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Ontem à noite, Luís Marques Mendes avançava com números da Ordem dos Médicos, em parceria também com o Instituto Superior Técnico, um relatório que previa esse pico da pandemia para os dias entre 20 a 24 de janeiro. Falavam de 50 mil casos. São estas as previsões da Ordem?
Sim, essas previsões, que são feitas pelo Instituto Superior Técnico, juntamente com a Ordem dos Médicos, apontam um bocado nesse sentido, embora aquilo que tinha sido previsto na altura pelo Instituto Superior Técnico, é que nós chegássemos a cerca de 100 mil casos entre 20 e 24 de janeiro, que seria provavelmente a altura do pico, que aliás, se mantém que o pico seja nessa altura. Agora, nós neste momento, como sabe, estamos a ter uma taxa de positividade de testes a nível nacional que tem subido de forma muito brusca. Repare, nós tínhamos não há muito tempo atrás, 3,16% de testes positivos e neste momento, há dois dias, tínhamos 15,8% de testes positivos. O que significa que este valor sendo muito alto, assiste-se aqui um bocado a uma saturação do sistema de testagem. Portanto, há muita gente a fazer testes, há milhares de pessoas a fazer testes todos os dias, o que significa que o sistema de testagem começa também a falhar um bocado, até porque as pessoas começam a ficar muito tempo à espera. Há muita gente que teve contacto, eventualmente, com pessoas que chegaram positivas e que acaba por não fazer teste, ou eventualmente não está para estar à espera e tem um sintoma muito leve, está com um pinto no nariz, enfim, nem sequer sabe se é COVID ou não é COVID, e pode não fazer teste. O que significa que, na prática, aquele número de casos que tinha sido previsto pelo Instituto Superior Técnico, pode, em termos objetivos de testes de positivos, não chegar ao valor que estava inicialmente previsto e que se fique pelos cerca de 40, 50 mil nessa altura, entre 20 e 24 de janeiro.
Portanto, este é o valor que vai ser possível ter, tendo em conta o número de testes que vão ser feitos, mas na realidade, a situação em Portugal de casos positivos serão maiores.
Será maior. A situação de casos positivos está sempre maior do que aquela que está sendo conhecida.
Em relação aos internamentos e à pressão hospitalar, hoje, por exemplo, o boletim que acabou de sair há minutos indica que há mais 125 pessoas internadas nos hospitais portugueses desde ontem. Já ontem o aumento de internados tinha sido expressivo. Esta pressão hospitalar vai-se continuar a sentir?
Sim, é possível que nós cheguemos, no fim de janeiro, a cerca de 2500 doentes internados em camas, dos quais se poderá atingir um teto máximo de 225 a 240 em cuidados intensivos. Portanto, isto é previsão também com base nestes cálculos feitos pelo Instituto Superior Técnico.
Ainda assim, são números bastante diferentes daquilo que vimos o ano passado.
São números completamente diferentes. Isso tem a ver com dois motivos fundamentais. O primeiro motivo fundamental é a vacinação. A vacina é de facto eficaz e, portanto, diminui a gravidade da doença. Apesar de haver muito mais gente infetada, o número de pessoas que necessita de tratamento em internamento, seja em enfermaria, seja em cuidados intensivos, é claramente inferior e isso é um aspeto positivo. Para além disso, a variante Ómicron, aparentemente, aquilo que já é conhecido, é menos agressiva do que a variante Delta. E, portanto, junta-se aqui um efeito que é positivo, no bom sentido, em termos daquilo que é a gravidade da doença. Portanto, a doença é menos grave. Ainda assim, nós podemos vir a ter muita gente internada, que não exercendo uma pressão excessiva, como aconteceu há um ano nos internamentos em enfermaria e cuidados intensivos, exerce sempre alguma pressão. Porque se eu tiver 240 doentes em cuidados intensivos, são menos 240 camas de cuidados intensivos que eu tenho para tratar os outros doentes não-COVID. E repare que nós normalmente não temos as nossas camas de cuidados intensivos propriamente vazias. Nós vamos utilizando as camas de cuidados intensivos para tratar doentes graves, para fazer determinado tipo de intervenções cirúrgicas que se fazem diariamente, em que é necessário o doente estar, por exemplo, 24 ou 48 horas em cuidados intensivos. E, portanto, isto pode limitar-nos de alguma forma a nossa atividade. Mas nunca da forma que aconteceu há um ano, o que é um aspeto também positivo, mas que vai haver aqui alguma pressão sobre o serviço de saúde, é evidente que vai. Aliás, nos dias de hoje, como você acabou de dizer, e bem, hoje já foram mais não sei quantos doentes que são internados. E ontem já tinham sido não sei quantos. Portanto, o número de doentes internados está a aumentar e vai continuar a aumentar.
E os hospitais, a situação obviamente não é igual à do ano passado, mas os hospitais de alguma forma já estão mais precavidos para essa altura.
Sim, os hospitais já estão mais preparados, já estão também à espera que isso possa acontecer. Portanto, não são propriamente números secretos, números que vêm de vários sítios e que os vários matemáticos e as pessoas que fazem estes estudos epidemiológicos e que fazem estas previsões têm conhecimento. Portanto, pode haver aqui uma pequena variação do Instituto Superior Técnico, por exemplo, para aquilo que são os técnicos que trabalham lá com o Infarmed, mas no fundo os números não são muito diferentes, eles são parecidos. E portanto, estas previsões são previsões que, por um lado nos diz aquilo que nós estamos à espera e temos aqui a hipótese de antecipar algumas medidas no sentido de tentar que estes números desçam. Repare que quando eu sei que vou ter um número excessivo de casos, o que eu tenho que fazer? O que nós temos que fazer neste momento? Rita, é aconselhar as pessoas a andarem de máscara. Se andarem de máscara, as pessoas estão protegidas, podem não estar 100% protegidas, mas estão muito mais protegidas. É as pessoas fazerem a vacina, serem vacinadas. É fundamental que as pessoas, de facto, sejam vacinadas, porque a dose de reforço dá uma proteção elevadíssima contra a doença grave e nós, neste momento, temos de jogar com estas duas coisas. Obviamente, também aquilo que a DGS diz, lavar as mãos frequentemente, porque se estivermos com o vírus nas mãos e lavarmos durante 20 minutos com água e sabão, os vírus desaparecem. Ou com uma solução alcoólica. Esse tipo de cuidados as pessoas podem e devem ter, porque quanto menos pessoas nós tivermos a serem infectadas com o vírus, menos doentes vamos ter internados. É fundamental que as pessoas também tenham consciência disso e cumpram estas regras que a Direção-Geral de Saúde tem recomendado. Porque, por exemplo, nos óbitos acontece mais ou menos a mesma coisa. Os óbitos também vão aumentar, vão aumentar mais um bocadinho do que aquilo que neste momento existe e é possível que se chegue a cerca de 35, 40 óbitos por dia, numa média a sete dias, lá mais para o fim de janeiro.
Em relação a essa altura do final de janeiro, temos a questão das eleições, temos a questão das pessoas que estarão em isolamento. Há a previsão para essa altura, de quantas pessoas poderão estar em isolamento?
A previsão que está feita pelo Instituto Superior Técnico para esta altura é que, das pessoas que são potenciais eleitores, ou seja, descontando as pessoas que estejam em isolamento e que têm menos de 18 anos, essas não votam. Potenciais eleitores. As pessoas que são os abstencionistas prováveis, nós sabemos que temos uma probabilidade de abstenção de X%, mais ou menos. Não é um número exato, mas é um número aproximado. E também aquelas pessoas que estando em isolamento, optam imediatamente por fazer o voto antecipado, até quando o puderem fazer, que a partir de determinada altura, depois também já não se pode fazer. É previsível que o número se situe entre os 180 mil e os 250 mil potenciais eleitores. Isto tem um intervalo de confiança que é muito bom, em termos práticos. O número potencial de eleitores deverá andar à volta destes números, entre 180 mil e 250 mil. O que é que acontece? Nós vamos ter aqui, de facto, problemas naquilo que tem a ver com os direitos das pessoas. As pessoas têm direito ao voto, o direito ao voto é um direito inalienável, é um direito que não é transacionável, nem transferível, é um direito fundamental, tal como são direitos fundamentais os direitos humanos, que é o direito à vida e o direito à saúde, que são direitos também inalienáveis, não transferíveis ou não transacionáveis, e que também são importantes. Na conjugação destes direitos, o que os nossos responsáveis políticos, a Comissão Nacional de Eleições, o Governo, os deputados que ainda estão em funções, porque há uma comissão permanente da Assembleia da República a funcionar, o que podem e devem fazer é garantir, juntamente com a Direção-Geral de Saúde, que é o órgão técnico, digamos assim, que estas pessoas possam votar em segurança. Ultrapassado aquilo que, na minha opinião, seria o ideal, que era estas pessoas fazerem voto eletrónico, no conforto do seu lar, recebiam o voto eletrónico. Funciona muito bem nas instituições em que se aplica. A Ordem dos Médicos tem voto eletrónico, é uma maravilha, é fantástico. E as pessoas podem votar como se estivessem a votar presencialmente, pôr uma cruz no partido político que querem votar. E é um voto que dá uma segurança superior ao próprio voto físico. Mas ultrapassada esta situação, porque não foi atempadamente prevista nem até legislada, quem tem esta responsabilidade vai ter que encontrar uma forma de que estas pessoas possam votar em segurança. Em segurança são os órgãos competentes nesta matéria, obviamente, a Direção-Geral de Saúde, porque a Direção-Geral de Saúde vai ter que definir as regras de como é que estas pessoas podem votar, no sentido de que as pessoas que estão presentes estejam protegidas, nomeadamente quem está nas mesas de voto. Ou seja, na prática, isto vai passar por um conjunto de coisas, digo eu, estou aqui agora a conjeturar, porque, de facto, não é o órgão dos médicos que decide, pode dar contributos se for pedido. Vamos ter que ter aqui um horário especial para essas pessoas votarem e em que será altamente recomendável que as pessoas votem neste período, um período que terá que ser definido de acordo com todos os partidos políticos e pela Comissão Nacional de Eleições, que é para não haver ajuntamentos grandes de pessoas não infetadas com pessoas infetadas. Este é o primeiro aspeto. Segundo aspeto, as pessoas têm que estar devidamente protegidas, têm que estar com uma máscara FFP2, que é uma proteção superior à máscara cirúrgica, claramente, e com uma viseira adicional. Isto dá uma proteção muito boa. E têm que estar, as pessoas que forem votar e as pessoas que também estiverem nas respetivas mesas de voto. Levarem a sua própria esferográfica, entre outras regras.
Também já foi garantida a dose de reforço para as pessoas que estarão a trabalhar nas mesas.
Isso é fundamental, mas isso já está a ser feito.
Já foi garantido.
Isso já está a ser feito.
Exatamente.
Isso já começou e tem começado, de facto, cedo. Eu já não vou falar essa parte, porque essa parte já foi feita. Definindo essas regras todas e porque no dia 30, atenção a isto que eu vou dizer, uma grande parte das pessoas já teve contacto com o vírus ou já está vacinada com a dose de reforço. Aliás, eu acho que o ponto mais importante a assinalar neste momento é que toda a população residente em Portugal, ou praticamente toda, terá algum tipo de imunidade após esta vacapandemia. Claro que a vacapandemia não acabará no dia 30 de janeiro, mas já estará numa fase em que as coisas já estão a acontecer. E é possível que nesta altura, uma grande parte das pessoas, a imensa maioria, já tenha tomado a dose de reforço. Por isso é que nós temos que continuar a acelerar o processo de vacinação, é fundamental. E uma outra parte já teve contacto com o vírus, teve infetado, esteve positivo. E, portanto, também já tem anticorpos, o que significa que há aqui também mais alguma segurança ao próprio processo de votação destes cerca de 180 mil a 250 mil que estejam positivos, com sintomas ou sem sintomas, e que estejam em casa, que estejam em isolamento.