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Começava por lhe perguntar: ao olhar para este resultado da Dr. Ferreira da Silva, que é a primeira pública nos rankings das escolas agora divulgados, qual pensa que pode ser o fator que explica esta classificação neste topo das escolas públicas?

Ora bem, nós temos vindo, há longo tempo, a integrar primeiro o ranking das 100 escolas públicas melhor classificadas, depois passamos para o ranking das 50 e há dois anos ficamos na sétima posição e depois na quarta e, efetivamente, este ano, na primeira. Mas tudo isto tem significado, porque é fruto do trabalho intenso mesmo de todos os docentes desta casa e dos alunos. E julgo também de uma monitorização e de uma autoavaliação permanente que vamos fazendo. Também penso que não é despiciendo dizer que o fato de sermos um agrupamento de escolas e, portanto, termos alunos que vão da educação pré-escolar até ao final do secundário, portanto, até à saída pra faculdade, permite-nos acompanhar estes alunos desde tenra idade e, portanto, estruturar todo um conjunto de aprendizagens, um fio condutor, digamos assim, de aprendizagens e que depois terá o seu corolário no ensino secundário.

Falou há pouco no empenho dos professores. Uma das grandes questões que se tem colocado ultimamente, em termos do ensino público, é a falta de docentes. Também sentem esse problema aí no vosso agrupamento?

De forma marginal, numa ou outra disciplina, tivemos alguns dias sem a atividade letiva, que tivemos que compensar de outra forma, mas não é algo que nos tenha afetado de sobremaneira.

Olhando pro panorama geral, continua a manter-se este ano a tendência dos últimos anos de os primeiros lugares do ranking serem escolas do ensino privado e só depois, mais abaixo, aparecem as escolas públicas. Que leitura é que faz desta tendência que se vai repetindo ano após ano, após ano?

Eu julgo que é natural e acho que os fatores estão explicados. O ensino privado trabalhando de uma determinada forma, a escola pública é uma escola que deve ser integradora e, portanto, reflete mais a sociedade e sua composição socioeconômica de uma forma bem diferente. Eu acho que essa diferença parte por aí.

Um fator curioso que não posso deixar de lhe perguntar é o fato de que a Ferreira da Silva é um estabelecimento de ensino que já tinha proibido o uso de telemóveis na sala de aula, mas desde o início deste ano passou a proibir o uso de telemóveis em todo o recinto. Perguntava-lhe que diferenças sentiram no ambiente da vossa escola após tomarem esta decisão?

Estas decisões são sempre consensualizadas, só assim é que fazem significado. Nós percebemos que os telemóveis, de alguma forma, sugavam a atenção dos nossos alunos, perturbavam muitas vezes a aprendizagem nas aulas e, num primeiro momento, decidimos que não havia telemóveis na sala de aula. Mas verificamos, à posterior, que os intervalos eram espaços de silêncio, de não comunicação, porque eles mesmo lado a lado, uns próximos dos outros, não comunicavam, cada um estava no seu jogo ou na sua rede social. Isso perturbou o crescimento saudável dos miúdos. Então, em articulação com as associações de pais, com os representantes de turma, com os assistentes, consensualizamos e todos perceberam que efetivamente tinham a ganhar em se libertar um pouco dos telemóveis. E a verdade é que foi como que magia, os intervalos passaram a ter barulho, correria, vida, ação. Eles olham olhos nos olhos, eles comunicam, eles falam. Foi extraordinário ver esta diferença após essa medida ter sido tomada.

E já é possível tentar perceber alguma relação entre esta proibição do uso de telemóveis e um eventual efeito nas notas dos alunos?

Eu julgo que terá sempre um efeito positivo, no sentido em que eles estarão mais focados, mais atentos, porque não há a tentação do telemóvel, ou da mensagem que cai, porque os telemóveis criam uma potência muito grande nos alunos. E, portanto, julgo que será positiva essa perspectiva.

Professor António Figueiredo, muito obrigado pela sua disponibilidade em falar com a Rádio Observador e em partilhar conosco esta vivência que estão a ter aí na Escola Ferreira da Silva.