, nenhum partido quer fazer isto, porque querem a sua subvenção e querem o seu peso relativo eleitoral refletido nos resultados finais nas autárquicas. Mas foi isso que eu sempre disse em todos os meus contactos com partidos e foi o que disse ao Partido Socialista também.
Houve esse interesse por parte do PS?
Houve. Eu confirmo que falei com o Partido Socialista. Agora, eu não tive interesse em ser candidato do Partido Socialista e disse isso ao PS, que achava que a solução passava sempre por um movimento independente de cidadãos. E eu acho que isso é que faz falta, uma renovação política e um movimento insurgente, mas que apareça pelo centro e não sempre pelos extremos.
Perguntava-lhe qual é a meta para estas eleições, se pretende ser independente em toda a linha ou se já está em diálogo com algum partido para uma eventual coligação, em que fase é que está?
Como lhe digo, os diálogos que eu tive com os partidos foram sempre neste sentido. Se eles quiserem participar de um movimento independente, ótimo. Se não quiserem, vemo-nos nas urnas e vemos o que é que acontece. Mas nós queremos fazer uma candidatura independente e a nossa meta é ganhar. Agora, sabemos que é muito difícil para um movimento independente ter os meios para ganhar, principalmente quando muitas vezes os meios da Câmara são usados para fazer campanha, mas vamos tentar o nosso melhor e tentar dar o máximo de representação a quem quer aumentar a participação cívica e a cultura democrática em Cascais, que é um dos concelhos que tem mais abstenção em eleições autárquicas do país.
Falava muito do centro. Perguntava como é que se vai comportar como vereador, se vai negociar à esquerda ou à direita, se já tem alguma ideia.
Para isso terei que ser eleito. E depois de eleito, dependendo do cargo que ocupar, tentarei negociar com todos os eleitos. E isso não quer dizer que vá fazer algum entendimento fixo, porque não conto fazê-lo e não quero fazê-lo, mas em Cascais a situação ainda está muito incerta, há muita dispersão de votos e certamente vai ser uma eleição interessante para os meios de comunicação social finalmente acompanharem, porque é um concelho que tem tido pouco escrutínio e eu acho que se tivesse mais, se calhar já não tinha os níveis de popularidade no atual executivo que tem. Mas a minha perspetiva é ser independente e se for eleito, representar essa voz independente, não é já estar aqui a prometer entendimentos que não sei sequer com quem é que serão. Agora, eu sou uma pessoa do centro, do centro liberal e portanto tenho abertura para conversar dentro dessas balizas, não com extremistas, mas isso acho que fica claro.