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Jorge Roque da Cunha, este aumento da procura não é novidade neste período de inverno. Os hospitais têm sempre que, nestas fases, enfrentar uma procura mais elevada. Mas oito horas não é demasiado?

Muito bom dia. A questão é justamente essa. Neste momento, o que estamos a assistir é uma total insensibilidade e incapacidade por parte do senhor Ministro da Saúde, que agradavelmente coloca as questões. Sempre foi assim, a procura neste momento aumenta, mas existe um problema estrutural no nosso país. Pontualmente, eu posso dizer que esta noite o Hospital Garcia de Orta também não recebeu doentes do INEM, para não falar das várias maternidades que estão em contingência. E de fato, estas notícias tanto repetidas, muitas vezes deixam de estar ao nível da preocupação. Nós sabemos como é o fenômeno comunicacional. E esta insensibilidade, de fato, é gritante, porque o governo sabe que no país, cerca de 60% das urgências são garantidas por colegas que são prestadores de serviço. Sabe que em muitos hospitais as escalas estão abaixo dos mínimos. Sabe, inclusivamente, que há hospitais, como o Hospital de Faro, que introduz nas urgências de pediatria médicos que não têm a possibilidade de exercer medicina em Portugal. Sabe que muitas destas urgências são asseguradas por colegas sem especialidade, colegas que fazem prestação de serviço 72 horas seguidas. Isto está tudo documentado. Aliás, nós, inclusivamente ontem, apelamos mais uma vez à Inspeção-Geral de Saúde que tomasse as medidas devidas para que isso seja identificado e naturalmente corrigido. Temos só uma resposta política. E o problema é justamente este. Quando se diz que as pessoas vão aos hospitais por questões menores e as enviam para o centro de saúde, eu dou o meu exemplo concreto. Eu, no feriado passado, fiz atendimento a utentes sem médico em Moscavide. Ao chegar, às 9h45, estavam mais de 250 pessoas, quando somos três médicos e só podemos garantir o acompanhamento a cerca de 90 desses doentes. Portanto, não é possível estar a dizer que se mandam grávidas para os centros de saúde, como, aliás, irresponsavelmente, o responsável das urgências da Comissão das Urgências, Aires de Campos, o fez ainda recentemente, porque isso não é uma solução. E a solução passa por medidas que tenham em condição e que respeitem as pessoas. O que está a acontecer hoje, exatamente? Muitas das pessoas que têm sido sintomas graves, ao saberem desses tempos de espera, não vão aos serviços de urgência. Muitas das pessoas que recorrem ao serviço de urgência são pessoas que estão em situação gravíssima. Claro que há pessoas que têm sintomas ligeiros e médios. Aliás, ninguém vai para uma urgência por querer, ninguém vai se divertir para uma urgência estar sete, oito, nove, 10 horas.

Jorge Roque da Cunha, nós estamos aqui a falar de uma realidade que parece, eu não diria exclusiva, mas que parece muito concentrada na área da Grande Lisboa. Por exemplo, se olharmos para os tempos de espera no Porto, nos hospitais do Grande Porto, os tempos de espera parecem de acordo com aquilo que está previsto e que é normal. Hoje mesmo o ministro da Saúde dá uma entrevista ao jornal de notícias, ao Diário de Notícias e à TSF, onde faz claramente essa referência à diferença entre Lisboa e o Porto, entre a região Sul e a região Norte. O que se faz de diferente no Porto que se podia fazer também em Lisboa?

Olhe, desde logo, o número de utentes sem médico. Na zona de Lisboa, há cerca de 1 milhão de portugueses que não têm médico de família, esses não têm qualquer tipo de solução, por um lado. Por outro lado, o senhor Ministro da Saúde sabe perfeitamente que, por exemplo, hoje, no Hospital de Castelo Branco, os internistas que garantiram o serviço de urgência são prestadores de serviço e que teve só uma pessoa no serviço de cirurgia e que não pôde, naturalmente, fazer esse tipo de cirurgias. Sabe perfeitamente que ao nível do país, em termos gerais, em Penafiel, em Viana do Castelo, em Bragança, este tipo de situações existem. E, portanto, não adianta estar a dizer que isto não é um problema, quando é um problema que tem uma grande gravidade e que está a pôr em causa a vida das pessoas.

Jorge Roque da Cunha concorda que no Porto a gestão de recursos é melhor, é mais bem-feita, ou não? Ou não concorda com esta ideia? Eu estou lhe perguntar porque vai no seguimento daquilo que o ministro da Saúde diz hoje ao Diário de Notícias.

Essa questão de tentar dividir Lisboa e do Porto, em termos de cuidados de saúde, não é certa, não é correta e não deveria fazer parte da resposta política do ministro da Saúde.

Mas se for assim, se calhar Lisboa pode, de fato, aprender alguma coisa com o Porto, ou não?

O que tem a ver com o Porto é que tem menos utentes sem médico. Mas no Algarve, este problema é um problema gravíssimo, tal como Lisboa, tal como em Castelo Branco, tal como na Covilhã, por exemplo. E, portanto, não adianta o senhor ministro da Saúde desvalorizar o problema. O senhor ministro da Saúde no Parlamento diz que sempre foi assim. E não deveria ser sempre assim, porque nestes sete anos, o senhor ministro da Saúde sabe que há menos médicos no Serviço Nacional de Saúde. Sabe que há mais pessoas com doenças mais graves, até agravadas pela circunstância da pandemia, não terem sido devidamente acompanhadas, a chegar mais gravemente aos centros hospitalares. E por isso deve encontrar soluções. Não deve dizer que o Hospital de São João, que de fato teve como gestor uma pessoa como o doutor Fernando Araújo.

E que agora é CEO do SNS e que, portanto, talvez também por isso tenha sido escolhido.

Que exatamente, desde sempre, liderou com mestria muitas das situações, até da pandemia, é uma ilha isolada. E mesmo o Hospital de São João-

Temos que fechar, Jorge Roque da Cunha. Para terminar.

Mesmo o Hospital de São João, há matérias que precisam ser melhoradas e, portanto, não desvalorizar, respeitar os portugueses e tomar medidas.

Obrigado, Jorge Roque da Cunha, por mais uma vez ter participado na emissão da Rádio Observador. O governo já prometeu contratualizar 700 vagas para os cuidados continuados com o setor social, isto para retirar doentes hospitalizados apenas à espera de alta social e libertar camas no internamento