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Falamos de um excesso de mortalidade desde o início da pandemia que pode chegar aos 4000 óbitos no período analisado por este estudo. O que está aqui em causa? O que nos dizem estes números? E podemos fazer uma relação direta entre o excesso de mortalidade com a pandemia da Covid-19?

Bom, na verdade, não é desde o início da infecção. O período que nós estudámos foi desde o dia 1 de março até ao dia 22 de abril. E aquilo que nós fomos olhar foi basicamente ver o número de mortes a mais do que nós estamos à espera durante uma temporada, um mês normal. Todos os anos, todos os dias, morrem em Portugal cerca de 300 pessoas e nós fomos tentar compreender, durante este período de seis semanas, sete semanas, quantos é que morreram a mais para além dessas 300 pessoas por dia. Por quê? Porque tínhamos aqui uma razão para que isso acontecesse, que era a pandemia. Se a pandemia não existisse, não tínhamos estes números de novecentos e tal que temos hoje, que na altura eram menores. E, portanto, o que nós fomos olhar foi: bem, durante este período de tempo, durante a pandemia, qual foi o número de pessoas a mais que morreu durante esse período? Habitualmente, como nós fazemos isto, comparamos com os meses homólogos dos anos anteriores, um ano, dois, três de 30. Aqui neste caso, nós achamos que essa não era a metodologia correta, mas sim, olhámos para mais para os meses de verão. Calculámos a um mês, a três e a cinco, para tentar perceber. Por quê? Porque nos meses de verão, o número de acidentes baixa e o número de mortes também baixa. Portanto, nós achamos que era contra esses meses que nós tínhamos que fazer os nossos cálculos. E aquilo que apurámos foi que durante este período de tempo, morreram entre 2400 a 4200. Esta gama é porque tem variações dos cálculos, não é possível ser estritamente preciso, porque os números mudam substancialmente dia para dia, mas ela é mais ou menos essa, digamos assim, aquilo que nós podemos afirmar. Nos nossos cálculos, durante o período de 1 de março a 32 de abril, morreram em excesso, para além das mortes normais que todos os dias acontecem, morreram em excesso 4200. E a parte importante é que destes 4200, só uma pequena porcentagem foi de pessoas com Covid. Os números que nos dizem é que basicamente morreram quatro a seis vezes mais pessoas sem Covid do que com Covid. E isso é um dado absolutamente crucial para compreendermos o que temos de fazer a seguir. Essas pessoas, visto que não tinham infecção Covid, morreram porque são pessoas que têm doenças crónicas, que se agudizaram, doenças agudas, etc.

A confirmarem-se estes dados, isto pode mudar a forma como vemos o vírus, como vemos a pandemia e como estamos a enfrentar toda esta situação?

Não, não nos altera a maneira como nós vemos o vírus e a pandemia. O que nos deve alterar é a maneira como nós gerimos o Sistema Nacional de Saúde a partir do conhecimento destes números. Porque se nós estamos neste momento a fazer uma gestão do risco básica, não estamos a fazer uma gestão do risco de infecção, criamos novas camas de cuidados intensivos, arranjamos hospitais de campanha, arranjamos mais camas de internamento, etc. O que este estudo vem alertar é: atenção, isso faz-se, deve-se fazer, pode-se continuar a fazer, as coisas estão a correr bem, deve-se fazer, mas bastante mais importante, se queremos efetivamente gerir o risco global, não apenas o risco dos doentes com a infecção, mas o risco global, então temos que ter soluções para estas pessoas que são muito mais numerosas e que morrem muito mais que os doentes com Covid. São os doentes com cancro que não estão a ser tratados, são os doentes com doenças cardiovasculares que não estão a ser tratados, são os doentes com problemas complicados de imunodepressão, de reumatologia, acidentes, etc. Estes doentes são um número muito elevado, repito, quatro a seis vezes mais elevado do que o número de Covid. E portanto, sob esse ponto de vista, é preciso uma estratégia para convencer as pessoas a irem ao hospital. Porque a grande razão é as pessoas têm medo de ir ao hospital. Têm um terror absoluto de se infetar nos hospitais. Eles têm que explicar que os hospitais foram organizados agora com vias diferentes, as pessoas com Covid e as pessoas sem Covid. E, portanto, é fundamental que quando estão doentes, vão ao hospital.

E que estratégia pode ser essa ou por onde é que pode passar essa estratégia para mudar essa forma de pensar?

Bem, nós somos um grupo de investigação clínica e, portanto, o nosso papel não é dizer o que os responsáveis políticos devem fazer ou não, nem sequer o que os responsáveis de tudo devem fazer. Nós damos informação, dados de evidência de alta qualidade para os ajudar a decidir. Mas eu diria que é uma combinação entre reativar largas partes do Sistema Nacional de Saúde para atender essas pessoas e simultaneamente convencer os portugueses que a hipótese de morrerem de Covid é bastante pequena. A hipótese real de alguém se infetar com 30, 40, 50, 60, 70 anos é muito pequena. E, portanto, tentá-los que ultrapassem aquele medo que eles têm agora, porque a maior parte dos portugueses neste momento está persuadida que se se infetar, é capaz de morrer. Ora, isso é completamente falso. Portanto, eu penso que vai haver aqui uma combinação entre uma organização, uma abertura rapidamente dos recursos em saúde para atender essas pessoas e simultaneamente as pessoas convencerem-se que é seguro ir ao Sistema Nacional de Saúde, aos hospitais, aos centros de saúde, para se tratar e para não morrer em casa. Nós olhámos também para a relação entre estas mortes e a baixa de idas às urgências. Neste período de tempo, foram às urgências, por dia, menos 122 mil pessoas no país. E nós temos as curvas paralelas muito interessantes em precisamente o aumento da mortalidade dos doentes e que, repito, são acima de tudo acima de 65 anos. É por isso que nós estamos seguros que isto é com certeza uma complicação das suas doenças crónicas. O pessoal abaixo de 60 anos, não só não teve esse excesso de mortalidade, como até parece estar uma coisa ligeiramente melhor. Nós sabemos que é isso. E isto está comparado com a diminuição brutal da afluência dos doentes ao serviço de urgência. E mesmo que eu tenha o serviço de urgência, vamos supor que os 700, 800 que tinham lá todos os dias. E agora estão reduzidos 90%, 85% dos doentes já lá não vão. Desses 85%, 40% seriam doentes que eventualmente não deviam lá estar, são coisas leves. Ainda assim, restam 40% dos doentes que deviam estar na urgência, deviam estar internados, deviam estar a ser atendidos. E é esse grupo de doentes que nos preocupa imenso em termos do impacto global que esta pandemia tem, porque tem um impacto direto nas pessoas que mata diretamente, mas depois tem este impacto devastador num conjunto de outros doentes que não tendo qualquer infecção por Covid, têm também uma morte excessiva, ou seja, basicamente desnecessária, não aconteceria se não tivesse havido esta alteração do recurso em saúde e esta necessidade de desviar tanta coisa para uma patologia única que é a Covid.