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Começava por lhe perguntar sobre aquilo que foi antes do processo de decisão por si só, mas aquilo que foram estas declarações de Jerónimo de Sousa e as razões que apontou para a mudança. Que mensagem interpreta do ainda secretário-geral?
As razões parecem perfeitamente atendíveis, atendendo até, desde logo, à idade de Jerónimo de Sousa e à situação de saúde. Portanto, em relação a isso, não tenho muito a dizer. Em relação à mensagem, parece-me que houve essencialmente uma preocupação de garantir a continuidade. Isso foi bastante claro, quer nas prioridades que na intervenção inicial Jerónimo de Sousa elencou e que foram uma espécie de resumo das bandeiras praticamente de sempre, ou pelo menos das décadas recentes do PCP. Foi ali quase o elencar de uma lista de compras, digamos assim, dos itens que estão habitualmente presentes no discurso do PCP. E pareceu-me que isso não terá sido só para aproveitar mais uma oportunidade para repetir esses pontos, terá sido para, neste momento de mudança de liderança, frisar que no essencial nada muda. Há uma manutenção da ortodoxia comunista e a mensagem do ponto de vista das prioridades reflete isso. E parece-me que isso está também refletido no próprio perfil do novo líder, em que me parece ter havido muito mais uma preocupação de garantir um perfil, também ele, de continuidade e de manutenção da tal ortodoxia comunista do que preocupações, por exemplo, do ponto de vista de notoriedade ou de experiência comunicacional que o novo líder notoriamente não tem. Como Jerónimo de Sousa referiu, o próprio Jerónimo também não tinha quando assumiu funções, isso é verdade. Mas ainda assim, parece-me claro que há esta nota de continuidade e de manutenção da ortodoxia.
Há esta questão, a Zita se abre há pouco, estava aqui a apontar isso do PCP ter admitido que queria controlar os sindicatos a partir de agora. A escolha também do nome de Paulo Raimundo, alguém muito ligado à organização sindical, indica esse caminho que o PCP quer utilizar os sindicatos como uma plataforma para tentar recuperar resultados eleitorais?
Sim, mas eu iria talvez um pouco mais longe. Eu acho que nota que o PCP está com medo de perder o controle sobre os sindicatos. Ou seja, os sindicatos têm sido desde sempre, no regime democrático, um elemento importante da ação do PCP. Seja pela ação direta sindical de greves, etc, seja como elementos de mobilização para o Partido Comunista. E o Partido Comunista enfrenta nessa frente dois problemas: um que é de mais longo prazo e que já decorre há vários anos, que é uma desmobilização e uma redução do número de sindicalizados, da própria atividade e influência social dos sindicatos. E por outro lado, mais recentemente, a aposta do próprio Chega em algumas áreas específicas, mas importantes do movimento sindical, de procurar ganhar espaço com uma energia que, nomeadamente a UGT nunca teve. E um potencial de mobilização a nível de base para implemento de algumas atividades e algumas classes que poderá ser também ele próprio uma ameaça para o PCP. Nesse sentido, parece-me que o perfil de Paulo Raimundo e a escolha também vão no sentido não só de valorizar essa base sindical, mas de sinalizar uma preocupação séria por parte da elite dirigente comunista em percepcionar esse espaço sindical ameaçado, repito, não só pela tal tendência de desmobilização e dessindicalização que já se verifica há vários anos, como pela entrada nesse segmento também pela direita do Chega.
E há aqui alguma vantagem no facto de Paulo Raimundo ser desconhecido? Ou seja, o facto que vamos conhecer de Paulo Raimundo já vai ser quase exclusivamente enquanto secretário-geral, visto que não tem esse lastro de intervenção pública. Até Jerónimo de Sousa referiu que só tinha intervindo no Congresso e também no comício de comemoração dos 101 anos. Portanto, há aqui quase um desconhecimento que lhe pode ser vantajoso ou não para criar esta imagem de secretário-geral?
Eu não diria que será vantajoso, mas também não vejo que o desconhecimento seja um problema tão grande como nestes momentos muitas vezes se adianta. Estava a pensar, nomeadamente num outro exemplo, no caso da Iniciativa Liberal. Aliás, o PCP é muito mais eficiente a trocar a liderança do que a Iniciativa Liberal. Foi um processo que ficou imediatamente resolvido. Mas aí também se discute a questão de como é que a Iniciativa Liberal vai, agora tendo um novo líder que não será conhecido e que sendo João Cotrim Figueiredo, tendo alguma notoriedade, o que é que vai acontecer? E também é uma situação similar. João Cotrim de Figueiredo também tinha muito baixa notoriedade, como Jerónimo de Sousa tinha muito baixa notoriedade quando foi para o cargo. Os partidos também têm figuras mais mediáticas e outras menos mediáticas, mas geralmente também não deve ser o único critério, não faria sentido a notoriedade pré-liderança. Poderá ter essa vantagem Paulo Raimundo de entrar mais ou menos com uma ficha limpa, digamos assim. E do próprio perfil de vida ter sido escolhido, é um perfil muito ligado desde sempre ao PCP. Ter sido escolhido também tendo em conta essa dimensão. Claro que não me parecendo que a baixa notoriedade seja algo completamente impeditivo, obviamente que é um desafio adicional, porque há uma baixa experiência em termos de comunicação, em termos de exposição pública e há esse caminho de notoriedade que tem que ser conquistado e tem que ser conquistado em circunstâncias, e aqui julgo que o paralelo com Jerónimo de Sousa já não se aplica, as circunstâncias hoje para o PCP são muito mais difíceis, muito mais desafiantes Quer em termos políticos, quer em termos mediáticos, quer até em termos da conjuntura internacional. Recordo a muito difícil posição do PCP no contexto da invasão russa da Ucrânia, por exemplo. O tal desafio do Chega em algumas áreas que tradicionalmente também eram do PCP, a herança ainda da geringonça que levou ao muito mau resultado eleitoral do PCP. Portanto, o desafio para o novo líder é maior e nesse sentido, não tanto pela baixa notoriedade à partida, mas por as condições serem hoje mais difíceis para o próprio Partido Comunista e fosse quem fosse o líder. Esse desafio que Paulo Raimundo enfrenta, eu diria, é um desafio de magnitude superior ao que Jerónimo de Sousa enfrentou já lá vão quase duas décadas.
E por ser um secretário-geral mais novo, é a pensar no futuro ou por suceder a uma liderança de 18 anos, pode ser um secretário-geral de transição?
O que a história do PCP nos demonstra é que, salvo algum acontecimento excepcional, a aposta tende a não ser em figuras de transição. Portanto, eu olhando para o perfil e tentando perceber qual foi a lógica subjacente à escolha, como eu referi no início, a tal lógica de continuidade, manutenção da ortodoxia, eu apostaria mais em que tudo correndo normalmente, será um secretário-geral para durar, salvo algum evento excepcional. Em relação à idade, Portugal é um país, infelizmente, cada vez mais envelhecido, mas 46 anos não me parece que seja propriamente o perfil de um jovem. Portanto, é uma figura obviamente mais jovem do que Jerónimo de Sousa, é de uma geração diferente, mas parece-me que é alguém que, repito, correndo as coisas normalmente, poderá ser um secretário-geral que ao invés de ser de transição, será uma figura para ficar a mais médio e longo prazo na liderança. Acho que aqui a principal incógnita é mesmo como é que o PCP, nestas circunstâncias, que se calhar são as circunstâncias mais desafiantes para o PCP desde o 25 de Abril, e em que certa forma o PCP luta até pela sua própria sobrevivência enquanto partido politicamente relevante. Tal conjunto de variáveis muito difíceis, a herança da geringonça, a conjuntura internacional e o posicionamento face à Rússia, o desafio do Chega, etc. Como é que a nova liderança vai conseguir responder a esses desafios, sendo que não parece que se as coisas, enfim, se o PCP continuar em declínio, certamente que a culpa não será exclusivamente de Paulo Raimundo, mas é possível que Paulo Raimundo tenha dificuldade em inverter essa trajetória de declínio e esse parece-me o principal desafio para o novo secretário-geral.