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Temos agora a oportunidade de falar com José Manuel Moura, o presidente da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil. Muito obrigado por esta disponibilidade. Houve vários avisos da Proteção Civil, do IPMA, para o que se podia passar esta noite. Pergunto-lhe se os avisos foram todos tomados com a devida atenção. Que balanço é que faz sobre a capacidade que houve no terreno, de autarquias, também forças de proteção civil, de responder aos alertas que foram lançados nas últimas 24 horas?

Muito bem, muito obrigado por esta oportunidade também. E permita-me, em primeiro lugar, manifestar o meu mais sentido pesar pela perda de quatro vítimas confirmadas no seguimento desta depressão Christine, que de facto assolou o nosso território. Dito isto, dar nota de que nós somos recetores dos avisos de meteorologia, que são produzidos em função de uma determinada escala de gravidade e, em função disso, tem que casar com aquilo que é depois o nosso estado de prontidão especial. E o estado de prontidão especial tem a ver com a disponibilidade que as forças têm no terreno para responderem adequadamente à tipologia de ocorrências que nós temos. Da nossa parte, temos a perfeita consciência de que fizemos um trabalho preventivo extraordinário, envolvendo todos os agentes. Desde logo, com os avisos que nós dispúnhamos, difundimos um SMS preventivo para toda a população, abrangeu mais de seis milhões de mensagens. Foi feito o comunicado técnico-operacional para os agentes, foi feito aviso à população repetidamente. Fizemos conferências de imprensa, ou seja, tivemos uma atitude preventiva muito significativa, reconhecida pelos pares, em que estávamos na iminência de ter um fenómeno, como o IPMA caracterizou, bastante raro e impactante numa determinada zona do nosso país, que estava indefinida até às três, quatro da manhã.

Não sabiam onde é que ia cair, não é?

Exatamente. Nós tínhamos uma baliza que ia desde o Cabo Carvoeiro até à Figueira da Foz, mas em bom rigor não sabíamos onde é que era a sua porta de entrada, porque o modelo permitia várias possibilidades. Acabou por impactar no concelho de Leiria, distrito de Leiria, ali através de Montreal, atingindo a cidade de Leiria de uma forma brutal e também depois dali a Coimbra, a Aveiro e depois seguiu o seu caminho, entrou para Ansião, Figueiró dos Vinhos, até Castelo Branco.

José Manuel Moura, peço desculpa por interromper, mas qual foi a principal dificuldade que sentiu nestas últimas 24 horas?

Primeiro tivemos esta questão preventiva, e estamos convencidos que funcionou muito bem porque a população acusou muito bem a receção de todos estes avisos, todo este processo que acabámos por fazer. Não fora isso e porventura poderíamos estar numa situação muito mais gravosa. Quanto às dificuldades que refere, é depois retornar ao estado de normalidade. E portanto, o que está a acontecer agora é que nós estamos a fazer, desde já de manhã, uma reafectação de meios para as zonas mais afetadas, em função de outras menos afetadas. Ou seja, imagina, nós tínhamos uma perspetiva de ter também ações significativas, o que não vai acontecer. E portanto, conseguimos balancear esses meios do norte para sul, para o centro, que é quem está a ser mais necessitado. E a reposição da normalidade vai-se fazer em andamentos diferentes. Há uns que vai se conseguir mais rapidamente do que outros, e outros vão merecer um trabalho mais efetivo.

Agora, por exemplo, desobstrução de vias, de estradas, também o retirar dos escombros e de estruturas, serão esses os trabalhos mais complicados que podemos esperar para as próximas horas.

Exatamente. É um trabalho de alguma complexidade. A tipologia de ocorrência mais efetiva foi a queda de árvores. Temos 4.300 ocorrências, o número é dinâmico.

Às 14h da tarde, não era 4.183?

Exatamente. Está a ver? Em menos de 14 horas. E porventura não estarão todas, porque muitas das equipes que estão na rua removem uma árvore e não é por cada árvore que há uma ocorrência, há um conjunto delas. Isso para dizer que o número de ocorrências ainda pode ser muito mais elevado e até à meia-noite, com toda a certeza, este número vai aumentar.

E diria que o município de Leiria foi o mais afetado?

É um dos mais afetados. Será, porventura, o mais afetado, não temos ainda os levantamentos todos feitos, mas será com certeza um dos mais afetados. Aliás, dois secretários de Estado vão se deslocar agora ao terreno, precisamente para se inteirarem melhor. E de facto, é o trabalho que está a ser desenvolvido por todos. E permitam-me aqui uma palavra de agradecimento a todos, aos serviços municipais, aos agentes de proteção civil, Forças Armadas, forças e serviços de segurança, bombeiros, toda a gente que está empenhada em voltar à normalidade no mais curto espaço de tempo possível. E isso é um mérito, que é um trabalho de todos e eu não poderia deixar de o referir aqui.

José Manuel Moura, há pouco no briefing falaram de algumas ocorrências de alguns problemas no SIRESP. Quer explicar que problemas foram esses?

Perdão. O SIRESP teve situações em que funcionou normal, outros funcionou temporariamente embaixo, mas entretanto foram projetadas para lá cinco viaturas de reposição, geradores. Houve sítios onde só o SIRESP é que funcionava, porque nomeadamente a questão de Leiria A REPS, que é a Rede Estratégica de Proteção Civil e a Rede Operacional de Bombeiros, que é analógica e é redundante ao SIRESP, teve um problema que o repetidor dos candeeiros foi destruído por força da intempérie e tivemos um oficial permanente conosco também do SIRESP, e portanto as instituições foram-se resolvendo, nada de muito significativo.

Mas por pouco tempo, houve algum período mais longo?

Sim, foi logo resolvido e a rede está a funcionar. E à medida que cada hora que passa, as coisas tendem a melhorar, e também nesse aspeto.

Porque também se vão repondo as ligações e as linhas. Qual é a sua maior preocupação para as próximas horas?

Olha, as próximas horas era que este empenhamento de toda a estrutura da UABS, da força especial de bombeiros, de todos os agentes de proteção civil, que consigam o trabalho por fixo de maneira a mais rapidamente possível recuperar o estado de normalidade. Isto por quê? Porque as previsões que nós temos é que vai continuar a ter chuva persistente e nós temos uma saturação do solo muito significativa. O acompanhamento que fazemos com a APA, a Agência Portuguesa do Meio Ambiente, também dá-nos indicações de que poderemos estar na iminência de alguns, no Mondego, no Tejo, no Douro, termos episódios de cheias. Isto para dizer que não acabou, isto é um processo ainda contínuo, mas não esperamos eventos nem fenómenos como foi classificada esta ciclogene explosiva, que isso é que não é expectável que venha a acontecer, mas a chuva persistente sim, será a acontecer.

Uma última pergunta, sei que está com tempo limitado. Podem ocorrer inundações nas próximas horas, na sequência da chuva que vai cair e do fato do solo estar empapado. Alguma recomendação especial para as populações?

A recomendação especial é que nós vamos ter aviso vermelho do IPMA para agitação marítima. As pessoas que sigam os conselhos das autoridades, nós temos isso difundido por vários sítios. E ao seguir esses conselhos, que não tenham comportamentos de risco, nomeadamente à agitação marítima, que há uma tendência para irem à procura da melhor fotografia, da onda mais alta. Isso normalmente concorre para uma situação de alguma perigosidade. E portanto, era apelar a todos os nossos concidadãos que estão a receber as nossas ações preventivas, que também continuem a seguir as orientações que as autoridades vão difundindo. Era isso. Muito obrigado.