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Ana Jorge foi também ouvida por Marcelo Rebelo de Sousa. Para a ex-ministra, a situação está controlada em Portugal. Defende, por isso, a reabertura dos centros de saúde para atendimento presencial com o argumento de que é preciso pensar nos doentes que não estão infectados, mas que têm outros problemas. Precisamente para analisar a situação nos centros de saúde, temos agora ao telefone a presidente do Colégio de Medicina Geral e Familiar da Ordem dos Médicos. Isabel Santos, bom dia. Obrigada por estar conosco. Pode dizer-nos como é que estão os centros de saúde a funcionar nesta altura? Continuam, sobretudo, a trabalhar à distância nesta fase?

Bom dia, Carla. Os centros de saúde continuam a trabalhar, isso é importante que se diga. Continuam a trabalhar, o modelo é que é diferente. Existe uma grande sobrecarga sobre os centros de saúde e o seu modelo de trabalho foi alterado devido à necessidade de preservar a segurança dos profissionais e a segurança também dos utilizadores, dos utentes, dos doentes. Porque se os profissionais ficam doentes, as pessoas também não têm médico. Importa, nesta situação, que toda a gente quer ter mais cuidados porque necessita de mais cuidados, primeiro que nada, focar a atenção no combate à pandemia, nos cuidados de saúde primários, o que ainda não aconteceu. Os cuidados de saúde primários, é importante que se saiba, neste momento, estão a seguir 97% das pessoas que estão infectadas ou que têm suspeita de poderem estar infectadas. Grande parte do seu trabalho foi desviado para este sim. Logo, se grande parte do seu trabalho foi desviado para este sim, há outras partes do seu trabalho que eu considero, e todos os meus colegas consideram mais importantes, porque esta parte poderia ser feita por outras pessoas que não médicos, acaba por se ressentir. Estou a falar dos doentes não Covid. Dos nossos doentes. E os médicos de família estão muito preocupados, de facto, com estes doentes.

E sobre essa- Claro que sim.

Fala-se da reabertura dos centros de saúde. Os centros de saúde nunca estiveram fechados. Os centros de saúde estão é a trabalhar de outra forma. Esta palavra dá a sensação e cria a sensação de que nos centros de saúde as pessoas não estão a trabalhar, por exemplo, o que é errado.

Isso ficou claro. Foi criado um novo modelo que consiga proteger os profissionais de saúde e ao mesmo tempo dar resposta às necessidades provocadas pelos doentes com Covid-19. Isabel Santos.

Não é proteger os profissionais de saúde, é proteger a população.

Claro que sim. Estamos todos ligados nessa matéria. E ontem, Isabel Santos, a ministra da Saúde, foi mais clara ao dizer que os doentes não Covid vão ser encaminhados para o privado. Isso já devia ter acontecido há mais tempo? É esta a solução?

Eu acho que estamos na altura de todos nos unirmos na resolução de uma crise e de não criar problemas. Aprofundar divergências não me parece que seja o caminho certo. Eu acho que os centros de saúde têm capacidade de atender aos doentes não Covid. O que é necessário fazer? Vamos focar nisso. O que é necessário fazer? Em primeiro lugar, criar circuitos seguros de entrada e saída das pessoas na unidade, que isso não acontece em todas as unidades, porque não é possível, fisicamente não é possível. Não houve nunca, de facto, um apostar devidamente nos cuidados de saúde primários e agora lembramo-nos tanto da barba quanto do bigode. Mas é possível criar, tem que se assegurar que há entradas e saídas diferentes. É necessário assegurar que os profissionais têm material de segurança, têm as batas, têm luvas, têm máscaras. Não estou a dizer, não é preciso máscaras muito especiais. São as máscaras cirúrgicas. É preciso assegurar o mínimo de condições de segurança. É preciso que os centros de saúde sejam equipados com centrais telefónicas. As pessoas queixam-se e com toda a razão, todos nós sabemos que é extremamente difícil telefonar para um centro de saúde, mas não é porque os profissionais não estejam lá. É porque as chamadas não tocam. As pessoas têm a perceção que o telefone toca do outro lado. Não, o telefone não toca do outro lado, porque as poucas linhas telefónicas que existem, são mesmo muito poucas, estão afetos ao contacto dos médicos, enfermeiros, etc, com os outros profissionais. Os profissionais de saúde não podem continuar a fazer ou ter o seu tempo ocupado a fazer uma coisa que, se calhar, não sei se as pessoas não devem conhecer, que é o seguimento epidemiológico da população através de uma plataforma eletrónica, que é o Trace Covid. Para quem tem que telefonar todos os dias, independentemente das pessoas terem sintomas ou não terem sintomas. Essa tarefa tem que ser deslocada e tem que se investir também em contratar profissionais. Neste momento foram criadas as áreas dedicadas aos doentes respiratórios. Antes já havia as áreas dedicadas ao Covid. Os médicos do centro de saúde não podem tirá-los do centro de saúde para ir para outro sítio, porque se os tiram do centro de saúde para ir para outro sítio, não estão no centro de saúde, isso é óbvio. O que eu quero dizer é que parece-me, e parece-me com grande certeza, que os médicos de família devem tomar conta dos seus doentes, porque os seus doentes têm confiança, já os conhecem há muito tempo e não deveriam ser deslocalizados para outras unidades. Se calhar as outras unidades do serviço privado poderiam ajudar esta pandemia, nomeadamente os doentes Covid. E podem ser criadas unidades especiais, separadas para esses doentes, de forma que as unidades dos cuidados do Serviço Nacional de Saúde continuem a fazer aquilo que estavam a fazer anteriormente. Ou seja, não se pode querer que o Serviço Nacional de Saúde, agora, todo ele, sejam hospitais, sejam centros de saúde, se dediquem única e exclusivamente aos doentes Covid e passamos todos os outros doentes para o regime privado.