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No seguimento dos sismos na Turquia e na Síria, o diretor dos Médicos Sem Fronteiras alerta para o risco de propagação de doenças. Também um médico turco afirmou que há casos de sarna, cólera e febre a surgirem entre os sobreviventes e que é fácil o contágio no contexto atual. Doutor António Martins, já era expectável um cenário destes acontecer?
Na verdade, sempre que temos um cenário destes, uma das coisas que nós já contamos que acontece é efetivamente este aumento de doenças transmissíveis. Primeiro, porque temos áreas em que as pessoas vão ficar mais concentradas, há desalojados, há uma sobrelotação dos espaços e aumenta então esta transmissão de doenças, principalmente as que são transmitidas de pessoa a pessoa. Por exemplo, neste momento, segundo o relatório da OMS, também está um surto de cólera na Síria, que é algo que também pode ser exacerbado agora com estes sismos e com esta destruição toda, uma vez que as fontes de água potável que existiam podem também estar cada vez mais contaminadas. Portanto, isto é algo que estamos sempre alerta para que possa acontecer e que deve ser logo desde o início controlado e ao mesmo tempo vigiado para que não se perca o controle a este tipo de doenças.
E qual é que é o cenário mais preocupante que está a ser vivido? É mais na Síria do que na Turquia ou é em ambos os países que está muito grave?
Neste momento, ambos os países têm problemas. Tanto na Turquia como na Síria temos hospitais que já foram afetados, até há hospitais de campanha que já estão a ser montados e, portanto, a partir do momento em que temos unidades de saúde que estão a ser atingidas, os cuidados de saúde dessa população vão diminuir. E a partir do momento em que temos menores cuidados de saúde, todas estas doenças que surgem nestas catástrofes, todas estas doenças transmissíveis e mesmo as doenças não transmissíveis que as pessoas já têm, as doenças crónicas, as pessoas acabam por não conseguir fazer um controlo tão apertado ou tão desejável como faziam até agora. E há o risco de aumento de todas essas doenças, todas as descompensações das doenças já crónicas. Portanto, ambos os países vão ser muito afetados neste momento.
E que perigos é que acabam por estar subjacentes a este problema? Que cenários também se pode prever que possam vir a acontecer?
Pronto, aqui neste caso, como eu estava a dizer, temos uma destruição de tudo o que é fonte de energia, vias de comunicação, fontes de água potável, até de saneamento, alimentos, etc. E portanto, tudo isto condiciona o aparecimento de doenças que são transmitidas pela água, doenças tal como a cólera na Síria, que já existem e que vão aumentar expectavelmente. Mesmo o saneamento que existir pode também estar a contaminar este abastecimento de água potável e nós sem água não conseguimos propriamente sobreviver durante muito tempo. Portanto, o aumento destas doenças todas vai contribuir para que a mortalidade não imediata também vá aumentar. Além disso, se as pessoas não conseguirem ter acesso a cuidados mais imediatos, nomeadamente depois de ferimentos, de traumas, queimaduras, que também tenham resultado desta situação inicial, vão infetar, portanto, vão também ficar cada vez mais graves ao ponto de podermos ter uma mortalidade e uma morbilidade muito mais aumentada ao longo do tempo. Daí que neste momento ainda só vimos a ponta do iceberg e a não ser que se consiga restabelecer os cuidados de saúde de uma forma atempada e de uma forma rápida, nós vamos ter também o aumento destas situações com o arrastar do tempo. Além disso, temos também o frio, temos a neve, temos a chuva, que aumenta depois a transmissão das doenças respiratórias e, portanto, todas estas situações são riscos que podem acontecer neste momento na Síria e na Turquia.
O que é que pode ser feito agora, tanto no local como aqui em Portugal e nos outros países, para conseguir ajudar a combater este problema?
Neste momento, no local, têm que ser então constituídos os tais hospitais de campanha, unidades de saúde que consigam dar resposta a estas situações. Os próprios abrigos onde as pessoas sejam colocadas, tentar ao máximo que não estejam sobrelotados e a forma como eles estiverem montados, tem que haver um controlo bastante apertado das condições higienosanitárias. Tem que haver controlo de vetores para evitar a transmissão de doenças que sejam transmitidas por estes vetores. E eliminar ou tentar pelo menos reduzir alguma contaminação de água que possa existir. Mesmo a própria gestão das doenças crónicas que a população tenha. Tentar que as pessoas sejam sensibilizadas para que esse descontrole não possa existir. Algo que também deve ser imediatamente implementado é um sistema de vigilância epidemiológica para detecção e controlo de algum surto que possa existir no meio desta situação, nos vários abrigos, etc. E além disso, ter todo o apoio que consigam ter em termos humanos para conseguirem prestar estes cuidados a essa população. À distância, a única coisa que nós conseguimos é mesmo tentar as equipas que conseguirem deslocar para o local, tal como já foram as da Proteção Civil, do INEM, etc, de Portugal. O resto da população, neste momento, não consegue fazer muito mais, a não ser se for necessário com algumas mantas ou até água que possa vir a ser necessário, alimentos, etc, contribuir dessa forma.
Mas para terminar, quem é que está mais vulnerável com esta situação? Quem é que são os mais vulneráveis?
Neste momento, crianças e idosos são sempre os mais vulneráveis. E depois, todos aqueles que já tinham comorbilidade ou que já tinham doenças graves, são os primeiros a serem afetados por estas situações. A partir daí, esta é uma situação também que provoca algum descontrole, desequilíbrio no próprio corpo. Portanto, mesmo com o frio, com tudo, as pessoas acabam por ter alguma vulnerabilidade acrescida. Mas principalmente os mais vulneráveis, ou seja, crianças, idosos e os que têm algumas comorbilidades já mais graves.