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A primeira questão que eu tinha para lhe colocar era em relação a esta longevidade, como dizíamos há pouco. Este mês de janeiro de 2022 é aquele que tem a temperatura média máxima mais quente desde 1931, ou seja, dos últimos 90 anos. Para quem não segue o fenômeno da meteorologia, para quem não está a par da parte mais técnica, por que é que, em termos meteorológicos, este mês de janeiro teve essas temperaturas máximas tão quentes?

Boa noite. Este mês, de facto, está a ser um mês muito interessante em termos de estudo de climatologia. Não tão interessante no resultado e nas consequências, mas em termos do seu interesse científico, está a ser um mês bastante interessante, não só na questão da temperatura, como disse muito bem, na qual a temperatura máxima bateu o recorde, se é assim que podemos chamar, a temperatura mais alta nestes últimos 20 anos, a temperatura máxima mais alta. Mas também a situação da precipitação ou o déficit de precipitação também é marcante. Portanto, todo este fenômeno que nós estamos a registar acaba por estar um bocadinho ligado. Isto por quê? Porque, essencialmente, a responsabilidade, se é assim que podemos chamar, desta situação de janeiro anómala na precipitação e também nesta questão das temperaturas máximas elevadas, está muito relacionada com a configuração da circulação anticiclónica que está estagnada, se é assim que podemos dizer, no Atlântico. O que isto quer dizer? Segundo a nossa análise, e acho que está expresso também no relatório, desde cerca do dia 10 ou dia 9 de janeiro, instalou-se esta circulação anticiclónica sobre o Atlântico, no Atlântico Ocidental, que fica à frente do nosso território continental. Esta circulação anticiclónica centrou-se e está estacionária nesta região do Atlântico. Portanto, ela apenas tem intensificado e desintensificado, tem-se estendido um bocadinho até perto da península e depois retrai um bocadinho. Mas a sua posição tem-se mantido constante. Isto tem feito com que todas as circulações relacionadas com as passagens de superfície frontais e situações depressionárias, que é usual atingirem o território continental nesta altura do ano, não atingem. É como se fosse uma situação de bloqueio, que é assim que nós chamamos, uma situação de bloqueio, e que faz com que não haja esta chegada ao nosso território continental de um ar marítimo mais úmido e que traga as situações de passagens de superfície frontais. Consequentemente, a temperatura também acaba por ser influenciada por esta condição, porque estamos a ter muitos dias de céu limpo, uma atmosfera isenta do nível de umidade elevada e as temperaturas máximas durante o dia vão sendo atingidos valores muito elevados. Já em contraciclo, à noite, as temperaturas mínimas são muito baixas. E é isso que tem acontecido, que foi registado neste mês de janeiro.

Ricardo, esta pergunta que eu agora vou fazer, provavelmente até pode soar muito básica ou muito limitadora. Acredito que haja, como o Ricardo me explicou agora, muitas questões que levam a isto. Mas pergunto, e temos ouvido muito em conversas entre amigos, entre familiares, a questão do aquecimento global, se está ou não relacionado com isto. Por exemplo, o facto desse anticiclone, como dizia, estar estacionado, é também consequência, por exemplo, dos fenômenos do aquecimento global? O aquecimento global pode estar, de alguma forma, também a contribuir para que possamos ter mais vezes fenômenos como o que aconteceram neste mês de janeiro?

Eu gosto mais de falar na questão da alteração do clima ou a mudança climática, do que só centrado na questão do aquecimento. Precisamente por isto, porque a mudança da configuração destes centros de ação está muito também relacionada com a mudança do clima. E estas perturbações ou alterações das circulações típicas nas várias regiões do globo estão diretamente ligadas com uma nova condição do nosso planeta. Vou dar um exemplo. Como temos menos gelo nas calotes polares, por exemplo, há uma percentagem de radiação que era refletida no gelo, que não havendo gelo, não é refletida. Este é um pequeno exemplo de como a condição de um determinado clima pode ser mudada ou pode mudar. E este exemplo que eu lhe dei é um exemplo simples que facilmente todos nós conseguimos perceber. Acho que agora podemos esticar esta situação particular das calotes, como estávamos a falar, para outras regiões do globo onde não há calotes, mas há outras condições de clima diferenciadas. Estas perturbações, de facto, têm alguma relação com esta mudança de clima e que depois nós, de alguma forma, experienciamos, no caso de Portugal, com estas situações de seca, só para fazer um paralelismo, em que temos acompanhado ao longo destes últimos anos, com a monitorização da seca, e o que percebemos é que estas secas no território continental português estão a ter configurações diferentes. Estão a ter, por exemplo, uma intensidade maior, têm uma maior expressão espacial, uma maior magnitude, têm uma maior persistência e também acabam por ser mais gravosas. E esta mudança neste fenômeno das secas, claramente, está muito ligado ou está muito associado aos cenários de clima futuros, porque os cenários que nós temos feito e construído, não só o IPMA, mas várias entidades internacionais, demonstram que, de facto, há uma mudança neste fenômeno das secas. Os modelos que nós utilizamos, de alguma forma, já nos estão a apresentar no futuro e nós, sem Em muito pouco tempo, estamos a experienciá-la com esta mudança, por exemplo, nesta questão da fenomenologia das secas.

E por falar em futuro, não sei se o IPMA já pode dar algumas migalhas quanto a isso, mas em fevereiro podemos esperar, ou pelo menos há a hipótese de fevereiro ser também um mês como este de janeiro, que bata recordes de temperaturas máximas, recordes de seca, comparando com as últimas dezenas de anos, como foi este caso de janeiro?

Como nós temos, de alguma forma, também transmitido, o cenário em termos de precipitação para fevereiro não é o mais animador. E como também já explicámos, o não ser o mais animador não quer dizer que não haja precipitação. As previsões que nós temos desenvolvido e trabalhado nestas últimas semanas para o mês de fevereiro, apontam para que o mês de fevereiro seja um mês com déficit de precipitação, tal como houve em janeiro. Agora, a magnitude desse déficit de precipitação é que ainda está difícil de quantificar. O que podemos dizer é que fevereiro vai ser o mês com uma quantidade de precipitação, em termos globais, no nosso território continental, abaixo do normal. E portanto, só este fator já é preocupante, na minha opinião, tendo em conta que nós estamos a vivenciar este fenómeno de seca meteorológica desde novembro de 2021. Acaba por ser um fenómeno persistente, também, e que se não houver precipitação em valores acima do normal, não iremos conseguir repor os níveis, por exemplo, das barragens. Isso é uma consequência da não reposição da precipitação em níveis ou em quantidades que seriam acima do normal. Portanto, para repormos a quantidade de água nas albufeiras, terá que existir a precipitação acima do normal. E portanto, aquilo que nós estamos a prever para o mês de fevereiro é que ela não seja acima do normal, pelo contrário, seja abaixo do normal.

Ricardo Deus, uma última questão e sugeria que voltássemos também um pouco ao passado para prever o futuro. Um dos dados que me chamou aqui a atenção neste relatório do IPMA é precisamente quanto à precipitação. Diz que este mês de janeiro foi o sexto mais seco em 90 anos e o segundo pior desde 2000. É apenas superado por janeiro de 2005. Janeiro de 2005 foi, coincidentemente ou não, um dos piores anos de sempre da história de Portugal em termos de incêndios, provavelmente, e aqui é apenas uma suposição minha, superado apenas por 2017. O governo e as pessoas podem estar preocupadas com o verão de 2022 também muito intenso em termos de incêndios, tendo em conta que, à semelhança de 2005 e agora em 2022, janeiro não tem quase chuva, fevereiro, como disse há pouco, também não há uma grande previsão. Devemos estar preocupados também com esses incêndios que podem chegar no verão de 2022?

Os incêndios florestais, que nós infelizmente também temos experienciado em Portugal continental, estão muitas vezes ligados a situações de seca prolongada. E, de facto, este ano, se as previsões para março, abril e até maio não forem um pouco mais animadoras em termos de precipitação, podemos chegar aos meses de verão ainda com uma situação mais gravosa em termos de déficit de precipitação. E isto poderá implicar ou não, fazer uma ligação ou uma relação direta, não me parece que seja, neste momento, a melhor forma de analisarmos o próximo verão, até porque podemos ter uma situação de seca prolongada, mas depois não termos um verão com temperaturas muito elevadas e com índices de humidade muito baixos. Portanto, se não houver, por exemplo, essas duas condições, provavelmente o verão, em termos de incêndios florestais, não será muito gravoso. Estamos aqui a conjeturar. Fazer uma ligação direta entre a situação de seca e depois a eventualidade de termos um verão, por exemplo, com incêndios florestais de magnitude elevada ou de grande intensidade ou de muita persistência, não me parece que seja, de todo, neste momento, interessante de fazer essa análise. Como é óbvio, os cenários têm que ser analisados e colocados, neste caso, para o verão. E portanto, quem irá fazer este tipo de gestões, e em Portugal temos várias entidades que desenvolvem trabalho e têm responsabilidades nesta área, provavelmente estarão já também a olhar para o verão com preocupação, como é óbvio, e a preparar alguns procedimentos de acordo com os protocolos que estão estabelecidos. Mas eu diria que, neste momento, é prematuro estarmos a olhar para o verão com esta preocupação muito direta com os incêndios florestais.