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Obrigado por se juntar a nós, Carlos Rebelo Cordeiro. Queríamos tentar perceber qual é a gravidade da situação que se vive neste momento do ponto de vista pandémico em Lisboa. Por isso mesmo, começava por, de acordo com os dados que temos, perguntar-lhe se considera que é preciso Lisboa recuar nas medidas de confinamento, mesmo tendo em conta a vacinação da população.

Muito bom dia e muito obrigado também pela oportunidade. Eu julgo que nós estamos numa situação em que isto tem que ser equacionado. E tem que ser equacionado não só em face daquilo que está a ser posicionado neste momento, que é a incidência, mas em face do número de novos casos que está a verificar-se na região de Lisboa e Vale do Tejo, com um aumento muito significativo, mas também naquilo que é a transmissibilidade, que está a crescer ao nível nacional, mas também particularmente nessa região. E, sobretudo, também à maior prevalência de uma variante que sendo mais transmissível, tem também algum potencial de, certa forma, ultrapassar defesas vacinais, sobretudo quando a vacinação está ainda incompleta. Isso associado àquilo que se tem verificado de algum descontrolo, sobretudo ao nível de aglomerações de pessoas em eventos diversos, seja desportivos, seja comemorações, precisamente com foco particular na região de Lisboa. Eu julgo que as autoridades deverão olhar, como é evidente, para todas estas condições, no sentido de poder, o mais rapidamente possível, tentar evitar aquilo que se está a perceber que pode ser difícil de evitar, que é um reaparecimento de uma onda pandémica concentrada, como aconteceu, aliás, no ano passado, precisamente por esta altura, em maio, junho, quando também foi o desconfinamento na região de Lisboa e Vale do Tejo, e que também de alguma forma se pode compreender pela maior densidade populacional, pela existência de maior dificuldade de afastamento em transportes públicos, em vindas em maiores aglomerados, mas também muito por força de comportamentos que não têm sido claramente os melhores e que nós temos podido observar. Não só em eventos desportivos, em eventos comemorativos, em eventos políticos, até que, de certa forma, se transformaram também em eventos com outro cariz. E tudo isto acrescido a um predomínio que está a verificar-se de uma variante com alta transmissibilidade e, como digo, com alguma capacidade de ultrapassar as defesas provocadas pela vacinação, sobretudo quando ela está incompleta. Mas mesmo com a vacinação completa, nós não temos, obviamente, uma eficácia de 100% contra essa variante. Portanto, tudo isso, obviamente, está a condicionar que a região de Lisboa e Vale do Tejo esteja a ser um barril de pólvora, não tenho a mínima dúvida. E depois o problema é que, naturalmente, vivendo quase um terço da população portuguesa nessa região, isto poderá contaminar o país todo, porque os movimentos para fora de Lisboa e para dentro de Lisboa são contínuos e, portanto, é muito difícil conter também, ou poderá ser muito difícil, esta situação de crescimento que se está a verificar e que já tem algum impacto nos hospitais. Tem algum impacto nos hospitais, até deixe-me dizer-lhe, ao nível dos cuidados intensivos na região de Lisboa e tem impacto, quer em internamento, quer em cuidados intensivos na região de Lisboa, em pessoas que inclusivamente têm vacinação completa. Portanto, há um movimento acrescido do número de novos casos e de internamentos nos hospitais da região Sul e sobretudo na região de Lisboa, mas também mais para o Sul, a partir precisamente desta pressão que já se está a verificar. Portanto, nós estamos numa situação que claramente tem que ser bloqueada. Eu acho que os responsáveis têm que olhar para isto tendo todos estes dados, porque não é apenas a incidência. É todo este coquetel explosivo que está claramente ali em cenário na região de Lisboa e Vale do Tejo.

Precisamente os protagonistas e os decisores políticos têm sido, nos últimos dias, alvo de uma polémica entre Palácio de Belém e também o Executivo de António Costa. Este eventual recuo da zona de Lisboa, do Conselho de Lisboa, não seria um desautorizar do Presidente da República?

Não. Vamos ver. Os dados têm que ser analisados com pragmatismo. Eu digo-lhe com sinceridade, porque hoje também entraram nessa discussão. Eu acho que estamos todos muito cansados e também as pessoas que governam o país e que têm responsabilidades também estão. E, portanto, há sempre alguns desencontros mesmo entre os altos responsáveis. Isso acaba por poder ser natural e existem opiniões diversas. Agora, temos que estar é concentrados, como é evidente, naquilo que é ou que deve ser a prevenção de uma situação de maior gravidade, que, não tenho a mínima dúvida, está em cenário na região de Lisboa. E isto custa-me, com sinceridade, que muitas pessoas e algumas pessoas até consideradas especialistas nesta área da saúde, desvalorizem precisamente o que se está a passar na região de Lisboa. Repare, o Reino Unido decidiu, de certa forma, retardar o seu desconfinamento mais um mês, precisamente por uma situação que não é muito diferente, em que se está a verificar o aumento da incidência, se está a verificar o aumento do número de testes Positivo. E, sobretudo, está também a verificar-se um aumento muito significativo da variante Delta, que é o que também está a passar em Portugal. Portanto, não é nada de novo. Nós não temos que, de certa forma, pensar que isto só nos está a acontecer a nós, porque obviamente também é algo que está, por exemplo, no Reino Unido, a ser equacionado precisamente para se retardar o desconfinamento, como estaria previsto já para este mês e agora passou para o mês seguinte. Portanto, temos que ser, de forma desapaixonada, pragmática e transparente, e, sobretudo, tem que haver coerência. E portanto, se nós temos dados que demonstram, e os dados não se devem limitar. Aliás, como sabe, existem até propostas de matriz que foi desenvolvida pelo gabinete de ordens médicos, que foi considerada muito positiva, mas foi considerada muito difícil de aplicar pela falta de dados. E isso é um outro aspecto preocupante, mas não nos devemos fixar, como se tem estado a acontecer agora, apenas e unicamente na incidência. Há uma série de condições na região de Lisboa, de movimento de pessoas, de aglomerações que se têm verificado, de predomínio desta variante Delta, do menor foco na testagem. Enfim, aliás, como tinha sido prometida uma testagem massiva, como deve ser feita sempre à entrada de eventos, de determinado tipo de situações que vão exigir acumulação de pessoas, em população não vacinada também, ou em sítios como escolas e em todos os espaços onde possa haver uma maior concentração de pessoas. Tudo isto deve ser olhado e considerado, digamos, globalmente e não apenas a incidência. Deve haver critérios de incidência e critérios de gravidade, porque repare que se nós não temos hoje a pressão que tivemos nos hospitais, por força da maioria da população de maior risco para a doença mais grave estar vacinada, estamos, sobretudo, a verificar na região de Lisboa, como há pouco disse, um aumento e uma evolução muito significativa dos internamentos. Diversos hospitais de Lisboa tiveram que abrir já, de novo, não apenas uma, mas mais do que uma enfermaria dedicada para estes doentes. Com isso, também desviando obviamente recursos humanos e técnicos para atividades não Covid e, portanto, também prejudicando até, em termos globais, a população. Mas, sobretudo, já se começa a sentir uma pressão que não se sente no resto do país, tem que se dizer, mas é sobretudo na região de Lisboa e a região Sul, que se começa a sentir essa pressão mesmo em pessoas vacinadas. E, portanto, isto é um alerta, como é evidente. Quer dizer, vamos recuar no desconfinamento apenas quando tivermos no vermelho mais vermelho? Isto não são sinais de alerta que estamos a observar neste momento? Claro que são. E por isso, claramente, julgo que deve haver um olhar desapaixonado, pragmático, digamos, e objetivo aos sinais que estamos a verificar e a todas as variáveis que neste momento estão posicionadas e a colocar, obviamente, a região de Lisboa e Vale do Tejo numa situação que, sobretudo, como digo, deve ser o mais rapidamente controlada para evitar que, de certa forma, possa contaminar também o resto do país e com isso, diminuir aquilo que pode ser a expectativa que as pessoas têm, até agora para a época de verão, as expectativas que se têm relativamente ao turismo. Porque nós temos que olhar, não tem que haver digamos, paixão neste tipo de decisões, tem que haver é pragmatismo, tem que haver um olhar, aliás, objetivo e não mais do que isso.

Terminava esta pequena entrevista por perguntar-lhe, também no âmbito do combate à pandemia, o governo anunciou ontem que vai haver um reforço de testes em eventos familiares e esse aconselhamento por parte da Direção-Geral da Saúde. Pergunto-lhe se esta medida faz sentido no ambiente em que vivemos hoje em dia.

Claro que sim, e faz todo sentido, porque veja que foi a partir de muitos desses eventos, e não só, também obviamente, estamos a pensar em escolas, como na região de Lisboa aconteceu, aconteceram surtos, mas foi muito a partir de eventos que permitiram uma grande quantidade de pessoas juntas e eventualmente sem os cuidados todos e as precauções que têm que ser observadas, que fez com que houvesse um aumento muito significativo. Há eventos que promoveram dezenas e dezenas de casos positivos. Se tivesse tido esse cuidado de fazer essa testagem prévia, obviamente, poder-se-ia ter evitado essa contaminação. E portanto, faz todo sentido. Faz todo sentido onde haja aglomeração de pessoas, faz todo sentido nas escolas, como se tem falado também, faz todo sentido em tudo o que seja eventos que possam permitir um maior nível de transmissibilidade, pensando que está em circulação uma variante muito transmissível e que não é só na população não vacinada que ela está a ter impacto. Nós neste momento, devo dizer, para terminar, que estamos e vamos tendo informações, mesmo já hoje de manhã, estamos a verificar internamentos com doença moderada a grave de profissionais de saúde com vacinação completa, nos hospitais de Lisboa, concretamente. Portanto, nós estamos a assistir a tudo isto, não podemos ficar impassíveis, como é evidente.