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Para começar, acho que estas declarações do Papa Francisco são pouco surpreendentes, não só pela pessoa que ele é e as coisas que ele tem dito no passado, mas porque correspondem essencialmente àquilo que diz a doutrina católica sobre a questão da homossexualidade. Ou seja, que existe um aspeto pecaminoso na prática de atos homossexuais, mas o ser-se homossexual não é pecado, é uma condição, a prática dos atos sim, e muito menos deve ser considerado crime ou ser punido como crime, sendo que isso provavelmente, na esmagadora maioria dos casos, seria pior e menos que o SNEP. Ou seja, as pessoas que sentem atração por pessoas do mesmo sexo têm a mesma dignidade que todas as outras e devem ser tratadas como tal, e castigá-las penalmente, através dos órgãos do Estado, não contribui em nada para essa dignificação. Eu acho que há aqui um aspeto importante a ter em conta. Nós estamos numa fase em que o mundo ocidental está cada vez mais polarizado sobre estes assuntos, este e outros. Os assuntos que têm muito a ver com estas questões da ideologia do gênero e da autodeterminação do gênero, etc. Temos ouvido falar muito disso. E o facto de se ter avançado muito no sentido da liberalização destes conceitos no mundo ocidental está a provocar um efeito contrário entre muita gente. E vemos isso na ascensão de muitos movimentos populistas e vemos isso já em vários países, os efeitos negativos que isso está a ter. A Igreja, por mais que muitas pessoas que se consideram católicas possam cair na tentação de embarcar nesses movimentos populistas que surgem como reação a esta liberalização, a Igreja está a avisar, e o Papa está aqui também a contribuir para isso, que essa não é a solução. Ou seja, a Igreja não tem que abraçar um extremo só porque o outro extremo está a ter notáveis avanços. A resposta para estas questões que vão surgindo da ideologia do gênero, da fluidez de gênero, da ideia de que não se pode falar em homens e mulheres, porque cada um decide o que é que é, a resposta não passa pela repressão de tudo o que possa desviar da moral sexual tradicional católica, muito menos da repressão violenta através, por exemplo, da criminalização. Portanto, isso é um aviso, em grande parte, um recado interno. Parece estar destinado, neste caso, aos bispos que em alguns países onde estas leis existem, defendem as mesmas. E o Papa está aqui, no fundo, a enfatizar aquilo que é a principal mensagem da Igreja Católica neste campo, que é a dignidade da pessoa. Toda a gente tem dignidade, as pessoas não perdem a dignidade por abraçarem causas que são contrárias àquilo que a Igreja ensina, muito menos por sofrerem de condições que as colocam fora daquilo que é a moral sexual tradicional católica. Portanto, a Igreja não é chamada a abençoar e a promover esses estilos de vida ou essas condições, mas também não é chamada a lançar pedras, para usar aqui uma comparação mais bíblica. Portanto, acho que no fundo é isso que o Papa está a dizer. Não foram declarações que me tenham surpreendido de todo. Percebo que tenham algum impacto mediático e acho que esse impacto serve muito bem como recado interno para muita gente que se está a deixar levar por uma reação contra esta tendência atual.
O impacto vai sempre mais para o Papa se estar a pronunciar sobre a homossexualidade como um pecado. Quando o Papa inclui isso no raciocínio do apelo à descriminalização da homossexualidade em muitos países...
Certo, que a mensagem não se perde, não é?
Exatamente.
Ok, muito bem. Das declarações que o Papa fez, é evidente que alguns irão pegar pelo fato de o Papa ter dito que a homossexualidade é pecado, claramente está se referindo à prática da homossexualidade, que é isso que a Igreja ensina e não à condição de ser homossexual, de ter atração por pessoas do mesmo sexo. Portanto, isso não é surpreendente. Isso está escrito preto no branco no catecismo da Igreja Católica, faz parte da doutrina católica desde sempre e vem no seguimento da ideia que a Igreja tem para a sexualidade humana e que acredita ser a manifestação da vontade de Deus para as pessoas. Portanto, aí nada de novo. Agora, o importante aqui, penso eu, não é necessariamente identificar uma coisa como pecado, porque isso, como disse, não é nada de novo. A questão aqui é o que fazer com o pecador. O que fazer com a pessoa que está nesta condição. Nós podemos olhar para ela como inimigo, como alguém que está a tentar destruir o nosso modo de vida, como alguém que está a minar a civilização, etc. Ou podemos olhar para ela como uma pessoa que está ferida pelas circunstâncias do mundo, que está a precisar de ajuda para poder mudar a sua vida e conhecer uma outra verdade, conhecer a verdade de Cristo e poder aproximar-se de Cristo. E aqui a Igreja tendo esta visão para a pessoa, e aqui o Papa Francisco aplica-se aqui como se aplica a todo o resto destas questões sociais Na ideia que o Papa Francisco tem insistido muito da Igreja como hospital de campanha, portanto não como uma facção numa guerra cultural, mas como hospital de campanha que vai tratar as feridas do mundo e vai à procura daqueles que precisam de ajuda. Aqui aplica-se uma regra que é: cada pessoa está na sua circunstância. E não vale a pena estar aqui a falar destas pessoas como membros de um grupo sem identidade, como membros de uma facção. Cada uma delas é alguém a quem a Igreja deve estender a mão e convidar a vir conhecer Cristo e a fazer uma mudança de vida. Essa mudança de vida não tem nada a ver com terapias de conversão, não tem nada a ver com rejeição daquilo que as pessoas são, tem a ver com uma conversão interior que permita à pessoa conhecer o amor de Deus. E isso, só quem acompanha essas pessoas, e essa pessoa em particular, é que sabe o seu ponto de partida, onde poderá chegar, onde quer chegar, onde deve chegar. E portanto, é um acompanhamento pessoal que tem que ser feito com a maior das caridades e sempre com o maior respeito pela dignidade da pessoa. Uma dignidade que é dada por Deus e que não é afetada por nada, nem pelas piores escolhas que a pessoa possa fazer, muito menos por coisas que a pessoa não escolhe, mas que podem afetá-la muito profundamente. Portanto, eu acho que esta tem sido a linha do Papa. É preciso alguma má vontade ou simples iliteracia religiosa para poder olhar para estas declarações do Papa e achar que ele está a ser malévolo ao dizer que a prática homossexual, aos olhos da Igreja, é pecado.
Ou seja, não há aqui um descuido do Papa ao tentar estender a mão à comunidade LGBT, acabando por funcionar ao contrário.
Por afastar?
Sim.
Eu acho que não. Isto é um dos problemas. Nós falamos na comunidade LGBT como se fosse uma massa uniforme e todos pensassem e reagissem da mesma maneira. Isso acho que tem sido, se calhar, um dos efeitos mais perniciosos destas guerras culturais em que nos vemos envolvidos e que são promovidos tanto de um lado como do outro, é tratarmos as pessoas como se não fossem indivíduos, como se tivessem que pensar como o seu grupo. A comunidade LGBT é composta por pessoas de todo o género e de diferentes tamanhos, raças, feitios, credos, tudo. E portanto, o que alguns vão pensar, não sei. É evidente que há alguns que têm um ressentimento tão grande e um preconceito tão grande contra a Igreja, que não aceitariam nunca nada que não fosse o Papa simplesmente abrir os braços e dizer: "Venham todos, que está tudo bem e abençoamos tudo o que vocês pensam e querem fazer". E o Papa nunca vai fazer isso, nem a Igreja Católica nunca vai fazer isso. Portanto, essas pessoas nunca estarão satisfeitas. Agora, há os outros, todos os que tenham boa vontade e que tenham vontade de diálogo e de evitar confronto, que sei que socialmente é uma coisa que está a polarizar ainda mais e a prejudicar a nossa sociedade, eu pediria, ou aconselharia, aliás, que vejam a intenção com que o Papa está a falar. O Papa foi questionado sobre uma coisa muito específica, que são as leis, que penalizam e criminalizam as práticas homossexuais. Disse que essas leis não fazem sentido, falou da dignidade indelével de todas as pessoas, incluindo as pessoas homossexuais, e é a partir daí que nós temos que tentar dialogar no reconhecimento dessa dignidade. E, portanto, acho que o Papa merece aqui todo o benefício da dúvida. Ele está a falar, não está a ler um texto. Eu até referi isso no início da minha resposta. Ele às tantas até diz: "Homossexualidade não é crime. Sim, é pecado, mas não é crime". E quando ele diz a homossexualidade, isso até pode ser entendido como sendo a condição de se ser homossexual, mas isso não é claramente o que ele está a dizer. O que ele está a dizer é as práticas, os atos homossexuais, que isso também é uma distinção que faz confusão a muita gente, mas que obviamente é uma distinção. Portanto, nesse sentido, ele até se terá enganado a falar, mas a intenção dele parece-me muito clara. Alguns, se calhar, vão se sentir ofendidos por estas declarações. Isso será surpreendente e, se calhar, vontade de se sentir ofendido, porque o Papa não está aqui a dizer nada de novo. Mas penso que este Papa e a própria Igreja, em geral, têm dado passos no sentido de promover e de olhar para a dignidade de todas as pessoas nesta situação e de encorajar e apelar à defesa dessa dignidade por parte da sociedade em geral. E, portanto, merece aqui esse benefício da dúvida e que as pessoas dialoguem com abertura de espírito e não com sete pedras na mão. Acho que é isso que a Igreja está a pedir que se faça e, para bem de toda a sociedade, acho que é isso que se deve fazer.