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Contamos em directo neste jornal com o jornalista especialista em religião, Filipe de Avilez. Obrigada por estares connosco. Estamos perante um avanço histórico na Igreja ou isto é apenas um gesto de proximidade pastoral e não uma aprovação do casamento entre casais homossexuais?

Boa tarde. São um bocadinho as duas coisas. Vamos lá ver. Por um lado, isto não é mais do que uma clarificação de uma resposta a uma série de perguntas que tinham sido feitas ao Papa em outubro. Já na altura se falou disto, o Papa estaria ou não a permitir que se abençoasse casais do mesmo sexo e uma leitura atenta da resposta permitia dizer que o Papa permitia que pessoas em uniões do mesmo sexo pedissem bênçãos para as mais variadas áreas da sua vida e que essas fossem concedidas, mas sempre com a ressalva de não confundir isto com casamento, não confundir isto com uma aprovação dessa união em si, como condição de vida. A diferença neste documento é que se faz um aprofundamento muito maior daquilo que é uma bênção. Portanto, logo a seguir surgiram pessoas a dizer: "Mas afinal de contas, o que é uma bênção, senão uma aprovação, senão um sinal de que Deus aprova do nosso comportamento?". E este documento esclarece, aprofunda. Aliás, é um texto teologicamente muito bonito, em que explica que há diferentes tipos de bênção. As bênçãos de Deus que descendem sobre os homens, que manifestam que a vida e conduta do homem está de acordo com aquilo que Deus quer para ele, mas há também as bênçãos que têm por objetivo ajudar a pessoa a ser melhor. E é nesse contexto que se devem inserir estas bênçãos, que nunca devem assumir uma forma litúrgica, ou seja, uma forma formal, com todos os ritos inerentes a uma celebração litúrgica. São bênçãos espontâneas. Para dar um exemplo, duas pessoas do mesmo sexo que estejam numa união, imaginem que adotam um filho e querem educar esse filho. A Igreja pode aprovar ou pode não aprovar a ideia de um casal do mesmo sexo adotar, mas quer com certeza que aquele filho receba a melhor educação possível. Então pode dar uma bênção individualmente ou ao conjunto ou aos dois, para que eduquem o seu filho da melhor forma possível. E este texto diz também, e aí a linguagem pode não agradar a quem quer um reconhecimento pleno e igualitário das diferentes uniões entre homem e mulher e entre dois homens ou duas mulheres, quando compara estas bênçãos, por exemplo, a um recluso, a um ambiente de uma prisão em que as pessoas sabem que não estão a viver de acordo com a vontade de Deus, mas querem melhorar. E então que esta bênção sirva também para encontrarem em si as forças para mudar. Isso lido à luz da doutrina da Igreja, poderia até ser entendido como uma forma de mudar o seu comportamento para viver de acordo com o que a Igreja ensina, que é que as relações entre homossexuais não devem ser aprovadas. Portanto, é um documento com muitos graus de leitura, porque isto é o que está lá dentro. Depois, outra coisa é o que passa cá para fora e o sinal que isto transmite e que, por um lado, pode ser bom, porque é mais um sinal para todas as pessoas, e recordo que não estamos a falar só de homossexuais, estamos a falar de pessoas também em uniões que não são casadas ou porque não querem ou porque não podem, porque uma se calhar já tinha sido casada pela Igreja e agora é divorciada, portanto, abrange todas essas pessoas. Mas é mais um sinal que a Igreja dá de que são bem-vindas. A porta não está fechada, entrem e tudo o que é bom na sua vida é um dom para a Igreja e aquilo que não está de acordo com o que a Igreja ensina, temos esperança que possa melhorar. Portanto, por um lado, é isso. Por outro lado, pode ser entendido como uma via aberta agora para toda a gente fazer como quer e não é isso que o documento diz. E portanto, nesse sentido, se um casal homossexual amanhã se dirigir a um padre e dizer: "Olha, nós queremos marcar aqui a nossa bênção, queremos fazer uma celebração com os nossos amigos e os dois vestidos de frac", etc. O padre vai ter que dizer que não. E isso pode ser uma desilusão e depois as pessoas pensam que afinal a Igreja diz uma coisa e pratica outra. Portanto, é preciso alguma cautela e, mais uma vez, como tinha ficado claro nessa tal resposta que o Papa tinha dado anteriormente, deixa-se muito ao discernimento dos pastores. E isso é importante, porque os pastores é que conhecem. Cada caso é um caso, cada pessoa é uma pessoa e há pessoas em diferentes situações e com diferentes graus de proximidade com a Igreja e que querem as bênçãos por razões diferentes, algumas por razões sinceras, outras como algo para mostrar à sociedade.

E é por isso que é importante interpretarmos este texto, mas de qualquer modo, pode ser um dos marcos que o Papa, que fez ontem 87 anos, deixa no Vaticano?

Sim, é sem dúvida, até porque há aqui claramente uma rutura com uma indicação anterior, já não me lembro agora ao certo da data, mas penso que do pontificado de Bento XVI, em que a mesma Congregação para a Doutrina da Fé tinha dito: "Absolutamente não, não se pode, em condição alguma, abençoar uniões do mesmo sexo". E aqui faz-se essa clarificação. Diz: "Sim, senhor, isso continua a se aplicar para qualquer coisa que possa representar uma confusão com o verdadeiro casamento, que é entre um homem e uma mulher, mas há outras áreas da vida que podem ser objeto de bênção, uma bênção mais informal". Portanto, nesse sentido, é diferente. Agora, claramente há um desenvolvimento. Uns lerão isto como uma rutura, outros como um mero desenvolvimento daquilo que já tinha sido dito antes, mas que é um marco, é.