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Junta-se agora a nós Jaime Nina, infectologista do Hospital Egas Moniz, e também professor do Instituto de Higiene e Medicina Tropical. Antes de mais, obrigado por esta disponibilidade em estar aqui no Jornal Observador. Olhando para este plano outono-inverno, que ainda não está totalmente fechado, conhecemos já as principais ideias do governo. Do que já sabemos, qual é a avaliação que faz?

Este é um plano com 58 páginas densas, portanto, tem muito que se diga. Tem muita coisa boa. Antes de entrar nos pormenores, eu diria que tem dois grandes defeitos. O primeiro é aparecer agora. Isto devia ter aparecido em junho ou julho. Pode-se afirmar que hoje ainda é verão, portanto o outono só começa amanhã. De qualquer forma, se o plano é para ser outono, é para ser discutido, que isto ainda nem é um plano, é uma proposta de plano. Chegou tarde. Depois disso, a segunda das minhas observações gerais é que ele está cheio de boas intenções. Agora, medidas concretas são muito poucas, e que, capítulo após capítulo, remete para decisões posteriores e para regulamentos posteriores.

Quais é que são as medidas que já vão surgindo neste documento, que lhe suscitam mais dúvidas? Ou mais preocupação, neste caso, por exemplo, a colocação de doentes Covid numa sala de espera com outros doentes com problemas respiratórios. Isto é uma situação complicada.

Não é bem isso que ele diz. Ele diz é que separar os doentes que não têm queixas respiratórias nenhumas daqueles que têm queixas respiratórias, e dentro das queixas respiratórias, tentar separar os de Covid.

E há condições para isso nos hospitais?

Nuns sim, noutros não. Isto tem quantidade de propostas. Uma das propostas que está é aquilo que a gente falou na introdução, fazer hospitais Covid free, portanto, hospitais onde a partida se sabe que não vai haver hipótese de fazer diagnóstico Covid e, portanto, os doentes com queixas respiratórias são encaminhados para outro lado, o que simplifica a abordagem dos outros. Se a pessoa partiu uma perna, se a pessoa vai ao hospital com uma dor no peito súbita, com hipótese de infarto, não faz sentido nenhum estar a fazer todo aquele protocolo muito pesado que neste momento se tem em vigor para excluir o Covid. Portanto, isso é um dos pontos positivos do plano. O plano está cheio de pontos positivos. O facto de ter aparecido tarde, isto foi bem pensado e foi bem madurado, e talvez por isso é que se atrasou tanto a sua saída. Portanto, há coisas positivas. Eu fiquei um bocadinho frustrado pelas coisas que não estão no plano. Por exemplo, nesta altura da estação, eu estaria à espera que fosse dito que se ia multiplicar por 10, ou por 20, ou por 50 o número de testes. Isso não está dito. É apenas dito que se vai tentar aumentar o número de testes. E Portugal, aliás, a Europa em geral, está a fazer muito poucos testes.

Ainda assim, são muitos os casos que vão surgindo. Se tivéssemos mais testes, eventualmente-

São muitos casos e quantos mais testes fizermos, mais casos positivos vão aparecendo. Portanto, quando se fazem mais testes em pessoas com menos sintomas, começam a aparecer casos menos graves. Portanto, uma parte do aumento de casos que tem vindo em crescendo deve-se a fazer-se mais testes. Isso é positivo, o facto de apanharem mais casos. Mas não é só isso. Há um aumento da incidência, ou seja, do aumento da circulação do vírus. Isso não se vê tanto no número de testes, como é muito influenciado pelo número de testes que se faz, mas vê-se pelo número de mortes. As pessoas que morrem de Covid, morreram mesmo, não há dúvida sobre isso e não tem nada a ver com os testes. Portanto, o haver um aumento do número de mortes regular desde há um mês a esta parte, é muito mau sinal.

Os números que nós temos agora, que têm vindo a lume, que têm sido agora revelados, revelam uma maior incidência nos casos de Covid em pessoas mais novas, ao contrário do que acontecia em março.

Pois, isto vai à suposta de fazer um bocadinho. Está-se a fazer mais testes e, portanto, apanha-se casos mais leves, ou seja, em pessoas mais novas. Covid continua a ser grave em doentes idosos. Se nós virmos o número de pessoas idosas que têm testes positivos, ou seja, as que morrem ou as que exigem cuidados intensivos, não houve grande oscilação. Está a haver proporcionalmente menos casos em idosos, porque aumentou muito os que não são idosos e, portanto, aumentou os menos graves. À partida, isso é uma boa notícia. Mas voltando àquilo que eu estava a dizer há bocadinho, Portugal está a fazer muito poucos testes. Isto é verdade para toda a Europa, não é só Portugal. Por exemplo, se for ao site da Organização Mundial de Saúde, comparando os testes que se fazem na Europa com os testes que se fazem no Oriente, é flagrante. Por exemplo, Singapura, que tem uma população um bocadinho mais pequena do que Portugal, não muito, tem o número de casos com confirmação positiva quase igual a Portugal. Temos ambos à roda de 60 mil positivos até ao momento. A grande diferença é que nós temos 1900 mortos, eles têm 27. Não foi engano, 27. Não é 27 mil, é 27 mortos. Como é que eles conseguem ter 50 vezes menos mortos por caso que nós temos? A outra grande diferença é o número de testes que eles fazem. Eles estão a chegar aos 100 milhões de testes. Nós até agora ainda não chegamos a dois milhões de testes. Eles estão a apanhar as pessoas doentes muito cedo.

Estes testes rápidos, de que se falou hoje aqui também, e que deverão avançar, hoje ouvimos também o Secretário de Estado Adjunto falar que lhes falta sensibilidade. São testes que devem ser usados? São testes que podem ajudar?

Há muitos testes rápidos. O teste PCR tem a vantagem de ser extremamente específico. Se está positivo, está positivo, não há discussão sobre o assunto. Os testes rápidos, dos quais há vários grupos, um deles penso que é isso que estão a pensar, que é pesquisa de antígeno. É razoavelmente específica e razoavelmente sensível. Não é uma PCR, que são os testes que estão a ser feitos. Mas para fazer grandes números, acho sem dúvida nenhuma que pode ser útil e que inclusive permite, se for negativa, em princípio, a pessoa pode ficar descansada. Mas fazer testes destes significa fazê-los repetidamente.

Doutor, uma outra pergunta que lhe ia fazer-

Por exemplo, em Cingapura, em grupos de risco, por exemplo, profissionais de saúde. Em Cingapura, fazem testes dia sim, dia não.

Essa devia ser a medida que nós devíamos ter também aqui em Portugal?

Eu penso que devia ser a medida que devíamos fazer em Portugal e Europa. Toda a Europa está a fazer menos Portugal. Nesse aspecto, estamos todos no mesmo barco.

Relativamente a esta nova recomendação para o uso de máscaras, faz sentido?

Em algumas circunstâncias, particularmente à noite, ou se estiver a chover, em locais com muita gente, faz sentido usar a máscara na rua. Aliás, eu também já o faço há muito tempo. Se está um dia claro e não há demasiada gente, não faz muito sentido andar com a máscara na rua, porque o vento rapidamente dilui o vírus para baixo do número mínimo de vírus capaz de transmitir a infecção. E é importante a questão de haver luz, ou ser dia ou ser noite, porque o vírus é sensível aos ultravioletas e, portanto, o estar ao ar livre com sol é uma medida de segurança.