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Donald Trump estaria a considerar aplicar uma pausa por 90 dias às tarifas anunciadas na semana passada, uma informação que já foi desmentida pela Casa Branca. Que consequências pode ter a divulgação de uma notícia como esta, mesmo que já seja desmentida pela Casa Branca?
A reação que o mercado teve à notícia, que depois acabou por não se confirmar, foi bastante positiva. Na altura, estávamos em plena abertura da Bolsa de Nova York e tínhamos os índices americanos a cair entre 4% e 5%, e em muito poucos minutos passaram para terreno positivo. Ou seja, essa notícia conseguiu impedir que a abertura se tornasse ainda mais negativa, e esse é um fator, mas sobretudo mostrou-nos aquilo que o mercado espera ouvir para poder recuperar, que é algum tipo de abertura que a guerra comercial não escale mais para além daquilo que já escalou. Só que aquilo que se soube depois disso foi que Donald Trump estaria a pensar em colocar mais 50% de tarifas sobre a China, caso a China não abandonasse os 34% que implementou, o que vai completamente no sentido contrário. E, portanto, em resumo, o mercado quer ouvir notícias que sejam conducentes a um acabar da escalada da guerra comercial, mas aquilo que lhe foi oferecido até agora é precisamente o contrário.
E acha possível que os Estados Unidos avancem com esta medida de uma pausa nas tarifas para todos os países, exceto a China?
O que me parece é que os Estados Unidos começam a ser pressionados em várias frentes para ter uma abordagem menos incisiva. Pelos países com quem comercializa e que são seus aliados, sem dúvida, mas também internamente, por dois ângulos. Um deles é o ângulo corporativo, o ângulo empresarial. Já se vai notando que há cada vez mais figuras do meio empresarial, algumas delas bem conhecidas, que estão a avisar Donald Trump de que está a perder a confiança das empresas e dos líderes empresariais. E esse é um tema relevante, porque foi um setor que se aproximou bastante de Trump logo após a tomada de posse. E o segundo, pela via da própria população, através desta forma: a maioria dos estadunidenses, os seus planos de reforma, as suas poupanças para a reforma, são feitas sob a forma de ações. E à medida que o mercado vai caindo, gera-se uma preocupação acrescida nessas pessoas de que possam estar a ver desvalorizar o seu portfólio. Ora, todas estas pressões, as externas, mas também as internas, podem levar os Estados Unidos a tomar uma atitude menos incisiva, ou seja, um bocadinho mais conciliatória. Mas há que reconhecer que, até agora, os sinais que têm sido transmitidos, inclusivamente hoje, vão no sentido contrário.
E a União Europeia já tinha manifestado abertura para negociar e agora oferece tarifa zero nos bens industriais. Se aceitarem, que impacto e consequências é que pode ter nos mercados e para os consumidores?
Qualquer acordo que aconteça entre os Estados Unidos e parceiros importantes, como por exemplo a União Europeia, será sempre positivo para o mercado, porque vai ser percepcionado como um desescalar, ou pelo menos um não acentuar da guerra comercial. Eu pessoalmente defendo que a União Europeia deveria ter precisamente uma atitude de tentar retirar barreiras e não de colocar ainda mais barreiras. Ou seja, não me parece adequado que a resposta da União Europeia passe por retaliar, mas antes aproveitar este contexto, que é um contexto complicado para todos, para tentar chegar a um patamar de menos obstáculos ao comércio. E se isso acontecer, sem dúvida que será positivo, porque da mesma forma que é fácil demonstrar que as tarifas são um imposto, são um peso sobre a economia que as coloca, sobre os consumidores dessa economia, também é verdade que se retirarmos obstáculos, então teremos um cenário melhor para esses consumidores e para essa economia. Portanto, seria bastante positivo que se pudesse chegar a um acordo dessa natureza. E parece-me que este adensar da guerra comercial também não pode ser para sempre. E portanto, haverá algum momento em que se vai começar a chegar a posições mais conciliatórias. Penso que senão a pressão sobre Trump, interna e externa, começará a ser insuportável.
E se rejeitarem, que caminhos a União Europeia pode traçar nesse sentido? Porque falou também aqui da União Europeia não retaliar.
Eu acho que a União Europeia não deveria retaliar. Se retaliar, provavelmente irá fazê-lo, ou poderá fazê-lo, através daquilo que seja mais custoso aos Estados Unidos, ao nível das suas exportações, que são sobretudo ao nível dos serviços e dos serviços de tecnologia. Mas sinceramente, não me parece que esse seja o caminho correto, nem para resolver este tema da guerra comercial, ou seja, não me parece que seja a melhor maneira de lidar com Trump, nem para melhorar a situação da economia europeia. Ou seja, se a economia europeia está sob uma ameaça de desaceleração econômica global, vinda por estas tarifas, ou seja, pela desaceleração econômica de todo o mundo, mas também as dificuldades de exportar para os Estados Unidos, não me parece que seja inteligente colocar ainda mais obstáculos à economia. Portanto, eu preferiria que a União Europeia não fosse pelo caminho de retaliar, mas na ausência de um acordo, continuasse a tentar fazer os melhores esforços diplomáticos no sentido de chegar a um acordo favorável, mas sem retaliações.