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Junta-se agora a nós o cartunista Luís Afonso, a quem agradeço desde já a disponibilidade para estar conosco neste jornal. Muito boa tarde, Luís. Num texto que assinava e que estive a ver há pouco, assinava em 2014, creio que por ocasião de um aniversário da Mafalda, essa personagem de Quino, escrevia o Luís Afonso que tinha crescido com a Mafalda, que eram praticamente da mesma idade, que a tinha conhecido algures no quinto ou no sexto ano. É, na realidade, a Mafalda que marca a vida de Quino, deste autor que agora nos deixa?

Não podemos dizer só isso. A Mafalda é o grande arranque de Quino e há um antes e depois da Mafalda. O Quino até acabou com a Mafalda porque se cansou de estar ligado eternamente à Mafalda e ele queria ter vida para além dela.

Aliás, a Mafalda ainda hoje vai sobrevivendo e vai havendo várias publicações, mas a verdade é que foi num curto espaço de tempo, cerca de uma década, nos anos 70, deixava de ser desenhada.

Sim. A Mafalda começa por uma campanha de publicidade. Não me lembro já do que foi, mas era para uma campanha de publicidade. Só que os bonecos ficaram, eram giros, reconhecidamente muito engraçados, e ganharam vida própria. Viveram para além dessa campanha de publicidade e criaram um universo próprio e construíram as suas histórias naquele universo da Mafalda e dos seus amigos, aquela galeria de personagens que é a Mafalda, os pais, o irmão, o amigo Felipe, o amigo Manolinho, a amiga Liberdade, a amiga Susaninha. Esse select de personagens que caracterizava muito bem a sociedade da altura. É curioso, porque esse select de personagens hoje, transposto para este século XXI, ano 2020, nós conseguimos identificar. São estereótipos, mas conseguimos identificá-los em pessoas que nós conhecemos. O Manelinho, que era o mais materialista, o Felipe, que era o mais sonhador, a Susaninha, que era fútil e só vivia das aparências, a Liberdade, que era uma miúda que só vivia para as causas, era uma ativista.

E era essa amostra de sociedade que estava nessas publicações.

Exatamente. Essa amostra que nós víamos na altura, só que na altura ninguém esperava que 50 e tal anos depois, ou 60 anos depois. 50 e tal, no meu caso 40 e tal, porque obviamente comecei a ler com seis ou sete anos.

Mas o Luís Afonso falava desse percurso de Quino além da Mafalda. Vamos conhecer também um pouco esse outro lado, talvez menos mediático ou que pelo menos não estivesse há tanto tempo nos escaparates.

Sim. O Quino hoje, vamos lá ver, para os cartunistas atuais, se calhar é mais conhecido pelos cartoons que fez depois da Mafalda do que propriamente pela Mafalda. A Mafalda é uma tira. Os americanos chamam de comic strip. É uma tira que é uma base de personagens fixa e que, vivendo pela situação do dia, mas é uma situação que tem uma espécie de continuidade. Continuidade porque as personagens continuam de uns dias para os outros. Que é o que se passa nas tiras, nas chamadas tiras, aqui em Portugal chamam de tira cômica, os anglo-saxônicos chamam de comic strip. É difícil de explicar bem o que é isto. Está na fronteira entre a banda desenhada e o cartoon. O cartoon propriamente dito, que o Quino começou a fazer depois, ou que apostou, ficou a fazer 100% depois da Mafalda, é aquele cartoon mais editorial, aquele cartoon que normalmente até é de um tempo, só uma situação, às vezes com uma sequência, mas não é uma tira. Mas normalmente é de um tempo e esses cartoons são cartoons que muitos deles tornaram-se emblemáticos e todos nós conhecemos um ou outro, pelo menos, nos identificarmos com eles, com as pessoas que eles retratam, crítica social, crítica política. E ele fez muitos álbuns com esses cartoons, várias compilações, estamos a falar de centenas e centenas.

E foi alguém que ajudou também a abrir os caminhos para esse cartoon editorial que o Luís Afonso falava, sobre essa visão mais pessoal, sobre os problemas do mundo, menos entretenimento ou pelo menos o entretenimento associado à informação e também a alguma crítica social.

Atenção que na Mafalda já estamos a falar de crítica social. A Mafalda tinha uma diferença entre as outras comic strips que havia na altura, por exemplo, o Snoopy, os Peanuts, de Peanuts, que nós aqui em Portugal conhecíamos por Snoopy. Há uma grande diferença. O universo do Snoopy é um universo mais, apesar de terem diálogos sofisticados e com alguma profundidade, a crítica social não era tão vincada, ou não era de todo vincada como é na Mafalda. E mais, a Mafalda, a realidade da Argentina, da América do Sul, é uma realidade muito mais próxima à que nós vivíamos em Portugal e identificávamos mais aquelas situações. Aquilo era verosímil para nós. As Susaninhas, os Manelinhos, eram pessoas que nós conhecíamos da rua. Nós tínhamos amigos como aqueles. Pensar o que eles pensavam, preocupar-se com as coisas que eles se preocupavam.

Luís Afonso, muito rapidamente, não temos mais tempo, queria só perguntar-lhe se esses são amigos que ficam para a vida, no fundo.

As personagens da Mafalda?

Exatamente.

Sim. Isso sem dúvida. Sem dúvida, porque a nossa vida, quem lê a Mafalda e quem não conheça, a ler, vamos ganhar ali amigos e que nos vão acompanhar até ao fim das nossas vidas. Isso é garantido.