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Caso se confirme esta morte, eu gostava de lhe perguntar qual é que é o impacto que isto terá naquela região do Médio Oriente e até que ponto é que a morte deste líder possa facilitar um entendimento, uma relação, uma diplomacia daqui para a frente.
A confirmar-se a morte de Khamenei, por um lado, significa que ele atingiu um dos objetivos, que era ser um mártir. Há muito tempo que ele se preparava e sempre disse que muito antes de qualquer tipo de capitulação, ele preferiria ser um mártir. Agora, é verdade que ele próprio e o regime também há muito tempo asseguraram linhas de sucessão, sobretudo, sabe-se que desde junho passado, o próprio Aiatolá terá indicado três sucessores principais para o Conselho de Sábios dos 88 poderem escolher e definiu uma quantidade de segundas e até de terceiras linhas, pelo menos, de direções de alto nível, no caso dos próprios serem mortos em eventuais ataques ou atos de sabotagem ou assassinatos. Portanto, o regime está a acautelar e há muito tempo preparado para a eventualidade de quer Khamenei, quer outros altos dirigentes políticos, militares e do Corpo da Guarda Revolucionária serem mortos em situações como esta. Portanto, não me parece que a morte de Khamenei a confirmar-se por si só signifique o fim do regime ou uma mudança dentro do regime no sentido daquilo que Donald Trump e Netanyahu pretendem.
Portanto, há de facto aqui esta expectativa para perceber qual será a sucessão caso se venha a confirmar a morte de Ali Khamenei. O Luís Tomé há pouco falava-me dessa questão de que o Irão estaria preparado para uma eventual morte do líder e que, portanto, isso não significaria uma mudança. Ou seja, de certa forma também podemos estar aqui a falar de uma missão não bem-sucedida por parte dos Estados Unidos e até mesmo de Israel?
É muito cedo para sabermos. Agora há um risco político mais do que Israel, dos Estados Unidos e do presidente Trump, quando colocam como objetivo político desta ação a deposição do regime e o incentivo, inclusivamente, para que o povo, de uma maneira geral, aproveite a circunstância para tomar o governo nas suas mãos, como disse Donald Trump, aliás, fazendo um apelo para os militares e o Corpo da Guarda Revolucionária se entregarem sob pena de morrerem todos. Esse objetivo político é difícil de alcançar sem botas no terreno, digamos assim, além do risco que é o caos dentro do Irão com o colapso do regime. Mas a questão é se o regime sobreviver, como é que Donald Trump poderá justificar esta ação e o fim dela sem que o regime caia definitivamente. Agora, nós também percebemos que do lado de Israel a estratégia é levar isto até ao fim e arrastar os Estados Unidos, convencer os Estados Unidos a manterem-se até que haja uma mudança de regime. Para Israel, não é só para Netanyahu, para Israel desde 1979, este regime iraniano é uma ameaça existencial para o Estado de Israel, para a segurança nacional. Não é o mesmo, naturalmente, para os Estados Unidos.
Sim.
A estratégia do Irão, nós percebemos, é escalar para um conflito regional e fazer sangrar o suficiente os Estados Unidos, designadamente com alguns mortos entre soldados e eventualmente até civis americanos, para que em contexto de pressão interna, até pelo movimento MAGA e de ano eleição de escalares, Donald Trump pare com esta ação e leve Israel a parar. Qual das partes vai resistir mais, isso também é incógnita nesta altura, mas nós sabemos como isto começou.
Claro.
Sabemos os objetivos, mas o desfecho está muito longe neste momento de poder ser definido.
E Luís Tomé, eu pergunto-lhe, tendo em conta o seu conhecimento como professor catedrático e que está aqui mais ligado também às relações exteriores, já alguns meios de comunicação avançam numa possibilidade, tendo em conta esta queda de regime, que possa também agora surgir uma espécie de revolução civil no próprio Irão. Acredita que isso possa vir a acontecer?
Acho muito difícil. Nós sabemos que há muito tempo, quer a inteligência israelita, quer mesmo americana e outros, têm tentado preparar o terreno, instigar, armar, entregar até meios de comunicação, por exemplo, o Starlink, a setores da oposição democrata e não democrata ao regime iraniano. Mas é muito difícil ir para lá disso. Eu acho que a estratégia não é totalmente coincidente. Isto é, enquanto que Netanyahu e o Estado de Israel estão habituados a este conflito, esperam e querem resistir durante muito tempo neste conflito porque o querem levar até ao fim, definitivamente, queda do regime, do lado de Donald Trump, a coisa pode não ser assim. Eu não acredito é que a queda de Khamenei torne o regime mais dócil, o torne mais predisposto a uma solução diplomática. Pelo contrário, podemos ter uma linha dura com o regime mais endurecido nos próximos tempos, porque é a existência do regime que também está em causa. E, portanto, isso torna mais perigoso, pode até ser mais imprevisível naquilo que se possa antever do controle de escalada. Até porque nós temos, se o regime está dividido, apesar de tudo, bem, as fações dentro do Irão são múltiplas, não estão unidas e, portanto, essas sublevações ou manifestações contra o regime têm agendas e origens diversas e é muito pouco provável, diria eu, mas enfim, estamos a viver estes tempos sobre brasas, que de repente o povo alimentado por estes ataques americanos e israelitas venha para as ruas e consiga derrubar o regime.