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Junta-se a nós nesta edição das 18h o economista Luís Aguiar-Conraria, membro do painel Fora do Baralho, da Rádio Observador. Luís, boa tarde. Que sentimentos te despertam todo este caso e este imbróglio com que somos agora confrontados?

Eu desde o início, desde que se soube que aquela reunião no dia anterior tinha sido combinada e portanto a reunião tinha lá tido o grupo parlamentar, membros representantes do governo e a CEO da TAP, eu desde essa altura achei que a situação do ministro era complicada e que se de facto se confirmasse que ele tinha atuado de forma a haver ali alguma coordenação, que não lhe restava muito mais que não a demissão. Porque aqui estamos a falar do regular funcionamento das instituições, que é o principal motivo para se mandar um governo abaixo e para se mandar um Parlamento abaixo. E aqui claramente é uma situação porque a Assembleia da República tem como função vigiar o governo, controlar o governo. O governo responde perante a Assembleia da República. A partir do momento em que temos um governo a manipular desta forma tão grosseira as funções da Assembleia da República, é evidente que é o regular funcionamento que está em questão.

Sabe o que é agora este dado novo? Não se sabia como é que Christine Ourmière-Widener tinha tido conhecimento da reunião do grupo parlamentar do Partido Socialista. De acordo com o adjunto agora demitido, foi o próprio ministro João Galamba que informou Christine Ourmière-Widener dessa mesma reunião.

Ou seja, percebemos o cuidado que Galamba teve naquele desmentido que fez de que tinha sido a CEO que tinha manifestado vontade de participar nessa reunião. Aquilo era um comunicado um bocado dúbio, que dava para várias interpretações e portanto ele não mentindo descaradamente aí, a verdade é que agora começa a ficar mais claro. Começa a ficar mais claro que houve esse controle. E mais, neste momento também é claro que o adjunto é o braço direito. O seu braço direito esteve mesmo em reuniões a preparar uma manipulação, não há outra forma de lhe chamar, é manipulação daquilo que não era uma comissão de inquérito ainda, mas de audição que ia ocorrer no dia a seguir. Isto na minha opinião já é suficiente. Já estamos a falar do irregular funcionamento das instituições, em que o governo está a manipular a Assembleia da República, isso para mim já é suficiente para a sua demissão. Claro que se se vier a confirmar que ele pretendia mesmo mentir, aí então aí nem sequer há margem de manobra. Não sei se as pessoas têm consciência disso, mas numa comissão parlamentar de inquérito, as pessoas estão mesmo legalmente obrigadas a dizer a verdade. Mentir numa comissão parlamentar de inquérito é mais ou menos o mesmo que mentir em tribunal, num julgamento. Têm estatutos semelhantes e portanto, claro que se se vier a confirmar isso, nem sequer há hipótese, tem de ser demitido e acabou-se.

E este caso põe em causa também este governo ou apenas o ministro? Pergunto isto tendo em conta a sucessão de casos que têm abalado o Executivo liderado por António Costa.

Eu não consigo responder essa pergunta. Eu diria que é quase inédito demitir um governo que está com maioria absoluta em funções há cerca de um ano. Há o caso de Santana Lopes, mas Santana Lopes não tinha sido eleito, portanto não tinha a legitimidade política que António Costa tem e portanto eu tenho dificuldades em ir tão longe. Mas vamos pôr as coisas nestes termos. Eu não tenho dúvidas nenhumas que se houvesse uma alternativa clara ao PS e a este governo, que Marcelo Rebelo de Sousa estaria a ponderar isso de forma muito séria. Assim não tenho a certeza. Com esta ausência de alternativas é complicado. Uma pessoa pensar que o PSD pode ficar refém do partido que fez aquela esterqueira no dia 25 de abril, é complicado para um presidente tomar a decisão de convocar eleições.

As dores de cabeça de Marcelo Rebelo de Sousa. Luís Aguiar-Conraria, agradeço a disponibilidade para estares connosco.