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Temos neste momento connosco em direto neste jornal Observador, Filipe Patey Duarte, comentador especialista em assuntos relacionados com a geopolítica e segurança internacional. Muito boa tarde, Filipe Patey Duarte. Obrigado por se juntar a nós neste jornal Observador. Começo por lhe perguntar se há alguma novidade em relação aos motivos desta explosão. Ficamos a saber que seria numa zona portuária na capital libanesa, também que há esta informação que já foi adiantada na última hora de que não será relacionado com material pirotécnico, mas com material altamente explosivo que estaria há vários anos confiscado. Não sei, Filipe, se nos consegue também ajudar em relação a estes últimos dados relacionados com esta explosão.
Bom, qualquer dado que se diga ainda é extremamente prematuro e, portanto, nós não temos qualquer tipo de informação se foi uma ação intencional ou se foi uma questão acidental. Para a questão intencional, nós devemos considerar neste momento o que se passa no Líbano. O Líbano atravessa uma crise sem precedentes em termos financeiros, sociais, políticos, e precisamente essa crise está a pôr ao de cima aquilo que define política e socialmente o Líbano, que é um país de permanentes tensões sectárias, resolvidas num sistema político de permanente cooperação e de resolução de conflitos entre estas tensões sectárias, particularmente entre muçulmanos, drusos, cristãos maronitas, enfim. E isso marca o Líbano e a crise está a voltar a pôr de cima essas mesmas tensões, portanto, temos essa questão a considerar. E por outro, coincidentemente ou não, até ao final desta semana, sairá o julgamento apoiado pelas Nações Unidas que tem a ver com o atentado que Hariri, o primeiro-ministro então do Líbano, sofreu em 2005, culminando na sua morte. E aparentemente um dos responsáveis por esse atentado terá sido o próprio Hezbollah. Como sabe, é um movimento social terrorista com forte impacto nas decisões do Líbano, nomeadamente na zona sul do Líbano, que é uma espécie de braço armado ou braço representante do Irão para aquela região levantina, e que portanto, o Hezbollah terá sido um dos principais acusados, sendo que neste momento estão a ser julgados à revelia cerca de quatro ou cinco elementos do Hezbollah responsáveis por este atentado. Naturalmente, o Hezbollah não reconhece sequer o tribunal. Portanto, a objetividade neste exercício do tribunal. Estas duas questões devemos ter em consideração. Assim como assim, há sempre a possibilidade de ter sido meramente acidental, mas tendo sido acidental ou intencional, esta questão ou esta explosão vai ter um impacto significativo neste país que está num vértice de crise sem precedentes.
Isto significa que a situação política e financeira do Líbano neste momento tem tendência a piorar também e pode agravar-se a conflitualidade social no país?
Pode, claramente. Há um ano, quase para cá, que o Líbano atravessa esta crise financeira, com tentativas progressivas que se intensificou no ano passado. A dívida pública aumentou significativamente e houve várias medidas por parte do governo para aumentar a receita, que resultaram em declínios na confiança por parte dos cidadãos, dos consumidores. E tenta-se aprovar reformas financeiras necessárias, um governo frágil, sublinho, mas são incapazes, não foram suficientes e não está a haver ajuda ou assistência financeira externa suficiente para alavancar de novo o Líbano. Há aqui uma correção econômica que está a ser feita e esta correção econômica pode levar a crise financeira para patamares sem fim à vista. Desvalorização acentuada da moeda, subida do desemprego, hiperinflação, e tudo isto está a levar a dar origem a protestos violentíssimos contra este frágil governo. Agora, eu não estou a dizer que esta explosão tem a ver com isso, mas tendo em conta que ainda não temos qualquer tipo de informação, todos os cenários deverão ser tidos em conta, nomeadamente esta questão dos protestos, e que depois a questão, coincidencia ou não, do julgamento do atentado de Hariri, do qual o Hezbollah aparentemente terá tido responsabilidade. E portanto, devemos jogar permanentemente com isso para tentar perceber o que foi.
E neste momento, Filipe Patey Duarte, qual é a força do Hezbollah no país e também nesta região? Lembramos, por exemplo, que o Líbano é vizinho da Síria. Pergunto também que tipo de influência é que uma situação destas e este acontecimento pode espoletar também nesta região outro tipo de atividade e conflito que já vínhamos observado também ao longo das últimas décadas.
O Hezbollah tem uma influência significativa no Líbano e na região também. O Hezbollah é uma ramificação do Irão, das atividades externas do Irão, que tem ali um braço para expansão da sua influência e da sua própria soberania. Ora, o Hezbollah tem essencialmente influência a sul do Líbano, precisamente numa zona fronteiriça com Israel. E portanto, aqui o Hezbollah é um fator determinante, é um ator não estatal determinante. Por quê? Porque nós temos aqui neste tipo de governo e neste tipo de regime São regimes e sistemas políticos, como por exemplo o caso do Iraque pós-Saddam, estamos a tratar essencialmente de sistemas políticos que não assentam em governos nem em Estados fortes, mas sim em governos de resolução de conflitos. Governos que integrem as várias componentes sectárias que permanentemente estão em conflitos sectários, portanto, dimensão étnica, religiosa, política também, e que naturalmente o resultado não é necessariamente um governo forte ou um Estado forte, mas um governo que exista para resolução de conflitos em que todos aparentemente se sintam representados. Por outro lado, este tipo de governo, posso lhe dar o exemplo do Iraque, talvez seja aqui um elemento mais comparativo, estão completamente vulneráveis a influências externas. Influências externas essas que no caso específico do Líbano vêm, por um lado, do Irão, como eu referi, ou por outro, dos Estados Árabes, particularmente aqui da Arábia Saudita. Por um lado, a Arábia Saudita apoia essencialmente os muçulmanos sunitas e por outro, o Irão apoia os muçulmanos xiitas, particularmente aqui o Hezbollah.
Já agora, Filipe Pate Eduardo, deixe-me só perguntar-lhe, nós já no início do ano tínhamos assistido àquele escalar de tensão entre os Estados Unidos e o Irão, na sequência também da morte do general Qassem Soleimani, o general da força de elite iraniana. Ora, esta situação na altura falava-se de um clima com esse escalar de tensão que podia elevar também aquilo que era o diálogo do ponto de vista militar a uma situação incontrolável. O que eu lhe pergunto também é se na sequência desse caso do início do ano, se podemos estar perante um novo momento de viragem também na política externa e com os Estados Unidos, por exemplo, a terem necessidade de intervir e a serem também um ator com papel central aqui neste caso.
Não sei, isso é uma questão difícil de responder. Temos que partir do princípio que isto foi uma ação intencional. Sendo uma ação intencional, é perceber quem é que executou esta ação. Portanto, responder a essa questão já implica assumir que o cenário é verosímil. Que o cenário é verdadeiro e que houve aqui uma ação intencional. Por outro lado, estabelecer uma ligação desta equação com a morte de Soleimani, isto é puramente especulativo. Temos aqui pelo menos alguns meses significativos de diferença e uma suspensão pandémica que em alguns lugares não foi necessariamente suspensa, não houve uma suspensão. Mas de qualquer das maneiras, se nós pensarmos, isto volto a dizer, é puramente especulativo, não parece que o Hezbollah tenha qualquer tipo de interesse neste momento em desencadear um atentado nesta dimensão no Líbano. Não parece. É possível que sim, mas não parece. E não parece por quê? Porque perante precisamente esta crise económica e financeira e a crise motivada pela suspensão pandémica, o governo libanês, quer a presidência, que é cristã, quer o governo, que é muçulmano sunita, está a perder progressivamente a legitimidade de poder. E portanto, perante esta mesma situação, o Hezbollah tem cada vez mais apoio ou pode vir a ter cada vez mais apoio por parte da população perante a falência do governo. E portanto, ao fazer este tipo de atentado e ao assumir este atentado como sendo seu, o que o Hezbollah vem fazer é alienar o apoio da população, que neste momento não lhe interessaria. Mas isto é um cenário puramente especulativo. É importante ter cuidado na assunção de determinadas realidades. Neste sentido, não me parece que o Hezbollah estivesse a ganhar com este tipo de atentado. Há outra questão que eventualmente, de uma forma completamente especulativa, podemos pensar, caso tenha sido intencional, se foi uma arma estratégica, vamos imaginar, disparada por um navio, quer dizer, que vá contra a zona ali portuária. É uma possibilidade também, é um cenário que também não devemos descartar, embora completamente remoto. A informação é escassa, não se sabe se foi intencional ou acidental, tendo sido um ou outro, a influência e o impacto numa sociedade já altamente fragilizada é enorme.
Obrigado, Filipe Pate Eduardo, por se juntar a nós neste jornal "Observador", a propósito desta notícia desta tarde, esta forte explosão na capital libanesa, em Beirute.