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Durante uma audição na Assembleia da República, Marta Temido disse que uma das soluções para combater a falta de médicos é contratar profissionais mais resilientes. Estas declarações não têm sido bem aceites por parte dos profissionais de saúde.
Filipe, essas declarações são uma ofensa àquele que tem sido a enorme capacidade de resiliência dos médicos. A senhora ministra vai ter que esclarecer o que ela quis dizer, porque os médicos são os profissionais que mais milhões de horas extraordinárias fazem. Basta fazer a contabilidade. Olham para os números, para ver quantos milhões de horas extraordinárias saem de 2016, 2017, 2018, 2019, 2020, etc. Só em 2020 foram oito milhões de horas extraordinárias. Com oito milhões de horas extraordinárias, dava para contratar milhares de médicos com contrato de 40 horas semanais. As pessoas trabalham muito mais do que aquilo que têm efectivamente de trabalhar. E mais, mesmo não cumprindo aquilo que está definido pelo trabalho extraordinário. Como sabe, os médicos e outros profissionais não devem fazer mais de 150 horas extraordinárias por ano. E por quê? Por que as estruturas de trabalho definem que uma pessoa não deve fazer mais de 150 horas extraordinárias? Porque as horas extraordinárias não são para todos os dias você estar de serviço além daquilo que é o seu horário. Não são para você estar a ser solicitada fim de semana atrás de fim de semana. Não são para você estar a ser solicitada depois de fazer 12 horas de urgência, faz mais 12, faz 24 seguidas. E se não aparecer ninguém, ainda faz mais 12, faz 36. Por quê? Porque temos que ter muita atenção à segurança. E a segurança dos doentes implica que as horas extraordinárias possam ser realizadas, mas com alguma parcimónia e durante tempos limitados. Por isso é que existe um limite para as horas extraordinárias, para nós e para as outras pessoas que trabalham. Ora, muitos médicos ultrapassam claramente este número de horas extraordinárias, porque a senhora Ministra da Saúde nunca soube, até agora, resolver o problema da falta de recursos humanos no Serviço Nacional de Saúde e lança mais este mote na Comissão Parlamentar da Saúde. E aqui diz uma coisa que, na minha opinião, é de uma gravidade imensa. Além desta questão da resiliência, como se porventura existisse alguma profissão mais resiliente do que propriamente os médicos. Se os médicos levarem isto à letra, que começarem a cumprir a lei, o serviço cai, o Serviço Nacional de Saúde. E a responsabilidade é da ministra. Mais ninguém. É óbvio, as pessoas têm que ser responsáveis por aquilo que dizem. Depois, o segundo aspecto. Ela abordou levemente a questão da competência técnica. Mas para a ministra, há competência técnica equalizante entre os médicos em Portugal? É que também se depreende isto das palavras que ela diz na Comissão Parlamentar da Saúde. Isto, na nossa opinião, é inqualificável. Eu já nem acho que isto precise propriamente de um pedido de desculpas. Isto é o pensamento desta ministra da Saúde. Esta ministra da Saúde não gosta de médicos e quer que os médicos sejam escravos do sistema. Nós não aceitamos isso.
E portanto, uma vez que o pedido de desculpas não seria a melhor opção, qual é que acha que seria?
Eu nem vou dizer o pedido de desculpas. Ela disse aquilo que queria dizer. Há uma incompatibilidade entre a ministra e os médicos. É isso que a senhora ministra está a fazer, responsabilidade totalmente dela. Porque ninguém aceita isso. Vou lhe dizer uma coisa: eu nunca recebi tantas mensagens de médicos. É impressionante. Médicos mais novos, médicos mais velhos. A ministra conseguiu unir os médicos todos. Aliás, eu dou-lhe os parabéns por causa disso. Isto é uma situação totalmente inqualificável. Num país normal, uma situação destas tinha um destino.
E qual seria?
Se calhar arranjava-se outro ministro. Porque numa situação destas, em que claramente a ministra mostra uma grande incompatibilidade com os médicos, e os médicos são a peça fundamental do Serviço Nacional de Saúde. Fundamental! Sem os médicos, o Serviço Nacional de Saúde desaparece. Está criada aqui uma situação complicada. Agora, uma questão é certa: quando eu pretendo captar médicos para o Serviço Nacional de Saúde, eu tenho que fazer isso mesmo. Tenho que os motivar, tenho que os respeitar, tenho que tentar de alguma forma cativá-los. Ora, se eu não o faço e agravo a situação cada vez que falo, ou seja, em vez de fazer isso, faço exatamente o contrário, estou lhes a dizer: "Não, temos é que ter profissionais resilientes". Como se os profissionais não fossem resilientes. Repare que ela referiu-se isso também relativamente a Setúbal. Os médicos de Setúbal fazem imensas horas extraordinárias. Os médicos de Setúbal estão a trabalhar em condições totalmente inaceitáveis. E é assim há 20 anos. A senhora ministra o que devia fazer era ir visitar o hospital de Setúbal. Ela nunca foi ao hospital de Setúbal falar com os médicos, que é uma coisa que ninguém também compreende.
Outra das declarações também a propósito do hospital de Setúbal, que foram ditas por Marta Temido, é que se se estiver sempre a enaltecer a falta de condições, não se conseguem contratar mais profissionais.
O ideal é assim As pessoas não podem dizer aquilo que está mal? Não, as pessoas têm a obrigação de o fazer para proteger os doentes. Setúbal é um case study e vale a pena analisá-lo ponto a ponto. O hospital de Setúbal foi o hospital que eu mais vezes visitei. Eu já fui, seguramente, visitar Setúbal por causa de problemas, para tentar ajudar, pelo menos umas sete vezes. A senhora ministra, que eu saiba, daquilo que me foi comunicado, não foi desmentido, não foi visitar nenhuma vez. Agora veja bem isto: Setúbal está com tudo perfeitamente alinhado pelos médicos de Setúbal. Os médicos de Setúbal apresentaram aquilo que eram os problemas do hospital de Setúbal antes de o fazerem publicamente. Apresentaram às autoridades competentes, pediram ajuda à Ordem, pediram ajuda aos sindicatos, pediram ajuda à Assembleia da República. Começaram pela administração do hospital. Eu cheguei a promover uma reunião com os médicos de Setúbal, com a administração e com o secretário de Estado Adjunto e da Saúde, e posso falar com ele que ele confirma exatamente isto, para tentar resolver a situação, acalmar os ânimos, tentarmos resolver o problema e depois, obviamente, fazer também aquilo que é necessário fazer, que é reforçar a capacidade de resposta do hospital de Setúbal, que é aquilo que nunca foi feito. Perante isto tudo, nada foi feito. E quando você está numa situação destas, isso é muito complicado. Por quê? Porque as pessoas vão tendo esperança, mas a partir de certa altura já não acreditam. Quando os médicos de Setúbal decidem abandonar o Serviço Nacional de Saúde, sair do Serviço Nacional de Saúde, isto já é mais do que um grito de alerta. Eu estaria preocupado em verificar que os médicos já não ocupam vagas. Não há nada pior que isto. Uma coisa é os médicos fazerem greve, protestarem, metirem-se num caso de direção, outra coisa é as pessoas saírem. As pessoas já não acreditam no sistema. Isto é muito grave.