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Junta-se agora a nós nesta edição especial de "O Campeão é", Toni, antigo jogador de futebol e treinador. Toni, muito bem-vindo a esta edição especial. Privou com o Artur Jorge de muito perto durante seis temporadas no Benfica, entre 1969/70 e até 1975/76. Gostava de lhe perguntar como é que era este goleador, porque mais recentemente pensamos em Artur Jorge como treinador, visionário, vencedor da Taça dos Campeões Europeus, mas como jogador foi um avançado formidável.
As minhas primeiras palavras vão para a família, naturalmente, e para os amigos, para partilhar esta hora de dor profunda que a família vive e naturalmente também os seus amigos mais próximos. São palavras e lugares-comuns dizer que o futebol português ficou mais pobre. Ficou, porque perde um dos seus valores maiores, não só naquilo que foi como jogador e como treinador e selecionador também de Portugal, mas também o cidadão. É que o Artur Jorge foi um homem de causas. E de causas que começaram em Coimbra, depois se prolongaram também pela sua passagem por Lisboa. Eu conheci o Artur Jorge ainda cedo. Ele era júnior do Falco do Porto e eu era júnior do Anadia. Encontrámo-nos nessa altura, mal sabíamos nós que os caminhos se iriam cruzar, primeiro na Associação Académica de Coimbra e depois no Sport Lisboa e Benfica. Tivemos alegrias, muitas, algumas tristezas, a vida é feita assim e o futebol não foge à regra. E hoje é realmente um dia de uma tristeza imensa, mesmo que soubéssemos que era uma morte anunciada, porque a doença já o minava há muito tempo e sabíamos que um dia destes esta notícia chegaria.
Toni, gostava de lhe perguntar e falou há pouco dessa questão de Artur Jorge ir para lá do jogo, ir para lá do mero jogador de futebol.
A parte da cidadania é muito mais importante.
Exatamente.
Essa é a outra parte que toda a gente sabe.
Claro. Uma das coisas que salta aqui à vista é o facto, para além de ter sido o primeiro presidente do Sindicato dos Jogadores Profissionais de Futebol, foi alguém que lutou muito pelos direitos dos jogadores. O Toni, quando privou com o Artur Jorge no balneário do Benfica, quando eram ambos jogadores, notava também que o Artur Jorge era esse defensor da vossa causa, dos vossos direitos?
Se eu estou a dizer que já o conheço antes de chegar ao Benfica, eu já privei com o Artur Jorge em Coimbra.
E já isso notava?
Essas são mesmo lutas que começam em Coimbra.
Nasce em Coimbra, principalmente.
O aparecimento do sindicato e ele é um dos primeiros, aos quais se juntam o António Simões, Pedro Gomes, uma série de outros elementos do qual o Artur Jorge é a rotina, uma série de jogadores para essa luta que era o direito de opção. E o direito de opção é uma coisa que as pessoas não sabem, mas você era propriedade dos clubes. Não é hoje, você termina o contrato e hoje você é livre. Não, você terminava o contrato e continuava jogador do clube. Entende? E essa grande luta teve no Artur Jorge, que foi um dos primeiros, senão o primeiro presidente do sindicato. Mas além dessas lutas que ele teve em termos de defensor dos direitos do jogador, ele teve outras ligações onde lutou. No fundo, antes do 25 de Abril, houve muita gente a contribuir para que o regime anterior tivesse caído. E ele pertence a esse leque, por isso falava naquilo que era o grande jogador e o grande treinador que foi, mas o grande cidadão que foi o Artur Jorge. Aliás, há também até o lado mais intelectual, onde aparece um dos vários livros, "Vértice d'Água", que é um dos seus livros de poemas que marcam também a matriz do que era feito o Artur Jorge.