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Junta-se a este jornal Rita Figueiras, é professora da Universidade Católica e investigadora em comunicação política, a quem agradeço desde já a disponibilidade para se juntar aqui a nós no jornal das 10 da Rádio Observador. Bom dia, Rita Figueiras, bem-vinda. Começo por lhe perguntar por que há esta relação difícil entre os eleitores portugueses e a Europa. É uma eleição que diz menos ao eleitorado?
Sim, o que nos tem demonstrado ao longo dos anos cada ato eleitoral para o Parlamento Europeu é que quanto mais distante é a geografia desse ato eleitoral, menor é o envolvimento dos portugueses. Assim têm dito os resultados eleitorais e a abstenção é sempre o valor mais alto, a abstenção em qualquer ato eleitoral realizado no nosso país. Por outro lado, também tem havido, não sabemos se é bem uma coincidência, ou um fator certamente que também influencia, é o fato de estas eleições tenderem a ser numa altura em que pode haver ou feriados ou tempo melhor. E como sabemos, muitos fatores são sempre dissuasores para que as pessoas se mobilizem para o voto. E essa alteração que este ano dessa maior flexibilidade, não só de poder votar noutro dia, mas também noutro local, nomeadamente no dia 9 de junho, o fato de as pessoas poderem votar em qualquer sítio, isso com certeza ajudará a que a abstenção possa diminuir, mas será certamente um elemento muito importante para pensar, efetivamente, o conjunto de razões que podem dissuadir os portugueses de votarem nas eleições europeias. E se me permite, antes de terminar, ainda dizer que o fato deste ser um tema que não tem uma grande saliência nos meios de comunicação social ao longo do tempo, também faz com que se tenha menor percepção de que o envolvimento nas eleições europeias pode significar qualquer coisa, ainda que seja na capacidade de intervenção e de participar em algumas decisões que acontecem ao nível das instituições europeias.
Rita Figueiras, pergunto-lhe também se o voto antecipado, já levantou um pouco o véu em relação a isso, mas o voto antecipado vai ser capaz de contrariar os números? Ou seja, tendo em conta que temos aqui esta possibilidade de os portugueses poderem votar noutro dia, noutro local, isso pode aqui também ser suficiente para levar os eleitores às urnas?
Pelo menos é um fator que facilita. Até facilita outra questão, que é, como nós temos estado a ver, e dados recentes publicados também demonstram isso, tem aumentado o número de pessoas que decidem no momento. Que decidem ir votar no próprio dia, não só decidem onde vão votar, mas que faz sentido ir às urnas e depositar o voto.
E Rita Figueiras, tendo em conta que é também investigadora em comunicação política, isso tem sido bem comunicado, ou seja, tanto nos debates, na campanha, nas ações de rua, os candidatos têm passado bem essa mensagem de que qualquer pessoa pode votar mais cedo, pode votar em qualquer sítio?
Exatamente aí para essa questão, que é não só essa flexibilidade ajuda a uma ação espontânea de dizer: "Afinal vou votar" e pode concretizar esse voto, porque pode fazê-lo em qualquer lugar. Mas também foi publicada recentemente uma sondagem da Universidade Católica que dava conta de que mais de 50% do eleitorado não tinha noção que podia não só votar em qualquer lugar, como não precisava sequer de registar previamente essa intenção. Significa que há aqui uma necessidade, principalmente nesta última semana, porque o que não foi feito, já não foi feito, mas ainda durante esta semana, parece-me que é de extrema importância dizer muitas vezes, porque tem que ser muitas vezes, porque leva muito tempo até as pessoas fixarem uma determinada ideia, principalmente nas questões políticas, que nós sabemos que não são muitas vezes a prioridade das pessoas estarem a acompanhar com detalhe, com cuidado, o que se passa do ponto de vista político. Portanto, dizer nos mais variados espaços, em todas as oportunidades, avisar as pessoas que podem votar em qualquer lugar onde elas se encontram no país no dia 9 de junho. Parece-me que essa questão é extremamente importante, porque este dado da sondagem, que já é da segunda metade de maio, nas últimas semanas de maio, parece-me um indicador preocupante, o fato de mais de 50% dos eleitores não saberem que podem fazer esse voto em mobilidade sem precisarem de se registarem previamente.
Rita Figueiras, tendo em conta também que, como disse há pouco, é investigadora em comunicação política, gostava que pudesse fazer aqui conosco um pequeno balanço. Não lhe vou perguntar quem é que está melhor neste momento em termos de agregação do eleitorado, mas gostava de lhe perguntar quem é que tem comunicado melhor, quem é que tem conseguido chegar mais facilmente, mais rápido aos vários eleitores, e também de que forma é que as estratégias utilizadas a têm surpreendido. Tem havido, por exemplo, alguém a apostar especialmente no digital?
Parece-me que esta campanha vai em linha com todas as outras campanhas, que têm muito centrado sempre a ideia que um trabalho em campanha eleitoral serve principalmente para desacreditar os projetos dos outros candidatos, atacar os oponentes e fazer uma campanha muito centrada em polêmicas. Porque também, como se percebe claramente, estes ataques, o desacreditar, um discurso mais negativo em relação aos oponentes, é sempre uma ferramenta de acesso aos mídia. Dar mais atenção e o objetivo dos candidatos não só é ter mais atenção, como também depois ter a capacidade de reter essa atenção. E vemos muito nas notícias, porque um partido ataca o outro, um candidato ataca o outro e essa bola de pingue-pongue vai pra um lado, vai pro outro, tende a dar visibilidade aos candidatos. Falávamos sobre as questões das estratégias em termos das redes. Vemos aqui alguma continuidade, como eu dizia, mas parece-me que há aqui, em termos de um exemplo, que ilustra bem o que é a relação de proximidade e de quase personalização de uma campanha que o digital também potencia. O caso da Iniciativa Liberal com o candidato João Cotrim Figueiredo a responder a questões e depois a usar o nome da pessoa que colocou a questão para estabelecer aqui um diálogo direto, mais personalizado com os eleitores. Não sei, mas presumo que sejam utilizadas algumas ferramentas de inteligência artificial que permita alterar o nome da pessoa sem precisar do candidato para fazer não sei quantos vídeos, mas não sei, é só uma hipótese. Mas parece-me que aí é uma estratégia clara de potenciar uma relação de proximidade, maior personalização, como eu dizia. Da mesma maneira, também o Chega está a fazer isso, o líder do partido, que não é o candidato oficial, mas oficioso, digamos assim, que também lançou esse mesmo repto de interatividade, pedindo aos eleitores que lhe coloquem questões e que o próprio poderá responder. Questões que serão do âmbito das eleições europeias, mas também como nós estamos a ver no início desta segunda semana de campanha, e principalmente com maior presença dos líderes partidários ao pé dos cabeças de lista, é que a campanha também está cada vez mais a centrar em questões nacionais e menos em questões europeias.