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A professora Claudia Goldin é uma economista, uma professora de Economia em Harvard. Trabalhou ao longo dos últimos 40 anos numa área entre a fronteira entre a economia do trabalho e a história econômica. Tem um trabalho de análise de arquivos, em que procura documentar a evolução da participação das mulheres no mercado de trabalho ao longo dos últimos dois séculos. E também tem trabalhos mais recentes que procuram explicar o que é que determina a participação das mulheres na educação, por que é que há diferenças em relação aos homens, e também trabalhos mais recentes sobre o tema muito importante da diferença salarial entre homens e mulheres.
Pelo que vejo aqui, este trabalho não aponta caminhos de solução política para resolver os fossos, é mais ao nível da contextualização histórica e daquilo que tem sido essa evolução. É isso?
Exato. Ela focou-se mais em documentar padrões, em perceber por que é que diferenças surgem, mas não tanto em termos de apresentar soluções de políticas públicas ou de outra natureza para corrigir estas diferenças, se for essa a pretensão em termos políticos. No entanto, ela levou indiretamente ao desenvolvimento de várias ideias nesta área das políticas públicas, ao ter inspirado um conjunto muito alargado de investigadores que seguiram as análises que ela desenvolveu e que as procuraram aprofundar.
Que relevância é que tem também, e lá está, porque o trabalho versa também sobre isso, o facto de ter sido uma mulher a conquistar este galardão e de a principal obra da carreira seja precisamente a investigação sobre as mulheres no mercado de trabalho?
Eu penso que é um desenvolvimento importante. Claudia Goldin é apenas a terceira mulher a receber o Prêmio Nobel em Economia. Está aqui um diferencial muito grande a este nível em relação aos homens. Por outro lado, os resultados da investigação que ela desenvolveu, sobretudo estes resultados mais recentes, podem ter implicações muito interessantes. Um exemplo passa pela importância de a mulher ser mãe para o aparecimento e o crescimento dos diferenciais salariais entre homens e mulheres. As análises recentes indicam que quando se fazem comparações entre homens e mulheres, em que tanto uns como outros não são ainda pais, os diferenciais salariais entre homens e mulheres praticamente não existem. A partir do momento em que a mulher passa a ser mãe, esse diferencial começa a aparecer e a agravar-se com o tempo, ao contrário do que acontece com o homem quando o homem torna-se pai. Nessa circunstância, o diferencial já não é influenciado. Portanto, este resultado penso que sugere que as questões associadas à maternidade e à paternidade são muito importantes a explicar as diferenças salariais entre homens e mulheres.
Só para concluir e aproveitando também a sua experiência vasta. Em Portugal, é possível dizer que tem existido uma evolução no que toca a esta aproximação entre homens e mulheres no mercado de trabalho?
Tem havido um crescimento muito grande da participação das mulheres no mercado de trabalho, tem havido uma diminuição das diferenças salariais entre homens e mulheres, mas continua a verificar-se esta situação em que o diferencial salarial surge e agrava-se a partir do momento em que a mulher torna-se mãe. Portanto, há aqui questões relacionadas com a conciliação da vida familiar, com a vida profissional, com a divisão de responsabilidades entre o pai e a mãe, que importa discutir e corrigir, penso eu.