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Estamos em direto com o músico Jorge Fernando, a quem agradeço desde já a disponibilidade para se juntar a esta edição das 8. Boa noite.

Olá, boa noite.

Jorge Fernando e a Mísia partilharam palcos em todo o mundo. Quais são as lembranças que vai guardar e quem era a cantora Mísia nos bastidores? Para quem teve essa oportunidade de privar com ela.

Sim, partilhei com ela o palco, a convite dela, por inúmeros países. O trabalho da Mísia na cultura é notável. Ela vem de Espanha com uma mentalidade proativa, diferente daquela que nós ainda estávamos nos anos 90 em Portugal, muito virados para dentro e a pensar que não havia caminho fora de Portugal para além da Amália e que já o tinha sido. A Mísia vem quebrar isso muito, vem com uma proatividade tremenda a mostrar que o fado se podia apresentar em qualquer parte do mundo com outra música, de qualquer mundo, qualquer parte do mundo. Levou-a, pelo menos no meu tempo, ao Japão, a todo lado. O seu trabalho foi notável. Também gostava muito de referir o fato de a Mísia continuar um trabalho que se tinha perdido, entretanto, depois da Amália, que seria a escolha de bons poetas para ser cantados, de bons músicos. Formou uma grande equipa que daria depois azo a que, por exemplo, eu fizesse alguns discos para, além de mim e do Custódio, tocarmos com ela. Ela trouxe o Marino Freitas, o Ricardo Dias, o Manuel Rocha, da Brigada Victor Jara, e começou a formar um projeto para que o fado tivesse a sua mudança e que fosse entendido de uma forma melhor fora de Portugal, mantendo a intimidade, mas tornando mais abrangente. Eu continuo a achar que o trabalho da Mísia é notável no fado. Notável, abriu portas.

Era inovadora, não é?

Muito inovadora, muito criadora, visionária, pôs o xaile às costas, mundo afora e abriu caminho para tudo o que está a acontecer agora, penso eu.

O último disco da Mísia, o "Animal Sentimental", foi editado em 2022, foi lançado em conjunto também com um livro, uma espécie de autobiografia, onde a fadista passou em revista vários episódios com os quais se deparou na vida, desde a luta contra o câncer a um casamento onde foi vítima de violência. Estas foram marcas da vida da cantora que, de alguma maneira, foram também usadas como uma inspiração?

Sim, sem dúvida. Ainda bem que falamos nisso, porque a Mísia é o tipo de mulher que eu gosto, ou seja, ela padeceu disso, mas transformou isso a seu favor e tornou-se uma guerreira, uma proativa. "Vamos lá erguer a cabeça e que isso não aconteça mais, nem a mim, nem a quem está ao meu lado". Ela foi realmente, segundo ela, vítima de violência. Então embora lá, nada de lamúrias, nada de lamechas, vamos é mudar o mundo, vamos transformar isso, porque isso não faz sentido, a mulher ser objeto de violência, seja de quem for. E, portanto, eu admirava isso nela, essa proatividade, e acho que ela tocou muita gente nesse sentido também.

Tem alguma história mais pessoal que possa partilhar conosco, algum momento mais inusitado que se lembra assim de repente, Jorge Fernando?

Eu prefiro referir, e foi-me referido a princípio, enquanto mulher, a Mísia era extremamente inteligente, era uma mulher com uma argúcia fantástica, visionária. Eu ficava, às vezes, de facto, com a visão dela, porque mais tarde, era premonitório o pensamento dela. Ela tornava as coisas no presente que via no futuro e elas realizavam-se realmente. Eu estou um pouco emocionado porque a Mísia foi uma lutadora, sempre solitária, a lutar sozinha. Repare que ela nunca teve um manager daqueles que dissesse que ela era a melhor do mundo e arredores, nunca teve uma editora que a apresentasse como tal, mas a obra dela está aí, é incontornável e está para percebermos bem, como eu já referi, o notável caminho e as portas que a Mísia abriu para todos nós.